segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Carta do Prelado

Caríssimos: que Jesus guarde as minhas filhas e os meus filhos!

Ao mencionarmos o mês de agosto, vem-nos espontaneamente à cabeça o tesouro da nossa Mãe, porque Ela é o tipo da Igreja. Recorramos a Nossa Senhora, muito particularmente nestas semanas, para que Ela nos obtenha da Trindade uma vida limpa, que facilite a nossa relação com a Verdade em tudo e para tudo, que nos torne mulheres e homens de alma – insisto – limpa, mais leais a Deus; e assim seremos mais Igreja, mais Opus Dei.

Escrevo-vos da terra brasileira, já terminada a Jornada Mundial da Juventude. Foram dias de grande intensidade espiritual, em que estivemos muito próximos do Santo Padre e na companhia dos Bispos, sacerdotes e dos milhões de fiéis que foram ao Rio de Janeiro. Acheguei-me ao Senhor com a vossa oração e com o vosso trabalho para que os frutos espirituais e também os humanos estejam presentes abundantemente em nós e nas pessoas com quem nos relacionamos: oxalá a semente de Deus, que o Espírito Santo espalhou em tantos corações, amadureça para o bem da Igreja e do mundo inteiro.

O mês passado foi pródigo em dons divinos. Começou com a apresentação da encíclica Lumen fidei, com a qual o Papa Francisco completou a trilogia sobre as virtudes teologais iniciada por Bento XVI. Convido-vos a meditá-la pausadamente, para que a nossa inteligência se encha de luzes e a nossa vontade de moções, a fim de que nos comprometamos com mais ardor com a nova evangelização.

No dia 5, data em que a encíclica foi publicada, também se deu a conhecer a aprovação pontifícia do milagre atribuído à intercessão de D. Álvaro, que abre as portas para a sua beatificação, e também do milagre que permitirá a canonização de João Paulo II. Encheu-me de alegria a singular coincidência destes dois atos pontifícios na mesma data, que vejo como manifestação da sintonia espiritual que existiu entre aquele grande Pontífice e o meu queridíssimo predecessor à frente da Obra.

Na encíclica, o Papa recorda que a fé em Jesus Cristo e em tudo aquilo que Ele nos revelou permanece intacta desde os tempos apostólicos. Como isto é possível? Como podemos estar seguros de que chegaremos ao “verdadeiro Jesus” através dos séculos? [1]. A resposta a esta pergunta, formulada por muitos dos nossos contemporâneos, reduz-se, com total fundamento, a uma só: por meio da Igreja. A Igreja, como toda a família, transmite aos seus filhos o conteúdo da sua memória. Como fazê-lo de maneira que nada se perca e, pelo contrário, tudo se aprofunde cada vez mais no patrimônio da fé? Mediante a tradição apostólica, conservada na Igreja com a assistência do Espírito Santo [2].

Essa transmissão da Igreja, sempre atual, está contida principalmente nos Símbolos e também em outros documentos do Magistério que expõem a doutrina da fé; por isso, ao longo destes meses, estamos esforçando-nos por aprofundar no Credo, ajudados pelo Catecismo da Igreja Católica e pelo seu Compêndio, felizes de que a nossa fé também brilhe na vida dos santos ao longo do ano litúrgico. O milagre atribuído à intercessão do queridíssimo D. Álvaro oferece-nos outro acicate para pormos em prática o espírito do Opus Dei, velho como o Evangelho, e como o Evangelho, novo [3]: a busca da santificação na vida corrente, mensagem que Deus confiou a São Josemaria para que o plasmasse na sua alma e na de muitas outras pessoas. Assim que a notícia se tornou pública, sugeri-vos que nos adentrássemos mais na resposta santa de D. Álvaro: na sua fidelidade a Deus, à Igreja e ao Romano Pontífice, na sua plena identificação com o espírito da Obra recebido de São Josemaria, que ele continuou a transmitir-nos em toda a sua integridade.

E agora detenho-me em outra das notas características da Igreja: a santidade. Para ajudar-nos a regozijar-nos com esta realidade, Bento XVI assinalava que ao longo deste ano «será decisivo voltarmos a percorrer a história da nossa fé, que contempla o mistério insondável do entrelaçamento da santidade com o pecado» [4]. A reflexão sobre a santidade da Igreja – manifestada na sua doutrina, nas suas instituições, em tantos filhos e filhas seus ao longo da história – mover-nos-á a uma profunda ação de graças ao Deus três vezes Santo, fonte de toda a santidade, a saber que estamos inseridos na manifestação de amor da Trindade por nós. Como recorremos a cada Pessoa divina? Sentimos a necessidade de amá-las diferenciando-as?

Ao expor a natureza da Igreja, o Concílio Vaticano II destacou três aspectos nos quais o seu mistério se exprime com maior propriedade: o Povo de Deus, o Corpo místico de Cristo, o Templo do Espírito Santo; e o Catecismo da Igreja Católica desenvolve-os amplamente [5]. Em um deles reverbera a nota da santidade, que, como as outras notas, distingue a Igreja de qualquer agrupamento humano.

A denominação Povo de Deus remete ao Antigo Testamento. Javé escolheu Israel como o seu povo peculiar, como anúncio e antecipação do Povo de Deus definitivo que Jesus Cristo ia estabelecer por meio do sacrifício da Cruz. Vós sois uma raça escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa, um povo adquirido para Deus, a fim de que publiqueis as virtudes daquele que das trevas vos chamou à sua luz maravilhosa [6]. Gens Sancta, povo santo, composto por criaturas com misérias. Esta aparente contradição marca um aspecto do mistério da Igreja. A Igreja, que é divina, é também humana, porque está formada por homens e nós, os homens, temos defeitos: omnes homines terra et cinis (Ecclo 17, 31),todos somos pó e cinza [7].

Esta realidade tem de mover-nos à contrição, à dor de amor, à reparação, mas nunca ao desalento ou ao pessimismo. Não esqueçamos que o próprio Jesus comparou a Igreja a um campo em que crescem juntos o trigo e o joio; a uma rede de arrasto que apanha peixes bons e peixes maus e que, os quais, só no final dos tempos serão separados definitivamente uns dos outros [8]. Ao mesmo tempo, consideremos que já agora, na terra, o bem é maior que o mal, a graça é mais forte que o pecado, embora às vezes a sua ação seja menos visível. Mas acontece que a santidade pessoal de tantos fiéis – dantes e de agora – não é uma coisa aparatosa. É frequente que não a descubramos nas pessoas normais, correntes e santas, que trabalham e convivem no meio de nós. Para um olhar terreno, o pecado e as faltas de fidelidade ressaltam mais; chamam mais a atenção [9]. O Senhor quer que nós, suas filhas e seus filhos no Opus Dei, e muitos outros cristãos, recordemos a todos os homens e mulheres que receberam essa vocação para a santidade e hão de esforçar-se por corresponder à graça e ser pessoalmente santos [10].

A Igreja é o Corpo místico de Cristo. «Durante o decurso dos tempos, o Senhor Jesus forma a sua Igreja por meio dos sacramentos, que emanam da sua plenitude. Através destes meios, a Igreja faz os seus membros participarem do mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo pela graça do Espírito Santo, que a vivifica e a move» [11].

A Igreja «é, assim, santa, embora abarque no seu seio pecadores, porque não goza de mais vida que a da graça; certamente, os seus membros alimentam-se desta vida, santificam-se; se se afastam, contraem pecados e manchas da alma que impedem que a santidade da Igreja se difunda radiante […]. A Igreja aflige-se e faz penitência por aqueles pecados, e tem o poder de livrar deles por meio do sangue de Cristo e do dom do Espírito Santo» [12].

Antes de mais nada, o corpo remete-nos a uma realidade viva. A Igreja não é uma associação assistencial, cultural ou política, mas é um corpo vivente, que caminha e age na história. E este corpo tem uma cabeça, Jesus, que o guia, o nutre e o sustenta […]. Da mesma forma que num corpo é importante que circule a linfa vital para que viva, assim devemos permitir que Jesus aja em nós, que a sua Palavra nos guie, que a sua presença eucarística nos nutra, nos anime; que o seu amor dê força ao nosso amor ao próximo. E isto sempre! Sempre, sempre! Caros irmãos e irmãs – insistia o Santo Padre –, permaneçamos unidos a Jesus, fixemo-nos nEle, orientemos a nossa vida de acordo com o seu Evangelho, alimentemo-nos com a oração diária, com a escuta da Palavra de Deus, com a participação nos sacramentos [13].

É evidente que o corpo humano se compõe de uma diversidade de órgãos e de membros, cada um com a sua função própria sob o governo da cabeça, para o bem de todo o organismo. Por isso, na Igreja, por vontade de Deus, existe uma variedade, uma diversidade de tarefas e de funções; não existe a uniformidade plana, mas a riqueza dos dons que o Espírito Santo distribui. Mas existe a comunhão e a unidade: todos estão em relação uns com os outros e todos concorrem para formar um único corpo vital, profundamente unido a Cristo [14]. Esta união com Cristo, Cabeça invisível da Igreja, tem de manifestar-se necessariamente na forte união com a Cabeça visível, o Romano Pontífice, e com os Bispos em comunhão com a Sé Apostólica. Como fez São Josemaria, rezemos todos os dias pela unidade de todos na Igreja santa.

Desde há muito tempo, se diz que, no seio do Corpo místico de Cristo, o Paráclito cumpre a função da alma no corpo humano: dá-lhe vida, conserva-o na unidade, torna possível o seu desenvolvimento até alcançar a perfeição que Deus Pai lhe atribuiu. A Igreja não é um entrançado de coisas e de interesses, mas é o Templo do Espírito Santo, o Templo em que Deus age, o Templo em que cada um de nós, com o dom do Batismo, é pedra viva. Isto diz-nos que ninguém é inútil na Igreja […]. Ninguém é secundário [15].

Como membros do mesmo Corpo místico, nós, cristãos, podemos e devemos ajudar-nos uns aos outros a atingir a santidade, por meio da Comunhão dos santos, que confessamos no Símbolo apostólico. Além de exprimir a que todos os fiéis participam das magnalia Dei, das riquezas de Deus (a fé, os sacramentos, os diversos dons espirituais), «a expressão “Comunhão dos santos” também designa a comunhão entre as pessoas santas (sancti), isto é, entre aqueles que, pela graça, estão unidos a Cristo morto e ressuscitado» [16]: os santos do Paraíso, as almas que se purificam no Purgatório, aqueles que, ainda na terra, travam as batalhas da luta interior. Formamos uma só família, a família dos filhos de Deus, para louvor da Santíssima Trindade: com que inteireza cuidamos dela?

São Josemaria cumulava-se de consolo ao meditar esta verdade de fé, que faz com que nenhum batizado possa sentir-se só: nem na sua luta espiritual, nem nas suas dificuldades materiais. Vemos esta segurança em Caminho: Comunhão dos Santos. – Como dizer-te? – Sabes o que são as transfusões de sangue para o corpo? Pois assim vem a ser a Comunhão dos Santos para a alma [17]. Pouco depois, acrescentou: Terás mais facilidade em cumprir o teu dever, se pensares na ajuda que te prestam os teus irmãos e na que deixas de prestar-lhes se não és fiel [18].

Filhas e filhos meus, enchamo-nos sempre de muito ânimo. Ainda que possamos sofrer um tropeço, ainda que por vezes nos sintamos fracos e sem forças na luta espiritual, sempre é possível, com a graça de Deus, retomarmos o caminho rumo à santidade. Estamos rodeados de uma multidão de santos, de pessoas fiéis ao Senhor que começam e recomeçam constantemente na sua vida interior.

Por outro lado, basta-nos erguer os olhos para o Céu. E a esta certeza também nos convida a grande solenidade que celebraremos no dia 15: a Assunção da Santíssima Virgem. Firmados na intercessão de Jesus Cristo, que roga a Deus Pai constantemente por todos nós [19], como é grande o consolo, como é pleno o amparo que a contemplação da nossa Mãe nos traz, sempre empenhada na salvação dos cristãos e de todos os homens! Na Santíssima Virgem, a Igreja já chegou à perfeição, em virtude da qual não tem mancha nem ruga [20]. Nós, todos os fiéis, ainda nos esforçamos por vencer nesta nobre tarefa da santidade, afastando-nos inteiramente do pecado; e por isso levantamos os olhos para Maria, que resplandece como modelo de virtudes para toda a comunidade dos eleitos [21]. Assim, recorramos a Ela em todas as vicissitudes da Igreja e nas pessoais de cada um de nós. Mãe! – Chama-a bem alto, bem alto. – Ela, tua Mãe Santa Maria, te escuta, te vê em perigo talvez, e te oferece, com a graça de seu Filho, o consolo de seu regaço, a ternura de suas carícias. E te encontrarás reconfortado para a nova luta [22].

Que este clamor de oração suba ao Céu com muita força, a partir da terra inteira, ao renovarmos a consagração do Opus Dei ao Coração dulcíssimo e imaculado de Maria no próximo dia 15. Unidos fortemente na oração, peçamos à bondade divina todas as graças de que o mundo, a Igreja e cada um de nós necessitamos.

Com todo o afeto, abençoa-vos

o vosso Padre

+ Javier

Sítio da Aroeira, 1º de agosto de 2013.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Serão canonizados João Paulo II e João XXIII e beatificados Alvaro del Portillo e Giuseppe Luzzati


Serão proclamados santos, provavelmente ainda este ano, os Beatos João Paulo II e João XXIII. O Papa Francisco aprovou hoje o Decreto sobre o reconhecimento de um segundo milagre que se realizou graças à intercessão do Papa Wojtyla e decidiu convocar um Consistório relativo à canonização do Papa Roncali, mesmo na ausência do segundo milagre. Também hoje, o Papa deu luz verde para a beatificação de Alvaro del Portillo, Prelado da Opus Dei, de Madre Speranza, fundadora da Congregação das Servas e dos Filhos do Amor Misericordioso, e de 42 mártires assassinados por ódio à fé durante a Guerra Civil Espanhola. Também foram reconhecidas as virtudes heróicas de Giuseppe Lazzati, leigo consagrado, político e intelectual italiano. 

terça-feira, 18 de junho de 2013

Reconhecido segundo milagre por intercessão de João Paulo II

A comissão teológica da Congregação para a Causa dos Santos aprovou o segundo milagre atribuído à intercessão de João Paulo II. 

O reconhecimento abre caminho para a canonização do Papa polonês, porém antes deve ser aprovado por uma comissão de Cardeais e Bispos e ter o decreto assinado pelo Papa Francisco. Não foi informada a natureza deste segundo milagre.

O Cardeal Karol Wojtyla foi eleito Papa em 16 de outubro de 1988. No dia 22, celebrou a missa de início de pontificado.

Em 1º de maio de 2011, Bento XVI proclamou-o Beato, após a comprovação da cura - inexplicável para a ciência -, da Irmã Marie Simon Pierre, que sofria do Mal-de-Parkinson. 

A notícia da aprovação do segundo milagre já provocou reações em Cracóvia, onde o Arcebispo Stanislau Dziwisz, ex-secretário de João Paulo II, afirmou que “Papa Francisco não colocará à prova a paciência dos poloneses”. “Existe muita esperança de que a canonização ocorra em no domingo 20 de outubro”, disse ele, recordando que é a data em que se celebra o 35º aniversário da eleição de Wojtyla. O Arcebispo Dziwisz foi recebido pelo Papa Francisco no Vaticano no último sábado. 
Texto proveniente da página do site da Rádio Vaticano.

quinta-feira, 28 de março de 2013

QUINTA-FEIRA SANTA - IN COENA DOMINI

HOMILIA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II
 NA SOLENE COMEMORAÇÃO DA
 CEIA DO SENHOR
12 de Abril de 2001
 
 

1. "In supremae nocte Cenae /recumbens cum fratribus...
Na noite da Última Ceia / Estando à mesa com os seus... / com as suas próprias mãos / Ele mesmo deu o alimento aos Doze".

É com estas palavras que o belo hino do "Pange lingua" apresenta a Última Ceia, em que Jesus nos deixou o admirável Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue. As leituras há pouco proclamadas ilustram o seu sentido profundo. Elas formam como que um tríptico:  apresentam a instituição da Eucaristia, a sua prefiguração no Cordeiro pascal, a sua tradução existencial no amor e no serviço fraterno.
 
Foi o apóstolo Paulo, na primeira Carta aos Coríntios, a recordar-nos o que Jesus fez "na noite em que foi entregue". À narração do facto histórico, Paulo juntou o seu comentário:  " sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor até que Ele venha". (1 Cor 11, 26). A mensagem do Apóstolo é clara:  a comunidade que celebra a Ceia do Senhor actualiza a Páscoa. A Eucaristia não é simples memória de um rito passado, mas a viva representação do gesto supremo do Salvador. A comunidade cristã não pode deixar de se sentir impelida a fazer profecia do mundo novo, inaugurado na Páscoa. Contemplando, esta tarde, o mistério de amor que a Última Ceia nos recorda, permaneçamos, também  nós,  em  comovida  e  silenciosa adoração.
 
2. "Verbum caro / panem verum verbo carne efficit... O Verbo encarnado / transforma com a sua palavra / o verdadeiro pão na sua carne...". É o prodígio que nós, secerdotes, tocamos em cada dia com as nossas mãos na santa Missa. A Igreja continua a repetir as palavras de Jesus, e sabe que está comprometida a fazê-lo até ao fim do mundo. Em virtude destas palavras realiza-se uma mudança admirável:  permanecem as espécias eucarísticas, mas o pão e o vinho tornam-se, segundo a feliz expressão do Concílio de Trento, "verdadeira, real e substancialmente" o Corpo e o Sangue do Senhor.
 
O pensamento sente-se confuso frente a tão sublime mistério. Muitas interrogações se apresentam ao coração do crente, que todavia encontra paz na palavra de Cristo:  "Et si sensus deficit / ad firmandum cor sincerum sola fides sufficit Se o sentido se perde / a fé basta por si só a um coração sincero". Sustentados por esta fé, por esta luz que ilumina os nossos passos mesmo na noite da dúvida e da dificuldade, nós podemos proclamar:  "Tantum ergo Sacramentum / veneremur cernui A um Sacramento assim tão grande / prostrados, adoremos".
 
3. A instituição da Eucaristia põe-nos em relação com o rito pascal da primeira Aliança, que nos é descrito na página do Êxodo, há pouco proclamada:  Fala-se do cordeiro "sem defeito, macho, e com um ano de idade" (12, 6), por cujo sacrifício o povo seria libertado do extermínio:  "O sangue servirá de sinal nas casas em que residis:  vendo o sangue, passarei adiante, e não sereis atingidos pelo flagelo destruidor" (12, 13).
 
O hino de S. Tomás comenta:  "Et anticum documentum / novo cedat ritui ceda agora a antiga Lei / ao Sacrifício novo". Justamente, por isso, os textos bíblicos da Liturgia desta tarde orientam o nosso olhar para o novo Cordeiro, que com o sangue livremente derramado sobre a Cruz estabeleceu uma nova e eterna Aliança. Eis a Eucaristia, presença sacramental da carne imolada e do sangue derramado do novo Cordeiro. Nela são oferecidos a toda a humanidade a salvação e o amor. Como não nos deixarmos fascinar por este Mistério? Façamos nossas as palavras de S. Tomás de Aquino:  "Praestet fides suplementum sensuum defectui Que a fé supra o defeito dos sentidos". Sim, a fé conduz-nos à contemplação e à adoração!
 
4. É neste ponto que o nosso olhar se dirige para o terceiro elemento do tríptico que forma a liturgia de hoje. Devemo-lo à narração do evangelista João, que nos apresenta a imagem perturbante do lavar dos pés. Com este gesto, Jesus recorda aos discípulos de todos os tempos que a Eucaristia pede que sejamos testemunhas no serviço do amor para com os irmãos. Ouvimos as palavras do Mestre divino:  "Ora, se Eu vos lavei os pés, sendo Senhor e Mestre, também vós deveis lavar os pés uns aos outros" (Jo 13, 14). É um novo estilo de vida que provém do gesto de Jesus:  "Dei-vos o exemplo, para que, como Eu vos fiz, façais vós também" (Jo 13, 15).
 
O lavar dos pés apresenta-se como um acto paradigmático, que na morte na cruz e na ressurreição de Cristo encontra a chave da sua leitura e a sua máxima explicitação. Neste acto de serviço humilde, a fé da Igreja vê o êxito natural de cada celebração eucarística. A autêntica participação na Missa não pode deixar de gerar o amor fraterno seja em cada crente, seja em toda a comunidade eclesial.
 
5. "Amou-os até ao fim" (Jo 13, 1). A Eucaristia constitui o sinal perene do amor de Deus, amor que sustenta o nosso caminho para a plena comunhão com o Pai, através do Filho, no Espírito. É um amor que ultrapassa o coração do homem. Parando esta tarde para adorar o Santíssimo Sacramento, e meditando o mistério da Última Ceia, sentimo-nos mergulhados no oceano de amor que que brota do coração de Deus. Façamos nosso, com espírito agradecido o hino de acção de graças do povo redimido: "Genitori Genitoque / laus et iubilatio... Ao Pai e ao Filho / louvor e júbilo / salvação, poder, bênção:  / Àquele que procede de ambos /seja dada igual glória e honra!" Amen!
 

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Fátima agradece pelo Beato João Paulo II


Peregrinação de maio faz ação de graças pela beatificação do pontífice

A peregrinação aniversária maio ao Santuário de Fátima – dias 12 e 13 – é uma ação de graças pela beatificação de João Paulo II.

Os bispos convidaram o povo português se unir “em oração agradecida, celebrando a santidade de vida deste Papa, cuja história está muito ligada a Portugal, particularmente a Fátima”, assinalava o comunicado final da última assembleia do episcopado católico do país, segundo recorda Agência Ecclesia.

João Paulo II, beatificado no dia 1º de maio, é lembrado em Portugal pela sua ligação a Fátima, reforçada pela intercessão a Nossa Senhora na recuperação do atentado de 1981 e pela beatificação dos pastorinhos Francisco e Jacinta, em 2000.

A Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) sobre a beatificação do Papa polaco, Karol Wojtyla (1920-2005), divulgada em março, sublinhava essa ligação.

“É considerado o Papa de Fátima, que um ano depois do atentado na Praça de São Pedro, em Roma, a 13 de maio de 1981, veio à Cova da Iria agradecer à Rainha da Paz o ter providencialmente sobrevivido”, assinalavam os bispos.

João Paulo II esteve no Santuário de Fátima em 1982, 1991 e, pela última vez, em 2000, altura em que beatificou os videntes Francisco e Jacinta Marto.

Quem preside esta peregrinação de maio, que começou hoje, é o cardeal Sean O’Malley, arcebispo de Boston. Ele vai falar sobre “a importância da mensagem de Fátima para a atualidade”.

Na conferência de imprensa que antecedeu o início da peregrinação, o cardeal O’Malley disse que no mundo de hoje “a fé é um tesouro”.

“Num mundo que nos pede para enfrentar a crise e as doenças da vida, não somos órfãos, temos um pai que cuida dos seus filhos”, afirmou. Ele disse que rezará em Fátima por mais fé para o mundo e uma nova geração de crentes.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Fala último colega de João Paulo II no seminário clandestino

Por Chiara Santomiero

"Era agosto de 1944: quando, em Varsóvia, começou a insurreição contra os nazistas, o cardeal Sapieha decidiu reunir os estudantes. Essa foi a primeira vez em que vi Karol Wojtyla."


O Pe. Kazimierz Suder, nascido em 1922, lê com voz tranquila as lembranças anotadas com escrita minuciosa nas folhas brancas apoiadas na frente dele. Do outro lado da mesa, como estudantes à espera de uma prova, estavam os jornalistas que chegaram a Cracóvia para recolher o testemunho do último sobrevivente entre os 8 jovens que compunham o seminário teológico clandestino organizado - quando já estava em curso a guerra - pelo indômito arcebispo de Cracóvia, Adam Sapieha, o último bispo-príncipe da cidade.

"Durante a ocupação nazista - explicou o Pe. Suder -, quando um seminarista manifestava ao cardeal a intenção de ser sacerdote, ele recomendava a cada um que estudasse em casa, escondido. Nenhum de nós conhecia os outros."

Era uma medida que tinha se tornado necessária depois de que os nazistas encontraram cinco jovens seminaristas que passavam a noite no seminário fechado por imposição deles: foram presos e fuzilados, enquanto os outros tinham sido deportados a Auschwitz. Por isso, Sapieha tinha decidido manter a clandestinidade total do seminário.

João Paulo II "era um bom companheiro - recordou. Não tinha problemas de comunicação; era modesto no falar, enquanto preferia escutar; dava seu parecer sobre as questões, mas não impunha; tentava compreender o outro e não mentia jamais".

O jovem Wojtyla emprestava anotações (cada página dos seus cadernos estava marcada com as iniciais de Jesus e Maria) e ajudava com prazer os colegas no estudo, mas não nas provas; a um colega que lhe havia pedido respostas durante uma prova, respondeu: "Concentre-se um momento, peça ajuda ao Espírito Santo e depois tente dar sozinho as suas respostas".

"Ele tinha um olhar sereno - afirmou o Pe. Suder - e um grande senso de humor; gostava de ouvir piadas." Fiel à disciplina do seminário, estava muito atento às aulas e era capaz de sintetizar; os professores estavam muito satisfeitos com ele.

"Após o fracasso da insurreição de Varsóvia, chegaram ao bispado os sacerdotes que tiveram de fugir das cidades, razão pela qual nós, os seminaristas, tivemos de ceder nossos quartos e dormimos todos juntos na sala das audiências do cardeal, onde também aconteciam as aulas", prosseguiu o Pe. Suder.

Este período de vida estreitamente comum, que se prolongou até a chegada dos russos à cidade, em janeiro de 1945, aproximou muito os jovens: "Eu soube que ele tinha nascido em Wadovice, que tinha chegado a Cracóvia junto a seu pai, após a morte dos seus, e que depois, em 1941, quando seu pai também morreu, ele concluiu que o objetivo da sua vida era o sacerdócio".

Outra característica do jovem Wojtyla que permaneceu viva na memória de seus companheiros de estudo foi "a sensibilidade com relação ao sofrimento humano. Ele entregava aos pobres tudo o que recebia, mas com muita discrição, para não ostentar sua generosidade".

"Sobretudo - recordou Suder -, ele tinha o dom de saber rezar." Rezava quase sempre de joelhos, com o terço na mão e o escapulário carmelita no pescoço. "Não separava o estudo de teologia da oração: para ele, era tudo uma unidade. Depois da oração da noite, ele ficava na capela com um manual de teologia ou o caderno de anotações; o estudo ligado à oração - e vice-versa - era uma característica sua."

Suder recorda esses anos distantes, a capela da rua Franciszkanska, onde frequentemente à noite os jovens viam o cardeal Sapihea, feroz opositor aos nazistas e catalisador da resistência polonesa, estendido no chão com os braços em forma de cruz; volta a pensar em seu antigo companheiro de estudos, cuja efígie sorri hoje da Basílica de São Pedro, e admite com humildade: "Nunca consegui chegar à sua concentração na oração".

Wojtyla foi ordenado sacerdote em 1º de novembro de 1946; no dia seguinte, celebrou sua primeira Missa na capela de São Leonardo, da Catedral de Wawel, e, em 10 de novembro, na paróquia de Wadowice.

"Nessa mesma semana - recordou o Pe. Suder -, Karol partiu para Roma para fazer seu doutorado, depois de apenas dois anos de estudo no seminário."

A grande aventura do homem que contribuiria para a transformação da história do seu país e do mundo tinha começado.

Retirado de: Zenit

quarta-feira, 4 de maio de 2011

La grandezza di Giovanni Paolo II? La santità della sua vita


In un secolo, la storia rimane caratterizzata dagli “eventi”; in un decennio sono le persone e le loro azioni – anche le piccole azioni – che la determinano. Se questo è vero, mi sia consentito sintetizzare la storia della vita di Giovanni Paolo II – così come io la vedo – con un piccolo aneddoto.


In una delle sue visite in Polonia si accorse di un pezzo di pane per terra; si inginocchiò, lo baciò e lo mise sul prato perché lo mangiassero gli uccelli.

Solo una persona con i piedi ben piantati per terra e con lo sguardo rivolto al cielo può captare il piccolo miracolo della vita, in mezzo al trambusto quotidiano. Oggi si direbbe che è il gesto di un ecologista; un teologo preciserebbe che è un gesto di chi ama Dio attraverso la creazione. La chiave di ciò che la Chiesa chiama “santità” si radica, appunto, nel vivere in modo straordinario le cose ordinarie.

La stessa piazza San Pietro, che è stata testimone, il 13 maggio 1981, dell’attentato contro la vita del Papa polacco, per mano di un assassino professionista, ha costituito il 1° maggio scorso, trent’anni dopo, il quadro imponente della sua beatificazione. Cosa è avvenuto tra queste due date?

Molte cose sono successe nei 26 anni del Pontificato del 264° Papa della storia della Chiesa. Tra tutti i suoi predecessori, è stato quello che ha viaggiato di più (un centinaio di viaggi, toccando 145 Paesi e 150 destinazioni interne all’Italia), quello che ha pubblicato più documenti e che ha pronunciato più discorsi (si calcolano circa 180 milioni di parole), il primo che ha pubblicato libri di memorie o di pensieri, divenuti tutti dei bestseller.

E tuttavia, ai fini di ciò che è avvenuto il 1° maggio, non sono queste le cose più importanti. Poco dopo la sua elezione, mentre era diretto a un santuario della Vergine, con alcuni dei suoi collaboratori, chiese loro: “Qual è la cosa più importante per il Papa nella sua vita, nel suo lavoro?”. Loro gli risposero: “Forse l’unità dei cristiani, la pace in Medio Oriente, la distruzione della cortina di ferro..?”. Ma lui gli replicò sorridendo: “Per il Papa, la cosa più importante è la preghiera”.

Certamente Giovanni Paolo II merita l’appellativo di “grande”, per l’insieme del suo Pontificato. Ma la sua vera grandezza sta nella sua santità; non nella sua attività.

Ho letto da poco un’intervista ad Arturo Mari, il fotografo ufficiale del Papa. Tra le centinaia di migliaia di fotografie scattate nei viaggi, con ogni sorta di personalità e con moltitudini enormi, gli si chiede quale fosse la sua preferita. Mari risponde: “quella che gli ho fatto qualche giorno prima della sua morte, nella cappella privata, il venerdì santo del 2005. Era molto malato, ma ha voluto essere presente, in qualche modo, alla tradizionale Via Crucis al Colosseo”. Nella foto lo si vede abbracciato con forza a un grande crocifisso appoggiato sul suo viso. Una sintesi completa del suo Pontificato, incentrato nella preghiera e nella sofferenza, attraverso cui ha vissuto in grado eroico le virtù cristiane.

Non mi si fraintenda. Non voglio dire che Karol Wojtyla non avesse difetti. E neanche che il suo lungo Pontificato sia stato esente da errori. Chi conosce i processi canonici di canonizzazione sa bene che sono come guardare attraverso una potente lente d’ingrandimento: la pelle apparentemente tersa mostra tutte le piccole rughe e gli effetti del tempo. E gli esperti in storia della Chiesa sanno bene che sono necessari anni per valutare esaustivamente i Pontificati dei grandi Papi. Ciò che voglio dire è che, secondo le conclusioni del processo, egli ha combattuto tenacemente contro i propri difetti, ha aumentato le sue virtù lottando ed è riuscito a indirizzare verso Dio le azioni di un Pontificato pieno di realizzazioni.

La mia impressione è che si è compreso subito, con particolare chiarezza, che la Chiesa è tale più nelle sue basi che nella sua cupola e che le nazioni non sono i loro politici ma la loro gente. I suoi continui viaggi in tutto il mondo avevano come obiettivo quello di ribadire che la chiave sta nell’uomo e nella donna comuni.

Proclamando insistentemente che “i diritti dell’uomo sono anche diritti di Dio”, diceva qualcosa di più di una bella frase. La accompagnava con una concreta denuncia degli scandali del XX secolo: i genocidi e i crimini contro l’umanità; l’apartheid, la tortura e la fame; gli attacchi contro le libertà civili, i diritti politici o i diritti economico-sociali; le guerre e gli attacchi contro il diritto alla vita; l’autodeterminazione dei popoli o la discriminazione contro le minoranze. Forse proprio per questo incoraggiava sempre a lottare per “una società in cui nessuno sia così povero da non avere nulla da dare agli altri e nessuno sia così ricco da non poter ricevere nulla dagli altri”.

Su Giovanni Paolo II sono stati fatti numerosi studi sulla sua capacità di comunicazione. Certamente, nel mondo dell’immagine è stato un protagonista indiscutibile, probabilmente perché si trovava a suo agio quando comunicava. Non per un narcisismo di chi sa di “venire bene” in televisione, ma perché gioiva nel trasmettere la verità.

Forse l’analisi più veritiera l’ha fatta un giornalista del New York Times nel settembre del 1987. In quell’anno, il Papa era stato negli Stati Uniti e il giornalista si poneva la domanda sul successo che avrebbe riscosso Giovanni Paolo II nei media. Lo stesso giornalista si è risposto: “Il Papa domina la televisione semplicemente ignorandola”.

Questa risposta avrebbe fatto drizzare i capelli agli esperti di immagine. Ma era una buona diagnosi. Ignorava le telecamere perché guardava al di sopra dei riflettori. Non dipendeva da questi, ma dalle necessità dei suoi interlocutori.

Lo spagnolo Joaquin Navarro-Valls, che è stato il suo portavoce, diceva: “ha mostrato a un’intera generazione che il tema di Dio è inevitabile. Era convinto che non è possibile comprendere l’essere umano se si prescinde da Dio. Istintivamente comprendeva che, senza Dio, l’uomo è solo un triste animale ingegnoso”.

Gorbaciov lo ha chiamato “la prima autorità morale della Terra”. Questa autorità morale l’ha proiettata in molte direzioni. Forse l’azione più incisiva è stato il suo ruolo nel crollo dei regimi comunisti dell’Est europeo. Certamente la pressione di Reagan, con il suo “scudo spaziale” e la debolezza economica e politica del mondo sovietico, sono state decisive per il crollo finale. Tuttavia, quando Giovanni Paolo II ha iniziato a parlare del socialismo come di “una parentesi nella storia dell’Europa”, i popoli slavi hanno abbandonato la loro storica penombra, colpendo la coscienza dell’Occidente. Questo è stato l’inizio della fine. Quando hanno vinto la paura, è iniziata l’opposizione sistematica e i muri si sono incrinati fino a crollare. Da Budapest a Berlino, da Praga a Sofia e Bucarest, l’ondata iniziata a Varsavia da Giovanni Paolo II ha sradicato il totalitarismo da milioni di cuori.

Forse la cosa più sorprendente di Giovanni Paolo II è stata la sua eccezionale capacità di mobilitare i più giovani. Le maggiori concentrazioni di persone che si siano mai viste in Oriente e Occidente hanno avuto lui come protagonista: tre milioni a Roma (agosto 2000), più di quattro milioni a Manila (gennaio 1995). Il motivo? La sua miscela di carisma ed esigenza morale. Egli non ha mai nascosto le esigenze della vita cristiana. Debole e fragile, vedendo già vicina l’ora della sua morte, saputo che una moltitudine di giovani si era riunita a piazza San Pietro per stare vicino al “Papa amico”, Giovanni Paolo II ha sussurrato le sue ultime parole: “Vi ho cercato, adesso voi siete venuti da me e per questo vi ringrazio”. Il 1° maggio sono tornati. La piazza del Vaticano era una festa di giovani.

Gli esperti dei processi di canonizzazione solitamente condensano in tre voci la chiave della santità di una persona: vox populi, la fama di santità tra la gente; vox Ecclesiae, il riconoscimento da parte della Chiesa delle sue virtù; vox Dei, un fatto straordinario, senza spiegazione scientifica, avvenuto grazie alla sua intercessione, ovvero, un miracolo. Queste tre “voci” sono risuonate con speciale vigore in quella piazza millenaria di San Pietro. Il “santo subito”, coniato spontaneamente nel pomeriggio dell’8 aprile 2005, è stato declinato con tonalità inedite in quel mattino romano dello scorso 1° maggio.

[Questo articolo è stato pubblicato anche dal quotidiano spagnolo El Mundo, del 2 maggio scorso]

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*Rafael Navarro-Valls è docente della Facoltà di diritto dell’Università Complutense di Madrid e segretario generale della Real Academia de Jurisprudencia y Legislación spagnola.

Dal: Zenit.it

terça-feira, 3 de maio de 2011

Encerrado o corpo do beato João Paulo II na capela de S. Sebastião

A procissão encabeçada pelo Arcipreste da Basílica, Cardeal Angelo Comastri, seguiu da Sacristia e deteve-se frente à Confissão de São Pedro [túmulo onde estão os restos mortais do Apóstolo] para um momento de oração, com a Ladainha dos Santos Pontífices, e dirigiu-se para a Capela de São Sebastião, onde já estava o caixão de João Paulo II sob o altar, mas ainda à vista.


Ao final da Ladainha, após a tripla invocação em canto de Beate Ioanne Paule, foi recitada a oração própria do novo Beato e feita a incensação. Então, os operários da Fábrica colocaram a grande lápide de mármore branco – com as palavras Beatus Ioannes Paulus PP. II – e fecharam o vão sob o altar, onde está depositado o caixão. Muitos dos presentes fizeram mais uma vez o ato de devoção de beijar a lápide, enquanto a assembleia expressou alegre comoção.

A breve cerimônia terminou em torno das 19h45. Estiveram presentes os Cardeais Angelo Sodano, Decano do Sagrado Colégio; Tarcisio Bertone, Secretário de Estado; Angelo Amato, Giovanni Coppa, Giovanni Lajolo, Giovanni Battista Re, Leonardo Sandri, e os Cardeais Franciszek Macharski e Stanisław Dziwisz, sucessores do Cardeal Wojtyła na Sé de Cracóvia. Da mesma forma, estiveram presentes os Arcebispos Fernando Filoni, Dominique Mamberti e Mieczysław Mokrzycki, ex-vice-secretário pessoal de João Paulo II. Também assistiu a cerimônia o postulador, monsenhor Sławomir Oder, e entre as religiosas estava naturalmente presente a Irmã Tobiana Sobódka e algumas outras irmãs do apartamento pontifício.

Desde as 7h (horário de Roma) desta terça-feira, os fiéis que entram na Basílica podem venerar o Beato na colocação definitiva, junto à Capela de São Sebastião.

Oração própria do Beato João Paulo II
(segundo a Liturgia das Horas)

Ó Deus, rico de misericórdia, que escolhestes o Beato João Paulo II para governar a Vossa Igreja como Papa, concedei-nos que, instruídos pelos seus ensinamentos, possamos abrir confiadamente os nossos corações à graça salvífica de Cristo, único Redentor do homem. Ele que convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.

domingo, 1 de maio de 2011

Beato Karol Wojtyla






Homilia de Bento XVI na Beatificação de João Paulo II


Amados irmãos e irmãs,


passaram já seis anos desde o dia em que nos encontrávamos nesta Praça para celebrar o funeral do Papa João Paulo II. Então, se a tristeza pela sua perda era profunda, maior ainda se revelava a sensação de que uma graça imensa envolvia Roma e o mundo inteiro: graça esta, que era como que o fruto da vida inteira do meu amado Predecessor, especialmente do seu testemunho no sofrimento. Já naquele dia sentíamos pairar o perfume da sua santidade, tendo o Povo de Deus manifestado de muitas maneiras a sua veneração por ele. Por isso, quis que a sua Causa de Beatificação pudesse, no devido respeito pelas normas da Igreja, prosseguir com discreta celeridade. E o dia esperado chegou! Chegou depressa, porque assim aprouve ao Senhor: João Paulo II é Beato!

Desejo dirigir a minha cordial saudação a todos vós que, nesta circunstância feliz, vos reunistes, tão numerosos, aqui em Roma vindos de todos os cantos do mundo: cardeais, patriarcas das Igrejas Católicas Orientais, irmãos no episcopado e no sacerdócio, delegações oficiais, embaixadores e autoridades, pessoas consagradas e fiéis leigos; esta minha saudação estende-se também a quantos estão unidos conosco através do rádio e da televisão.

Estamos no segundo domingo de Páscoa, que o Beato João Paulo II quis intitular Domingo da Divina Misericórdia. Por isso, se escolhi esta data para a presente celebração, foi porque o meu Predecessor, por um desígnio providencial, entregou o seu espírito a Deus justamente ao anoitecer da vigília de tal ocorrência. Além disso, hoje tem início o mês de Maio, o mês de Maria; e neste dia celebra-se também a memória de São José operário. Todos estes elementos concorrem para enriquecer a nossa oração; servem-nos de ajuda, a nós que ainda peregrinamos no tempo e no espaço; no Céu, a festa entre os Anjos e os Santos é muito diferente! E todavia Deus é um só, e um só é Cristo Senhor que, como uma ponte, une a terra e o Céu, e neste momento sentimo-lo muito perto, sentimo-nos quase participantes da liturgia celeste.

"Felizes os que acreditam sem terem visto" (Jo 20, 29). No Evangelho de hoje, Jesus pronuncia esta bem-aventurança: a bem-aventurança da fé. Ela chama de modo particular a nossa atenção, porque estamos reunidos justamente para celebrar uma Beatificação e, mais ainda, porque o Beato hoje proclamado é um Papa, um Sucessor de Pedro, chamado a confirmar os irmãos na fé. João Paulo II é Beato pela sua forte e generosa fé apostólica. E isto traz imediatamente à memória outra bem-aventurança: "Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus" (Mt 16, 17). O que é que o Pai celeste revelou a Simão? Que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus vivo. Por esta fé, Simão se torna "Pedro", rocha sobre a qual Jesus pode edificar a sua Igreja. A bem-aventurança eterna de João Paulo II, que a Igreja tem a alegria de proclamar hoje, está inteiramente contida nestas palavras de Cristo: "Feliz de ti, Simão" e "felizes os que acreditam sem terem visto". É a bem-aventurança da fé, cujo dom também João Paulo II recebeu de Deus Pai para a edificação da Igreja de Cristo.

Entretanto perpassa pelo nosso pensamento mais uma bem-aventurança que, no Evangelho, precede todas as outras. É a bem-aventurança da Virgem Maria, a Mãe do Redentor. A Ela, que acabava de conceber Jesus no seu ventre, diz Santa Isabel: "Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor" (Lc 1, 45). A bem-aventurança da fé tem o seu modelo em Maria, pelo que a todos nos enche de alegria o fato de a beatificação de João Paulo II ter lugar no primeiro dia deste mês mariano, sob o olhar materno d’Aquela que, com a sua fé, sustentou a fé dos Apóstolos e não cessa de sustentar a fé dos seus sucessores, especialmente de quantos são chamados a sentar-se na cátedra de Pedro. Nas narrações da ressurreição de Cristo, Maria não aparece, mas a sua presença pressente-se em toda a parte: é a Mãe, a quem Jesus confiou cada um dos discípulos e toda a comunidade. De forma particular, notamos que a presença real e materna de Maria aparece assinalada por São João e São Lucas nos contextos que precedem tanto o Evangelho como a primeira Leitura de hoje: na narração da morte de Jesus, onde Maria aparece aos pés da Cruz (Jo 19, 25); e, no começo dos Atos dos Apóstolos, que a apresentam no meio dos discípulos reunidos em oração no Cenáculo (Act 1, 14).

Também a segunda Leitura de hoje nos fala da fé, e é justamente São Pedro que escreve, cheio de entusiasmo espiritual, indicando aos recém-batizados as razões da sua esperança e da sua alegria. Apraz-me observar que nesta passagem, situada na parte inicial da sua Primeira Carta, Pedro exprime-se não no modo exortativo, mas indicativo. De fato, escreve: «Isto vos enche de alegria»; e acrescenta: «Vós amais Jesus Cristo sem O terdes conhecido, e, como n’Ele acreditais sem O verdes ainda, estais cheios de alegria indescritível e plena de glória, por irdes alcançar o fim da vossa fé: a salvação das vossas almas» (1 Ped 1, 6.8-9). Está tudo no indicativo, porque existe uma nova realidade, gerada pela ressurreição de Cristo, uma realidade que nos é acessível pela fé. "Esta é uma obra admirável – diz o Salmo (118, 23) – que o Senhor realizou aos nossos olhos", os olhos da fé.

Queridos irmãos e irmãs, hoje diante dos nossos olhos brilha, na plena luz de Cristo ressuscitado, a amada e venerada figura de João Paulo II. Hoje, o seu nome junta-se à série dos Santos e Beatos que ele mesmo proclamou durante os seus quase 27 anos de pontificado, lembrando com vigor a vocação universal à medida alta da vida cristã, à santidade, como afirma a Constituição conciliar Lumem gentium sobre a Igreja. Os membros do Povo de Deus – bispos, sacerdotes, diáconos, fiéis leigos, religiosos e religiosas – todos nós estamos a caminho da Pátria celeste, tendo-nos precedido a Virgem Maria, associada de modo singular e perfeito ao mistério de Cristo e da Igreja. Karol Wojtyła, primeiro como Bispo Auxiliar e depois como Arcebispo de Cracóvia, participou no Concílio Vaticano II e bem sabia que dedicar a Maria o último capítulo da Constituição sobre a Igreja significava colocar a Mãe do Redentor como imagem e modelo de santidade para todo o cristão e para a Igreja inteira. Foi esta visão teológica que o Beato João Paulo II descobriu na sua juventude, tendo-a depois conservado e aprofundado durante toda a vida; uma visão, que se resume no ícone bíblico de Cristo crucificado com Maria ao pé da Cruz. Um ícone que se encontra no Evangelho de João (19, 25-27) e está sintetizado nas armas episcopais e, depois, papais de Karol Wojtyła: uma cruz de ouro, um "M" na parte inferior direita e o lema "Totus tuus", que corresponde à conhecida frase de São Luís Maria Grignion de Monfort, na qual Karol Wojtyła encontrou um princípio fundamental para a sua vida: "Totus tuus ego sum et omnia mea tua sunt. Accipio Te in mea omnia. Praebe mihi cor tuum, Maria – Sou todo vosso e tudo o que possuo é vosso. Tomo-vos como toda a minha riqueza. Dai-me o vosso coração, ó Maria" (Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 266).

No seu Testamento, o novo Beato deixou escrito: "Quando, no dia 16 de Outubro de 1978, o conclave dos cardeais escolheu João Paulo II, o Card. Stefan Wyszyński, Primaz da Polónia, disse-me: 'A missão do novo Papa será a de introduzir a Igreja no Terceiro Milênio'". E acrescenta: "Desejo mais uma vez agradecer ao Espírito Santo pelo grande dom do Concílio Vaticano II, do qual me sinto devedor, juntamente com toda a Igreja e sobretudo o episcopado. Estou convencido de que será concedido ainda por muito tempo, às sucessivas gerações, haurir das riquezas que este Concílio do século XX nos prodigalizou. Como Bispo que participou no evento conciliar, desde o primeiro ao último dia, desejo confiar este grande patrimônio a todos aqueles que são, e serão, chamados a realizá-lo. Pela minha parte, agradeço ao Pastor eterno que me permitiu servir esta grandíssima causa ao longo de todos os anos do meu pontificado". E qual é esta causa? É a mesma que João Paulo II enunciou na sua primeira Missa solene, na Praça de São Pedro, com estas palavras memoráveis: "Não tenhais medo! Abri, melhor, escancarai as portas a Cristo!". Aquilo que o Papa recém-eleito pedia a todos, começou, ele mesmo, a fazê-lo: abriu a Cristo a sociedade, a cultura, os sistemas políticos e econômicos, invertendo, com a força de um gigante – força que lhe vinha de Deus –, uma tendência que parecia irreversível. Com o seu testemunho de fé, de amor e de coragem apostólica, acompanhado por uma grande sensibilidade humana, este filho exemplar da Nação Polaca ajudou os cristãos de todo o mundo a não ter medo de se dizerem cristãos, de pertencerem à Igreja, de falarem do Evangelho. Numa palavra, ajudou-nos a não ter medo da verdade, porque a verdade é garantia de liberdade. Sintetizando ainda mais: deu-nos novamente a força de crer em Cristo, porque Cristo é o Redentor do homem – Redemptor hominis: foi este o tema da sua primeira Encíclica e o fio condutor de todas as outras.

Karol Wojtyła subiu ao sólio de Pedro trazendo consigo a sua reflexão profunda sobre a confrontação entre o marxismo e o cristianismo, centrada no homem. A sua mensagem foi esta: o homem é o caminho da Igreja, e Cristo é o caminho do homem. Com esta mensagem, que é a grande herança do Concílio Vaticano II e do seu "timoneiro" – o Servo de Deus Papa Paulo VI –, João Paulo II foi o guia do Povo de Deus ao cruzar o limiar do Terceiro Milênio, que ele pôde, justamente graças a Cristo, chamar "limiar da esperança". Na verdade, através do longo caminho de preparação para o Grande Jubileu, ele conferiu ao cristianismo uma renovada orientação para o futuro, o futuro de Deus, que é transcendente relativamente à história, mas incide na história. Aquela carga de esperança que de certo modo fora cedida ao marxismo e à ideologia do progresso, João Paulo II legitimamente reivindicou-a para o cristianismo, restituindo-lhe a fisionomia autêntica da esperança, que se deve viver na história com um espírito de "advento", numa existência pessoal e comunitária orientada para Cristo, plenitude do homem e realização das suas expectativas de justiça e de paz.

Por fim, quero agradecer a Deus também a experiência de colaboração pessoal que me concedeu ter longamente com o Beato Papa João Paulo II. Se antes já tinha tido possibilidades de o conhecer e estimar, desde 1982, quando me chamou a Roma como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, pude durante 23 anos permanecer junto dele crescendo sempre mais a minha veneração pela sua pessoa. O meu serviço foi sustentado pela sua profundidade espiritual, pela riqueza das suas intuições. Sempre me impressionou e edificou o exemplo da sua oração: entranhava-se no encontro com Deus, inclusive no meio das mais variadas incumbências do seu ministério. E, depois, impressionou-me o seu testemunho no sofrimento: pouco a pouco o Senhor foi-o despojando de tudo, mas permaneceu sempre uma "rocha", como Cristo o quis. A sua humildade profunda, enraizada na união íntima com Cristo, permitiu-lhe continuar a guiar a Igreja e a dar ao mundo uma mensagem ainda mais eloquente, justamente no período em que as forças físicas definhavam. Assim, realizou de maneira extraordinária a vocação de todo o sacerdote e bispo: tornar-se um só com aquele Jesus que diariamente recebe e oferece na Eucaristia.

Feliz és tu, amado Papa João Paulo II, porque acreditaste! Continua do Céu – nós te pedimos – a sustentar a fé do Povo de Deus. Amém.

Beato João Paulo II

sábado, 30 de abril de 2011

Homilia de João Paulo II na Festa da Divina Misericórdia, em 2001.


HOMILIA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II
NA CELEBRAÇÃO DA MISSA NO
"DOMINGO DA DIVINA MISERICÓRDIA"


Domingo, 22 de abril de 2001

"Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último. O que vive; conheci a morte, mas eis-Me aqui vivo pelos séculos dos séculos" (Ap 1, 17-18).

Ouvimos na segunda leitura, tirada do livro do Apocalipse, estas palavras confortadoras. Elas convidam-nos a dirigir o olhar para Cristo, para experimentar a sua presença tranquilizadora. A cada um, seja qual for a condição em que se encontre, até a mais complexa e dramática, o Ressuscitado responde: "Não temas!"; morri na cruz, mas agora "vivo pelos séculos dos séculos"; "Eu sou o Primeiro e o Último. O que vive".

"O Primeiro", isto é, a fonte de cada ser e a primícia da nova criação: "O Último", o fim definitivo da história; "O que vive", a fonte inexaurível da Vida que derrotou a morte para sempre. No Messias crucificado e ressuscitado reconhecemos os traços do Anjo imolado no Gólgota, que implora o perdão para os seus algozes e abre para os pecadores penitentes as portas do céu; entrevemos o rosto do Rei imortal que já tem "as chaves da Morte e do Inferno" (Ap 1, 18).

2. "Louvai o Senhor porque Ele é bom, porque é eterno o Seu amor" (Sl 117, 1). Façamos nossa a exclamação do Salmista, que cantamos no Salmo responsorial: porque é eterno o amor do Senhor! Para compreendermos profundamente a verdade destas palavras, deixemo-nos conduzir pela liturgia ao centro do acontecimento da salvação, que une a morte e a ressurreição de Cristo à nossa existência e à história do mundo. Este prodígio de misericórdia mudou radicalmente o destino da humanidade. É um prodígio em que se abre em plenitude o amor do Pai que, pela nossa redenção, não se poupa nem sequer perante o sacrifício do seu Filho unigénito.

Em Cristo humilhado e sofredor, crentes e não-crentes podem admirar uma solidariedade surpreendente, que o une à nossa condição humana para além de qualquer medida imaginável. Também depois da ressurreição do Filho de Deus, a Cruz "fala e não cessa de falar de Deus Pai, que é absolutamente fiel ao seu eterno amor para com o homem... Crer neste amor significa acreditar na misericórdia" (Dives in misericordia, 7).

Desejamos dar graças ao Senhor pelo seu amor, que é mais forte do que a morte e do que o pecado. Ele revela-se e torna-se actuante como misericórdia na nossa existência quotidiana e convida todos os homens a serem, por sua vez, "misericordiosos" como o Crucificado. Não é porventura amar a Deus e amar o próximo e até os "inimigos", seguindo o exemplo de Jesus, o programa de vida de cada baptizado e de toda a Igreja?

3. Com estes sentimentos, celebramos o segundo Domingo de Páscoa, que desde o ano passado, ano do Grande Jubileu, também é chamado "Domingo da Divina Misericórdia". É para mim uma grande alegria poder unir-me a todos vós, queridos peregrinos e devotos provenientes de várias nações para comemorar, à distância de um ano, a canonização da Irmã Faustina Kowalska, testemunha e mensageira do amor misericordioso do Senhor. A elevação às honras dos altares desta humilde Religiosa, filha da minha Terra, não significa um dom só para a Polónia, mas para a humanidade inteira. De facto, a mensagem da qual ela foi portadora constitui a resposta adequada e incisiva que Deus quis oferecer às interrogações e às expectativas dos homens deste nosso tempo, marcado por grandes tragédias. Jesus, um dia disse à Irmã Faustina: "A humanidade não encontrará paz, enquanto não tiver confiança na misericórdia divina" (Diário, pág. 132). A Misericórdia divina! Eis o dom pascal que a Igreja recebe de Cristo ressuscitado e oferece à humanidade no alvorecer do terceiro milénio.

4. O Evangelho, que há pouco foi proclamado, ajuda-nos a compreender plenamente o sentido e o valor deste dom. O evangelista João faz-nos partilhar a emoção sentida pelos Apóstolos no encontro com Cristo depois da sua ressurreição. A nossa atenção detém-se no gesto do Mestre, que transmite aos discípulos receosos e admirados a missão de serem ministros da Misericórdia divina. Ele mostra as mãos e o lado com os sinais da paixão e comunica-lhes: "Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós" (Jo 20, 21). Imediatamente a seguir, "soprou sobre eles e disse-lhes: recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoardos, àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo 20, 22-23). Jesus confia-lhes o dom de "perdoar os pecados", dom que brota das feridas das suas mãos, dos seus pés e sobretudo do seu lado trespassado. Dali sai uma vaga de misericórdia para toda a humanidade.

Revivemos este momento com grande intensidade espiritual. Também hoje o Senhor nos mostra as suas chagas gloriosas e o seu coração, fonte ininterrupta de luz e de verdade, de amor e de perdão.

5. O Coração de Cristo! O seu "Sagrado Coração" deu tudo aos homens: a redenção, a salvação, a santificação. Deste Coração superabundante de ternura Santa Faustina Kowalska viu sair dois raios de luz que iluminavam o mundo. "Os dois raios segundo quanto o próprio Jesus lhe disse representam o sangue e a água" (Diário, pág. 132). O sangue recorda o sacrifício do Gólgota e o mistério da Eucaristia; a água, segundo o rico simbolismo do evangelista João, faz pensar no baptismo e no dom do Espírito Santo (cf. Jo 3, 5; 4, 14).

Através do mistério deste coração ferido, não cessa de se difundir também sobre os homens e as mulheres da nossa época o fluxo reparador do amor misericordioso de Deus. Quem aspira à felicidade autêntica e duradoura, unicamente nele pode encontrar o seu segredo.

6. "Jesus, confio em Ti". Esta oração, querida a tantos devotos, exprime muito bem a atitude com que também nós desejamos abandonar-nos confiantes nas tuas mãos, ó Senhor, nosso único Salvador.

Arde em Ti o desejo de seres amado, e quem se sintoniza com os sentimentos do teu coração aprende a ser construtor da nova civilização do amor. Um simples acto de abandono é o que basta para superar as barreiras da escuridão e da tristeza, da dúvida e do desespero. Os raios da tua divina misericórdia dão nova esperança, de maneira especial, a quem se sente esmagado pelo peso do pecado.

Maria, Mãe da Misericórdia, faz com que conservemos sempre viva esta confiança no teu Filho, nosso Redentor. Ajuda-nos também tu, Santa Faustina, que hoje recordamos com particular afecto. Juntamente contigo queremos repetir, fixando o nosso olhar frágil no rosto do divino Salvador: "Jesus, confio em Ti". Hoje e sempre. Amen.

Retirado de: Vatican.va

Festa da Divina Misericórdia


A Misericórdia divina! Eis o dom pascal que a Igreja recebe de Cristo ressuscitado e oferece à humanidade no alvorecer do terceiro milênio.



( João Paulo II)

Hino ao Beato João Paulo II


Abri as portas a Cristo, não tenhais medo, escancarai vosso coração ao Amor de Deus


1. Testemunha da Esperança
para quem espera a salvação
Peregrino por amor
sobre as estradas do mundo.

2. Verdadeiro Pai para os jovens
Que enviaste pelo mundo,
sentinelas da manhã,
sinal vivo de esperança.

3. Testemunhas da Fé
que anunciastes com a vida,
firme e forte na prova
confirmou os teus irmãos.

4. Ensinaste para cada homem
a beleza da vida
indicando a família
como um sinal de amor. 

5. Portador da Paz
e arauto da justiça,
feitas entre as pessoas
núncio da misericórdia.

6. Na dor revelou
o poder da Cruz.
Dirija sempre os seus irmãos
pelas estradas do amor. 

7. Na Mãe do Senhor
indicaste-nos uma guia,
na sua intercessão
o poder da graça. 

8. Pai de misericórdia,
Filho, nosso Redentor,
Santo Espírito de Amor
a ti, Trindade, seja a glória. Amen.

Fonte: Livreto da Beatificação de João Paulo II

Trecho da Missa de S.Pedro e S.Paulo em 1988

Não tenhais medo!

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Por que Wojtyla não se tornou "santo logo", imediatamente depois da morte?

Muitos prelados queriam ignorar os tempos, mas Ratzinger preferiu o caminho da beatificação.


A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no jornal La Stampa, 27-04-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nas primeiras semanas do seu pontificado, Bento XVI levou seriamente em consideração o pedido de proclamar o Papa Wojtyla “santo já”, isto é, de abrir diretamente um processo para a canonização, pulando o grau intermediário da beatificação. Um evento que teria sido sem precedentes na época moderna.

Ratzinger não disse logo que não: avaliou a proposta que dava forma a uma aspiração do próprio secretário particular de Wojtyla, Stanislaw Dziwisz. Pediu conselhos para alguns colaboradores da Cúria Romana e, no fim, estabeleceu que permitiria logo a abertura do processo, sem esperar os cinco anos da morte, mas sem pular o grau de beato.

É preciso voltar à grande emoção dos dias posteriores à morte de João Paulo II para compreender o que aconteceu nos sagrados palácios do outro lado do Tibre. Os cardeais, enquanto se reuniam para decidir o desdobramento dos funerais e para preparar o conclave no qual Bento XVI seria eleito, acompanhavam o rio ininterrupto de pessoas que desfilavam diante dos restos mortais de Wojtyla.

O cardeal eslovaco Jozef Tomko, prefeito emérito da Propaganda Fide e amigo do Pontífice recém falecido, fez-se promotor de uma coleta de assinaturas entre os colegas purpurados para pedir que o novo Papa, quem quer que fosse, abrisse a causa para levar o antecessor aos altares. O então decano do Colégio Cardinalício, Joseph Ratzinger, na homilia da missa fúnebre, falou de Wojtyla assomado à janela do céu, e as suas palavras foram consideradas como um viático para a auréola. Logo depois da eleição, foi o cardeal Ruini que lhe apresentou o abaixo-assinado dos purpurados. Da parte de Dziwisz, ao contrário, chegou a Bento XVI a sugestão de proceder à proclamação a “santo já”.

Ratzinger, que havia conhecido Wojtyla de perto e havia sido um dos seus mais longevos e estreitos colaboradores, quis avaliar com calma os prós e os contras: de um lado, a fama de santidade disseminada em nível popular e a excepcionalidade da figura do antecessor; de outro, as regras canônicas e o impacto que uma tal exceção teria, passando logo para uma proclamação de santidade.

O novo Papa sabia bem que algo semelhante havia sido levado em consideração apenas dois anos antes, em junho de 2003, quando o secretário de Estado Angelo Sodano havia escrito uma carta em nome de João Paulo II a alguns cardeais da Cúria Romana, pedindo-lhes um parecer sobre a possibilidade de logo proclamar santa madre Teresa de Calcutá, sem passar pela beatificação. Ao Papa Wojtyla não desagradava essa ideia, mas ele quis consultar os colaboradores, que o aconselharam. Assim, madre Teresa tornou-se beata, não santa.

Consultados alguns colaboradores, Bento XVI, portanto, seguiu a mesma linha. Decidiu anular aquela espera de cinco anos, mas estabeleceu que a causa do antecessor, mesmo seguindo um caminho preferencial enquanto aos tempos, ocorresse segundo procedimentos regulares, sem atalhos ou descontos. O fato de que a apenas seis anos da sua morte João Paulo II se tornará beato já é, por si só, um fato excepcional. Há mais de um milênio, de fato, um Papa não eleva aos altares o seu antecessor imediato.

O último Papa que foi desejado como “santo já”, antes de Wojtyla, foi João XXIII: os padres do Vaticano II propuseram ao seu sucessor Paulo VI que o canonizasse no Concílio, por aclamação. Também dessa vez, o Papa preferiu agir diferentemente e fez com que fosse iniciado um processo regular para Roncalli, colocando ao seu lado um outro processo para Pio XII.

Em: Fratres in Unum
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