sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Papa promulga dois novos Motus Proprios

O Boletim da Santa Sé divulgou nesta sexta-feira, 25, duas novas Cartas Apostólicas em forma de Motu Proprio do Papa Bento XVI. Trata-se do Motu Próprio “Fides per doctrinam” e “Ministrorum institutio”.

Com a primeira delas, a “Fides per doctrinam”, modifica-se a Constituição apostólica Pastor bonus e se transfere a competência sobre a Catequese da Congregação para o Clero ao Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização.

Já o Motu Proprio “Ministrorum institutio” refere-se a uma mudança com relação aos seminários. Antes de competência da Congregação para a Educação Católica, a partir de agora os seminários ficarão a cargo da Congregação para o Clero.
Fontes: Canção Nova e Boletim da Santa Sé

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Catequese do Papa: oração e sentido religioso

Queridos irmãos e irmãs:


Hoje eu gostaria de continuar refletindo sobre como a oração e o sentido religioso fazem parte do homem ao longo de toda a sua história.

Vivemos em uma época na qual são evidentes os sinais de secularismo. Parece que Deus desapareceu do horizonte de muitas pessoas ou que se tornou uma realidade diante da qual se permanece indiferente. Vemos, no entanto, ao mesmo tempo, muitos sinais que nos indicam um despertar do sentido religioso, uma redescoberta da importância de Deus para a vida do homem, uma exigência de espiritualidade, de superar uma visão puramente horizontal, material da vida humana. Analisando a história recente, fracassou a previsão daqueles que, na época do iluminismo, anunciavam o desaparecimento das religiões e exaltavam a razão absoluta, separada da fé, uma razão que teria afastado as trevas dos dogmas religiosos e que teria dissolvido "o mundo do sagrado", restituindo ao homem a sua liberdade, sua dignidade e sua autonomia de Deus. A experiência do século passado, com as duas trágicas guerras mundiais, colocou em crise aquele progresso que a razão autônoma do homem sem Deus parecia poder garantir.

O Catecismo da Igreja Católica afirma: "Pela criação, Deus chama todos os seres do nada à existência. (...) Mesmo depois de, pelo pecado, ter perdido a semelhança com Deus, o homem continua a ser à imagem do seu Criador. Conserva o desejo d'Aquele que o chama à existência. Todas as religiões testemunham esta busca essencial do homem" (n. 2566). Poderíamos dizer - como mostrei na catequese anterior - que não houve nenhuma grande civilização, desde os tempos mais antigos até os nossos dias, que não tenha sido religiosa.

O homem é religioso por natureza, é homo religiosus, assim como é homo sapiens e homo faber: "O desejo de Deus - afirma também o Catecismo - está inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus" (n. 27). A imagem do Criador está impressa em seu ser e sente a necessidade de encontrar uma luz para dar resposta às perguntas que têm a ver com o sentido profundo da realidade - resposta que ele não pode encontrar em si mesmo, no progresso, na ciência empírica. O homo religiosus não emerge somente do mundo antigo, mas atravessa toda a história da humanidade. Para este fim, o rico terreno da experiência humana viu surgir diversas formas de religiosidade, na tentativa de responder ao desejo de plenitude e de felicidade, à necessidade de salvação, à busca de sentido. O homem "digital", assim como o das cavernas, busca na experiência religiosa os caminhos para superar sua finitude e para assegurar sua precária aventura terrena. No demais, a vida sem um horizonte transcendente não teria um sentido completo; e a felicidade à qual tendemos se projeta ao futuro, rumo a um amanhã que ainda se cumprirá. O Concílio Vaticano II, na declaração Nostra aetate, sublinhou isso sinteticamente. Diz assim: "Os homens esperam das diversas religiões resposta para os enigmas da condição humana, os quais, hoje como ontem, profundamente preocupam seus corações: que é o homem? qual o sentido e a finalidade da vida? que é o pecado? donde provém o sofrimento, e para que serve? qual o caminho para alcançar a felicidade verdadeira? que é a morte, o juízo e a retribuição depois da morte? finalmente, que mistério último e inefável envolve a nossa existência, do qual vimos e para onde vamos?" (n.1). O homem sabe que não pode responder por si mesmo à sua própria necessidade fundamental de entender. Ainda que seja iluso e acredite ainda que é autossuficiente, tem a experiência de que não se basta a si mesmo. Precisa abrir-se ao outro, a algo ou a alguém, que possa dar-lhe o que lhe falta; deve sair de si mesmo rumo Àquele que pode saciar a amplidão e profundidade do seu desejo.

O homem carrega dentro de si uma sede do infinito, uma nostalgia da eternidade, uma busca da beleza, um desejo de amor, uma necessidade de luz e de verdade, que o empurram em direção ao Absoluto; o homem carrega dentro de si o desejo de Deus. E o homem sabe, de alguma forma, que pode dirigir-se a Deus, que pode rezar-lhe. São Tomás de Aquino, um dos maiores teólogos da história, define a oração como a "expressão do desejo que o homem tem de Deus". Esta atração por Deus, que o próprio Deus colocou no homem, é a alma da oração, que se reveste de muitas formas e modalidades segundo a história, o tempo, o momento, a graça e, finalmente, o pecado de cada um dos que rezam. A história do homem conheceu, de fato, variadas formas de oração, porque ele desenvolveu diversas modalidades de abertura ao Alto e ao "mais além", tanto que podemos reconhecer a oração como uma experiência presente em toda religião e cultura.

De fato, queridos irmãos e irmãs, como vimos na última quarta-feira, a oração não está vinculada a um contexto particular, mas se encontra inscrita no coração de toda pessoa e toda civilização. Naturalmente, quando falamos da oração como experiência do homem enquanto tal, do homo orans, é necessário ter presente que esta é uma atitude interior, antes que uma série de práticas e fórmulas; um modo de estar frente a Deus, antes que de realizar atos de culto ou pronunciar palavras. A oração tem seu centro e fundamenta suas raízes no mais profundo da pessoa; por isso, não é facilmente decifrável e, pelo mesmo motivo, pode estar sujeita a mal-entendidos e mistificações. Também neste sentido, podemos entender a expressão: rezar é difícil. De fato, a oração é o lugar por excelência da gratuidade, da tensão com relação ao Invisível, ao Inesperado e ao Inefável. Por isso, a experiência da oração é um desafio para todos, uma "graça" a ser invocada, um dom d'Aquele a quem nos dirigimos.

Na oração, em todas as épocas da história, o homem se considera a si mesmo e à sua situação frente a Deus, a partir de Deus e com relação a Deus, e experimenta ser criatura necessitada de ajuda, incapaz de procurar por si mesmo o cumprimento da própria existência e da própria esperança. O filósofo Ludwig Wittgenstein recordava que "rezar significa sentir que o sentido do mundo está fora do mundo". Na dinâmica desta relação com quem dá sentido à existência, com Deus, a oração tem uma de suas típicas expressões no gesto de colocar-se de joelhos. É um gesto que leva em si mesmo uma radical ambivalência: de fato, posso ser obrigado a colocar-me de joelhos - condição de indigência e de escravidão - ou posso me ajoelhar espontaneamente, confessando meu limite e, portanto, minha necessidade de Outro. A ele confesso que sou fraco, necessitado, "pecador". Na experiência da oração, a criatura humana expressa toda a sua consciência de si mesma; tudo que consegue captar de sua existência e, ao mesmo tempo, dirige-se, toda ela, ao Ser frente ao qual está; orienta sua alma àquele Mistério do qual espera o cumprimento dos seus desejos mais profundos e a ajuda para superar a indigência da própria vida. Neste olhar para o Outro, neste dirigir-se ao "Mais Além", está a essência da oração, como experiência de uma realidade que supera o sensível e o contingente.

No entanto, somente no Deus que se revela, a busca do homem encontra sua plena realização. A oração que é a abertura e elevação do coração a Deus, torna-se uma relação pessoal com Ele. E, ainda que o homem se esqueça do seu Criador, o Deus vivo e verdadeiro não deixa de convidar o homem ao misterioso encontro da oração. Como afirma o Catecismo: "Na oração, é sempre o amor do Deus fiel a dar o primeiro passo; o passo do homem é sempre uma resposta. À medida que Deus Se revela e revela o homem a si mesmo, a oração surge como um apelo recíproco, um drama de aliança. Através das palavras e dos atos, este drama compromete o coração e manifesta-se ao longo de toda a história da salvação" (n. 2567).

Queridos irmãos e irmãs, aprendamos a estar mais tempo diante de Deus, do Deus que se revelou em Jesus Cristo; aprendamos a reconhecer no silêncio, na intimidade de nós mesmos, sua voz que nos chama e nos reconduz à profundidade da nossa existência, à fonte da vida, ao manancial da salvação, para fazer-nos ir muito além dos limites da nossa vida e abrir-nos à medida de Deus, à relação com Ele, que é Infinito Amor.

Obrigado!

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:

Dando continuidade à reflexão sobre a oração, iniciada na semana passada, lembro que o homem é um ser religioso por natureza. Ele sente necessidade de sair de si mesmo ao encontro d'Aquele que é capaz de plenificar a grandeza e a profundidade do seu desejo: o homem tem em si o desejo de Deus. E, o homem sabe que pode dirigir-se a Deus, sabe que Lhe pode rezar. São Tomás de Aquino define a oração como «expressão do desejo que o homem tem de Deus». Esta atração, que o próprio Deus colocou no homem, é a alma da oração que depois se reveste de muitas formas e modalidades. Na dinâmica desta relação com Deus que dá sentido à existência, a oração tem uma das típicas expressões no gesto de ajoelhar, declarando ter necessidade d'Ele. Assim, a oração, que é abertura e elevação do coração a Deus, se torna relação pessoal com Aquele que nunca se esquece do homem, tomando Deus a iniciativa de chamá-lo ao misterioso encontro da oração.

Amados peregrinos de língua portuguesa, sede bem-vindos! A todos saúdo com grande afeto e alegria, particularmente aos fiéis brasileiros vindos das paróquias em Goiânia e Teresópolis, e aos grupos da Família Franciscana e de Schoenstatt. Aprendei a reconhecer no vosso íntimo a voz de Deus que, na oração, chama à profundidade da vossa existência, à fonte da vida e da salvação. Que Ele vos abençoe a vós e as vossas famílias!

[Tradução: Aline Banchieri.© Libreria Editrice Vaticana]

Retirado de: Zenit

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Catequese de Bento XVI - "Escola de Oração"


Queridos irmãos e irmãs,


hoje, gostaria de iniciar uma nova série de Catequeses. Após as Catequeses sobre os Padres da Igreja, sobre os grandes teólogos da Idade Média, sobre as grandes mulheres, gostaria agora de escolher um tema que está muito presente no coração de todos nós: é o tema da oração, de modo específico daquela cristã, a oração, isto é, que Jesus nos ensinou e que continua a ensinar à Igreja. É em Jesus, de fato, que o homem torna-se capaz de aproximar-se de Deus com a profundidade e intimidade da relação de paternidade e de filiação. Unidos aos primeiros discípulos, com humilde confiança dirijamo-nos então ao mestre e Lhe peçamos: "Senhor, ensina-nos a rezar" (Lc 11,1).

Nas próximas Catequeses, escutando a Sagrada Escritura, a grande tradição dos padres da Igreja, dos Mestres de espiritualidade, da Liturgia, desejamos aprender a viver ainda mais intensamente a nossa relação com o Senhor, quase como que uma "Escola de oração". Sabemos bem, de fato, que a oração não é um dado adquirido: é preciso aprender a rezar, quase adquirindo sempre novamente esta arte; também aqueles que são muito avançados na vida espiritual sentem sempre a necessidade de inscrever-se na escola de Jesus para aprender a rezar com autenticidade. Recebemos a primeira lição do Senhor através do Seu exemplo. Os Evangelhos descrevem-nos Jesus em diálogo íntimo e constante com o Pai: é uma comunhão profunda daquele que veio ao mundo não para fazer a sua vontade, mas aquela do Pai, que o enviou para a salvação do homem.

Nesta primeira Catequese, como introdução, gostaria de propor alguns exemplos de oração presentes nas antigas culturas, para fazer notar como, praticamente sempre e por toda a parte, somos voltados a Deus.

Começo com o antigo Egito, como exemplo. Aqui um homem cego, pedindo à divindade para restituir-lhe a vista, atesta algo de universalmente humano, qual seja a pura e simples oração de súplica da parte de quem se encontra em sofrimento, quando reza: "O meu coração deseja ver-te... Tu, que me tendes feito ver as trevas, cria a luz para mim. Que eu te veja! Inclina sobre mim o teu rosto amado" (A. Barucq – F. Daumas, Hymnes et prières de l’Egypte ancienne, Paris 1980, trad. it. in Preghiere dell’umanità, Brescia 1993, p. 30). Que eu te veja. Aqui está o núcleo da oração!

Entre as religiões da Mesopotâmia dominava um sentimento de culpa misterioso e paralisante, não privado, contudo, da esperança de resgate e libertação da parte de Deus. Podemos assim apreciar esta súplica da parte de um crente daqueles antigos cultos, que soa assim: "Ó Deus, que és indulgente também na culpa mais grave, absolve o meu pecado... Olha, Senhor, ao teu servo exausto, e sopra a tua brisa sobre ele: sem demora, perdoai-lhe. Alivia a tua punição severa. Solto das amarras, faz com que eu volte a respirar; quebra a minha corrente, desata-me dos laços" (M.-J. Seux, Hymnes et prières aux Dieux de Babylone et d’Assyrie, Paris 1976, trad. it. in Preghiere dell’umanità, op. cit., p. 37). São expressões que demonstram como o homem, na sua busca por Deus, já intuía, ainda que confusamente, por um lado a sua culpa, e por outro os aspectos da misericórdia e da bondade divina.

No interior da religião pagã da Grécia antiga, assiste-se a uma evolução muito significativa: as orações, ainda que continuando a invocar o auxílio divino para obter o favor celeste em todas as circunstâncias da vida cotidiana e para conseguir alguns benefícios materiais, orientam-se progressivamente na direção de solicitações mais desinteressadas, que consentem ao homem crente aprofundar o seu relacionamento com Deus e tornar-se melhor. Por exemplo, o grande filósofo Platão reporta uma oração do seu mestre, Sócrates, tido justamente como um dos fundadores do pensamento ocidental. Assim rezava Sócrates: "Fazei com que eu seja belo por dentro. Que eu considere rico quem é sábio e que de dinheiro possua somente o quanto possa levar e conduzir à sabedoria. Não peço nada mais" (Opere I. Fedro 279c, trad. it. P. Pucci, Bari 1966). Desajaria ser, sobretudo, belo por dentro e sábio, e não rico de dinheiro.

Naquelas excelsas obras-primas da literatura de todos os tempos que são as tragédias gregas, após vinte e cinco séculos, lidas, meditadas e representadas, estão contidas orações que expressam o desejo de conhecer a Deus e de adorar a sua majestade. Uma dessas recita assim: "Sustento da terra, que sobre a terra tendes tua Sede, seja quem tu fores, difícil de se compreender, Zeus, seja tu lei da natureza ou pensamento dos mortais, a ti me dirijo: já que tu, procedendo por caminhos silenciosos, julgas os acontecimentos humanos segundo a justiça" (Euripide, Troiane, 884-886, trad. it. G. Mancini, in Preghiere dell’umanità, op. cit., p. 54). Deus permanece um pouco nebuloso e, todavia, o homem conhece esse Deus desconhecido e reza àquele que guia os caminhos da terra.

Também entre os Romanos, que constituíram aquele grande Império em que nasceu e se difundiu em grande parte o Cristianismo das origens, a oração, ainda que associada a uma concepção utilitarista e fundamentalmente ligada ao pedido da proteção divina sobre a vida da comunidade civil, abre-se por vezes a invocações admiráveis pelo fervor da piedade pessoal, que se transforma em louvor e agradecimento. Disso é testemunha um autor da África romana do século II depois de Cristo, Apuleio. Nos seus escritos, ele manifesta a insatisfação dos contemporâneos em relação às religiões tradicionais e o desejo de uma relação mais autêntica com Deus. Na sua obra-prima, intitulada Le metamorfosi, um crente dirige-se a uma divindade feminina com estas palavras: 'Tu sim és santa, tu és em todo o tempo salvadora da espécie humana, tu, na tua generosidade, provê sempre auxílio aos mortais, tu ofereces aos miseráveis em trabalho o doce afeto que pode ter uma mãe. Nem o dia, nem a noite, nem momento algum, por breve que seja, passa sem que tu o preenchas com os teus benefícios" (Apuleio di Madaura, Metamorfosi IX, 25, trad. it. C. Annaratone, in Preghiere dell’umanità, op. cit., p. 79).

No mesmo período, o imperador Marco Aurelio – que era também filósofo pensador sobre a condição humana – afirma a necessidade de rezar para estabelecer uma cooperação frutuosa entre a ação divina e a ação humana. Escreve no seu Ricordi: "Quem te disse que os deuses não nos ajudam também naquilo que depende de nós? Começa portanto a rezar a eles, e verás" (Dictionnaire de Spiritualitè XII/2, col. 2213). Esse conselho do imperador filósofo foi efetivamente colocado em prática por inumeráveis gerações de homens antes de Cristo, demonstrando assim que a vida humana sem a oração, que abre a nossa existência ao mistério de Deus, fica privada de sentido e referência. Em cada oração, de fato, expressa-se sempre a verdade da criatura humana, que, por um lado experimenta a debilidade e indigência, e por isso pede o auxílio dos Céus, e por outro é dotada de uma extraordinária dignidade, porque, preparando-se para acolher a Revelação divina, descobre-se capaz de entrar em comunhão com Deus.

Queridos amigos, nesses exemplos de orações de diversas épocas e civilizações, emerge a consciência que o ser humano tem de sua condição de criatura e da sua dependência de um Outro a ele superior e fonte de todo o bem. O homem de todos os tempos reza porque não pode prescindir de perguntar-se sobre qual seja o sentido da sua existência, que permanece obscuro e desconfortante se não é colocado em relações com o mistério de Deus e do seu projeto sobre o mundo. A vida humana é uma mistura de bem e mal, de sofrimento imerecido e de alegria e beleza, que espontânea e irresistivelmente nos impelem a pedir a Deus aquela luz e aquela força interior que nos socorrem sobre a terra e abrem uma esperança que vai para além dos confins da morte. As religiões pagãs são uma invocação que da terra espera uma palavra do Céu. Um dos últimos grandes filósofos pagãos, que viveu já em plena época cristã, Proclo de Constantinopola, dá voz a essa expectativa, dizendo: "Incognoscível, ninguém te contém. Tudo aquilo que pensamos te pertence. São de ti os nossos males e os nossos bens, de ti depende toda a nossa vontade, ó inefável, que as nossas almas sentem presente, a ti elevando um hino de silêncio" (Hymni, ed. E. Vogt, Wiesbaden 1957, in Preghiere dell’umanità, op. cit., p. 61).

Nos exemplos de oração das várias culturas, que consideramos, podemos ver um testemunho da dimensão religiosa e do desejo de Deus inscrito no coração de cada homem, que recebem cumprimento e plena expressão no Antigo e no Novo Testamento. A Revelação, de fato, purifica e leva à sua plenitude o desejo ardente originário do homem por Deus, oferecendo-lhe, na oração, a possibilidade de uma relação mais profunda com o Pai celeste.

No início deste nosso caminho na "Escola da oração", desejamos então pedir ao Senhor que ilumine a nossa mente e o nosso coração, para que o relacionamento com Ele na oração seja sempre mais intenso, afetuoso e constante. Mais uma vez dizemo-Lhe: “Senhor, ensina-nos a rezar" (Lc 11,1).

quarta-feira, 2 de março de 2011

Catequese de Bento XVI sobre São Francisco de Sales

Queridos irmãos e irmãs,


“Dieu est le Dieu du coeur humain” [Deus é o Deus do coração humano] (Trattato dell’Amore di Dio, I, XV): nessas palavras aparentemente simples, colhemos a marca da espiritualidade de um grande mestre, sobre o qual desejo falar-vos hoje, São Francisco de Sales, Bispo e Doutor da Igreja. Nascido em 1567 em uma região francesa de fronteira, era filho do Senhor de Boisy, antiga e nobre família da Savoia. Viveu entre dois séculos, o XV e o XVI, trazendo consigo o melhor dos ensinamentos e conquistas culturais do século que findava, reconciliando a herança do humanismo com a inclinação em direção ao absoluto, própria das correntes místicas. A sua formação foi muito acurada; em Paris, fez os estudos superiores, dedicando-se também à teologia, e, na Universidade de Pádua, fez os estudos de jurisprudência, como desejava seu pai, e concluiu-os de modo brilhante, com a láurea em utroque iure em direito canônico e direito civil. Na sua harmoniosa juventude, refletindo sobre o pensamento de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, teve uma crise profunda que o levou a se interrogar sobre a própria salvação eterna e sobre a predestinação de Deus a seu respeito, sofrendo como verdadeiro drama espiritual as principais questões teológicas do seu tempo. Rezava intensamente, mas a dúvida o atormentou de modo tão forte que, por algumas semanas, chegou a ficar quase que completamente sem comer e dormir. No ápice da provação, dirigiu-se à igreja dos Dominicanos, em Paris, abriu o seu coração e rezou assim: "Aconteça o que acontecer, Senhor, tu que tens tudo na tua mão, e cujas vias são justiça e verdade; seja o que for que tu tenhas estabelecido para mim...; tu que és sempre justo juiz e Pai misericordioso, eu te amarei, Senhor [...], te amarei aqui, ó meu Deus, e esperarei sempre na tua misericórdia, e sempre repetirei o teu louvor... Ó, Senhor Jesus, tu serás sempre a minha esperança e a minha salvação na terra dos vivos" (I Proc. Canon., vol I, art 4). Aos vinte anos, Francisco encontrou a paz na realidade radical e libertadora do amor de Deus: amá-lo sem nunca pedir nada em troca e confiar no amor divino; não questionar mais o que fará Deus comigo: eu o amo simplesmente, independentemente de o quanto me dá ou não me dá. Assim encontrou a paz, e a questão da predestinação – sobre a qual se discutia naquele tempo – resolveu-se, porque ele não buscava mais aquilo que podia ter de Deus; amava-o simplesmente, abandonava-se à Sua bondade. E isso será o segredo da sua vida, que transparecerá na sua obra principal: o Tratado do amor de Deus.

Vencendo as resistências do pai, Francisco seguiu o chamado do Senhor e, aos 18 de dezembro de 1593, foi ordenado sacerdote. Em 1602, torna-se Bispo de Genebra, em um período em que a cidade era fortaleza do Calvinismo, tanto que a sede episcopal encontrava-se "exilada" em Annecy. Pastor de uma diocese pobre e atormentada, em uma paisagem montanhosa da qual conhecia bem tanto a dureza quanto a beleza, ele escreve: "[Deus] o encontrei cheio de doçura e suavidade entre as nossas mais altas e ásperas montanhas, onde muitas almas simples o amavam e adoravam em toda a verdade e sinceridade; e veados e camurças corriam de lá para cá entre os gelos assustados para anunciar os seus louvores" (Lettera alla Madre di Chantal, outubro de 1606, em Oeuvres, éd. Mackey, t. XIII, p. 223). E, todavia, o influxo da sua vida e do seu ensinamento sobre a Europa da época e dos séculos sucessivos parece imenso. É apóstolo, pregador, escritor, homem de ação e de oração; comprometido em realizar os ideais do Concílio de Trento; envolvido na controvérsia e no diálogo com os protestantes, experimentando sempre mais, para além do necessário confronto teológico, a eficácia da relação pessoal e da caridade; encarregado de missões diplomáticas em nível europeu, e de tarefas sociais de mediação e reconciliação. Mas, sobretudo, São Francisco de Sales é guia das almas: do encontro com uma jovem mulher, a senhora de Charmoisy, buscará inspiração para escrever um dos livros mais lidos na idade moderna, a Introdução à vida devota; da sua profunda comunhão espiritual com uma personaliza excepcional, Santa Giovanna Francesca di Chantal, nascerá uma nova família religiosa, a Ordem da Visitação, caracterizada – como desejou o santo – por uma consagração total a Deus vivida na simplicidade e humildade, no fazer extraordinariamente bem as coisas extraordinárias: "... desejo que as minhas Filhas – ele escreve – não tenham outro ideal senão aquele de glorificar [Nosso Senhor] com a sua humildade" (Lettera a mons. de Marquemond, junho de 1615). Morreu em 1622, aos 55 anos, após uma existência assinalada pela dureza dos tempos e pela fadiga apostólica.

Aquela de São Francisco de Sales foi uma vida relativamente breve, mas vivida com grande intensidade. Da figura deste Santo, emana uma impressão de rara plenitude, demonstrada na serenidade da sua pesquisa intelectual, mas também na riqueza dos seus afetos, na "doçura" dos seus ensinamentos que tiveram um grande influxo sobre a consciência cristã. Da palavra "humanidade" ele encarnou diversas acepções que, tanto hoje como ontem, esse termo pode assumir: cultura e cortesia, liberdade e ternura, nobreza e solidariedade. Na aparência, tinha algo da majestade da paisagem em que viveu, conservando também a simplicidade e a natureza. As antigas palavras e imagens em que se expressava soam inesperadamente, também aos ouvidos do homem de hoje, como uma língua nativa e familiar.

A Filoteia, a destinatária idealizada da sua Introdução à vida devota (1607), Francisco de Sales destina um convite que poderia parecer, à época, revolucionário. É o convite a ser completamente de Deus, vivendo em plenitude a presença no mundo e as obrigações do próprio estado. "A minha intenção é a de instruir aqueles que vivem na cidade, no estado conjugal, na corte […]" (Prefácio à Introdução à vida devota). O Documento com que o Papa Leão XIII, mais de dois séculos depois, o proclamará Doutor da Igreja insistirá sobre esse alargamento do chamado à perfeição, à santidade. Ali é escrito: "[a verdadeira piedade] penetrou até o trono do rei, na tenda dos comandantes dos exércitos, no pretório dos juízes, nos escritórios, nos comércios e até nas cabanas dos pastores […]" (Breve Dives in misericordia, 16 de novembro de 1877). Nascia assim aquele apelo aos leigos, aquele cuidado pela consagração das coisas temporais e pela santificação do cotidiano, sobre as quais insistirão o Concílio Vaticano II e a espiritualidade do nosso tempo. Manifestava-se o ideal de uma humanidade reconciliada, na sintonia entre a ação no mundo e oração, entre condição secular e busca da perfeição, com o auxílio da Graça de Deus que permeia o humano e, sem destruí-lo, purifica-o, elevando-o às alturas divinas. A Teotimo, o cristão adulto, espiritualmente maduro, ao qual endereça alguns anos depois o seu Tratado do amor de Deus (1616), São Francisco de Sales oferece uma lição mais complexa. Essa supõe, ao início, uma precisa visão do ser humano, uma antropologia: a "razão" do homem, precisamente a "alma racional", ali é vista como uma arquitetura harmônica, um templo, articulado em mais espaços, em torno a um centro, que ele chama, juntamente com os grandes místicos, "topo", "ponta" do espírito, ou "fundo" da alma. É o ponto em que a razão, percorridos todos os seus graus, "fecha os olhos" e a consciência torna-se totalmente unidade com o amor (cf. livro I, cap. XII). Que o amor, na sua dimensão teologal, divina, seja a razão de ser de todas as coisas, em uma escala ascendente que não parece conhecer fraturas e abismos, São Francisco de Sales o resume em uma célebre frase: "O homem é a perfeição do universo; o espírito é a perfeição do homem; o amor é a perfeição do espírito, e a caridade a perfeição do amor" (ibid., livro X, cap. I).

Em uma época de intenso florescimento místico, o Tratado do amor de Deus é uma verdadeira e própria summa, e ao mesmo tempo uma fascinante obra literária. A sua descrição do itinerário rumo a Deus parte do reconhecimento da "natural inclinação" (ibid., livro I, cap. XVI), inscrita no coração do homem enquanto pecador, a amar a Deus sobre todas as coisas. Segundo o modelo da Sagrada Escritura, São Francisco de Sales fala da união entre Deus e o homem desenvolvendo toda uma série de imagens de relação interpessoal. O seu Deus é pai e senhor, esposo e amigo, tem características maternas e de zelo, é o sol que mesmo à noite é misteriosa revelação. Um tal Deus atrai a si o homem com vínculos de amor, isto é, de verdadeira liberdade: "porque o amor não tem forçados nem escravos, mas reduz tudo à sua obediência com uma força tão deliciosa que, se nada é tão forte quanto o amor, nada é tão amável quanto a sua força" (ibid., livro I, cap. VI). Encontramos no tratado do nosso Santo uma meditação profunda sobre a vontade humana e a descrição do seu fluir, passar, morrer, para viver (cf. ibid., livro IX, cap. XIII) no completo abandono não somente à vontade de Deus, mas àquilo que a Ele apraz, ao seu “bon plaisir”, ao seu beneplácito (cf. ibid., livro IX, cap. I). No ápice da união com Deus, além dos repentes de êxtase contemplativa, coloca-se aquele refluir de caridade concreta, que atenta para todas as necessidades dos outros e que ele chama de "êxtase da vida e das obras" (ibid., livro VII, cap. VI).

Adverte-se bem, lendo o livro sobre o amor de Deus e ainda mais as outras tantas cartas de direção e de amizade espiritual, aquele conhecedor do coração humano que foi São Francisco de Sales. A Santa Giovanna di Chantal escreve: "[…] Eis a regra da nossa obediência que vos escrevo em letras maiúsculas: FAZER TUDO POR AMOR, NADA POR FORÇA - AMAR MAIS A OBEDIÊNCIA QUE TEMER A DESOBEDIÊNCIA. Deixo-vos o espírito de liberdade, não enquanto aquele que exclui a obediência, porque essa é a liberdade do mundo; mas aquele que exclui a violência, a ânsia e o escrúpulo" (Lettera del 14 ottobre 1604). Não por acaso, na origem de muitas vias da pedagogia e da espiritualidade de nosso tempo, re-encontramos exatamente a marca desse mestre, sem o qual não haveria São João Bosco nem a heroica "pequena via" de Santa Teresa de Lisieux.

Queridos irmãos e irmãs, em uma época como a nossa, que busca a liberdade, também com violência e inquietudes, não deve escapar a atualidade deste grande mestre de espiritualidade e de paz, que entrega a seus discípulos o "espírito de liberdade", aquela verdadeira, no cume de um ensinamento fascinante e completo sobre a realidade do amor. São Francisco de Sales é um testemunho exemplar do humanismo cristão; com o seu estilo familiar, com parábolas que têm às vezes o bater das asas da poesia, recorda que o homem traz inscrita no profundo de si a nostalgia de Deus e que somente n'Ele encontra a verdadeira alegria e a sua realização mais plena.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Catequese de Bento XVI sobre Santa Catarina de Gênova


Queridos irmãos e irmãs,


hoje, desejo falar-vos de outra Santa que leva o nome de Catarina, após Catarina de Sena e Catarina de Bolonha; falo de Catarina de Gênova, conhecida sobretudo por sua visão do purgatório. O texto que descreve sua vida e pensamento foi publicado na cidade liguresa em 1551; é dividido em três partes: a Vida propriamente dita, a Dimostratione et dechiaratione del purgatorio [Demonstração e declaração do purgatório] – mais conhecida como Trattato - e o Dialogo tra l’anima e il corpo [Diálogo entre a alma e o corpo]. O autor final foi o confessor de Catarina, o sacerdote Cattaneo Marabotto.

Catarina nasceu em Gênova, em 1447; última de cinco filhos, ficou órfã do pai, Giacomo Fieschi, quando ainda era pequena. A mãe, Francesca di Negro, deu-lhe uma válida educação cristã, tanto que a maior das duas filhas tornou-se religiosa. Aos dezesseis anos, Catarina foi prometida em casamento a Giuliano Adorno, um homem que, após várias experiências comerciais e militares no Oriente Médio, havia retornado a Gênova para se casar. A vida matrimonial não foi fácil, também pelo caráter do marido, inclinado aos jogos de azar. A própria Catarina foi induzida inicialmente a cultivar um tipo de vida mundana, na qual, contudo, não chegou a encontrar serenidade. Após dez anos, no seu coração havia um sentimento de profundo vazio e amargura.

A conversão iniciou em 20 de março de 1473, graças a uma experiência singular. Foi para a Igreja de São Bento e ao Mosteiro de Nossa Senhora das Graças, para confessar-se, e, ajoelhando-se diante do sacerdote, "recebeu – como ela mesma escreve – uma ferida no coração, de um imenso amor de Deus", com uma visão tão clara de suas misérias e de seus defeitos e, ao mesmo tempo, da bondade de Deus, que quase desmaia. Foi tocada no coração por essa consciência de si mesma, da vida vazia que levava e da bondade de Deus. Dessa experiência nasce a decisão que orientou toda a sua vida, expressa nas palavras: “Não mais o mundo, não mais pecados" (cf. Vita mirabile, 3rv). Catarina, em seguida, fugiu, deixando em aberto a Confissão. De volta à casa, entrou no quarto mais escondido e chorou longamente. Naquele momento, foi instruída interiormente sobre a oração e teve consciência do imenso amor de Deus pelos pecadores, uma experiência espiritual que não conseguiu expressar em palavras (cf. Vita mirabile, 4r). É nessa ocasião que lhe aparece Jesus sofredor, carregando a cruz, como frequentemente é representado na iconografia da Santa. Poucos dias depois, retornou ao sacerdote para fazer finalmente uma boa Confissão. Começou aqui aquela "vida de purificação" que, por muito tempo, a fez experimentar uma constante dor pelos pecados cometidos e a levou a impor-se penitências e sacrifícios para mostrar a Deus o seu amor.

Nesse caminho, Catarina foi aproximando-se sempre mais do Senhor, até entrar naquela que é chamada "vida unitiva", um relacionamento, isto é, de união profunda com Deus. Na Vita, é descrito que a sua alma era guiada e domesticada interiormente somente pelo doce amor de Deus, que lhe dava tudo aquilo de que tinha necessidade. Catarina abandonou-se de modo tão absoluto nas mãos do Senhor a ponto de viver, por cerca de vinte e cinco anos – como ela escreve – "sem mediação de nenhuma criatura, sendo somente por Deus instruída e governada" (Vita, 117r-118r), alimentada sobretudo pela oração constante e pela Santa Comunhão, recebida diariamente, algo que não era comum no seu tempo. Somente muitos anos mais tarde o Senhor lhe deu um sacerdote que cuidasse de sua alma.

Catarina sempre foi relutante no confidenciar e manifestar a sua experiência de comunhão mística com Deus, sobretudo pela profunda humildade que experimentava frente às graças do Senhor. Somente a perspectiva de dar-Lhe glória e poder beneficiar o caminho espiritual de outros a levou a narrar aquilo que aconteceu com ela, a partir do momento da sua conversão, que é a sua experiência originária e fundamental. O local da sua ascensão aos vértices místicos foi o hospital de Pammatone, o maior complexo hospitalar genovês, do qual foi diretora e animadora. Ali, Catarina vive uma existência totalmente ativa, apesar dessa profundidade de sua vida interior. Em Pammatone, vai-se formando em torno a ela um grupo de seguidores, discípulos e colaboradores, fascinados por sua vida de fé e por sua caridade. O próprio marido, Giuliano Adorno, ali foi conquistado a deixar a sua vida dissipada, tornando-se terciário franciscano e transferindo-se ao hospital para dar o seu auxílio à mulher. O empenho de Catarina na cura dos doentes segue até o fim de seu caminho terreno, em 15 de setembro de 1510. Da conversão à morte não houve eventos extraordinários, mas dois elementos caracterizaram toda a sua existência: de um lado, a experiência mística, isto é, a profunda união com Deus, sentida como uma união esponsal, e, de outro, a assistência aos doentes, a organização do hospital, o serviço ao próximo, especialmente os mais necessitados e abandonados. Esses dois pólos – Deus e o próximo – preencheram totalmente a sua vida, transcorrida praticamente no interior dos muros do hospital.

Queridos amigos, não devemos nunca esquecer que, quanto mais amamos a Deus e somos constantes na oração, tanto mais conseguiremos amar verdadeiramente quem está ao nosso redor, quem nos é próximo, porque seremos capazes de ver em toda a pessoa o rosto do Senhor, que ama sem limites e distinções. A mística não cria distância com o outro, não cria uma vida abstrata, mas, mais que tudo, aproxima do outro, porque se começa a ver e agir com os olhos, com o coração de Deus.

O pensamento de Catarina sobre o purgatório, pelo qual é particularmente conhecida, é condensado nas últimas duas partes do livro citado no início: o Trattato sobre o purgatório e o Dialogo tra l’anima e il corpo [Diálogo entre a alma e o corpo]. É importante observar que Catarina, na sua experiência mística, nunca teve revelações específicas sobre o purgatório ou sobre almas que ali estão se purificando. Todavia, nos escritos inspirados de nossa Santa, é um elemento central e o modo de descrevê-lo tem características originais com relação à sua época. O primeiro traço original diz respeito ao "lugar" da purificação das almas. Em seu tempo, era representado principalmente com o recurso a imagens ligadas ao espaço: pensava-se em um certo espaço, onde se encontraria o purgatório. Em Catarina, ao contrário, o purgatório não é apresentado como um elemento de paisagem das vísceras da terra: é um fogo não exterior, mas interior. Esse é o purgatório, um fogo interior. A Santa fala do caminho de purificação da alma rumo à comunhão plena com Deus, partindo da própria experiência de profunda dor pelos pecados cometidos, em contraste com o infinito amor de Deus (cf. Vita mirabile, 171v). Sentimos no momento da conversão, onde Catarina sente de repente a bondade de Deus, a distância infinita da sua vida dessa bondade e um fogo queimando dentro de si mesma. E esse é o fogo que purifica, é o fogo interior do purgatório. Também aqui há um traço original com relação ao pensamento daquele tempo. Não se parte, de fato, do além para contar os tormentos do purgatório – como era usual naquele tempo e talvez ainda hoje – e depois indicar a via para a purificação ou a conversão, mas a nossa Santa parte da experiência exatamente interior da sua vida em caminho rumo à eternidade. A alma – diz Catarina – apresenta-se a Deus ainda ligada aos desejos e às penas que derivam do pecado, e isso torna impossível gozar da visão beatífica de Deus. Catarina afirma que Deus é tão puro e santo que a alma com as manchas do pecado não pode encontrar-se na presença da divina majestade (cf. Vita mirabile, 177r). E também nós sentimos o quanto estamos distantes, o quanto estamos cheios de tantas coisas, a ponto de não poder ver a Deus. A alma é consciente do imenso amor e da perfeita justiça de Deus e, por consequência, sofre por não ter respondido de modo correto e perfeito a tal amor, e exatamente o próprio amor a Deus torna-se chama, o amor mesmo a purifica das suas escórias do pecado.

Em Catarina, vemos a presença de fontes teológicas e místicas às quais era normal chegar em sua época. Em particular, encontra-se uma imagem típica de Dionísio, o Areopagita, aquela, qual seja, do fio de ouro que vincula o coração humano com Deus mesmo. Quando Deus purificou o homem, ele o liga com um sutilíssimo fio de ouro, que é o seu amor, e o atrai a si com um afeto tão forte que o homem fica como "superado e vencido e tudo foge de si". Assim, o coração do homem é invadido pelo amor de Deus, que se torna o único guia, o único motor da sua existência (cf. Vita mirabile, 246rv). Essa situação de elevação a Deus e de abandono à sua vontade, expressa na imagem do fio, é utilizada por Catarina para expressar a ação da luz divina sobre as almas do purgatório, luz que as purifica e eleva aos esplendores dos raios fulgurantes de Deus (cf. Vita mirabile, 179r).

Queridos amigos, os Santos, na sua experiência de união com Deus, alcançam um "saber" tão profundo dos mistérios divinos, no qual amor e conhecimento se compenetram, que são auxílio aos próprios teólogos no seu empenho de estudo, de intelligentia fidei, de intelligentia dos mistérios da fé, de aprofundamento real dos mistérios, por exemplo, de o que seja o purgatório.

Com a sua vida, santa Catarina ensina-nos que quanto mais amamos a Deus e entramos em intimidade com Ele na oração, tanto mais Ele se faz conhecer e acende o nosso coração com o seu amor. Escrevendo sobre o purgatório, a Santa recorda-nos uma verdade fundamental da fé que se torna, para nós, convite a rezar pelos defuntos, a fim de que possam chegar à visão beatífica de Deus na comunhão dos santos (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1032). O serviço humilde, fiel e generoso que a Santa prestou por toda a sua vida no hospital de Pammatone, pois, é um luminoso exemplo de caridade para todos e um encorajamento especialmente para as mulheres que dão uma contribuição fundamental à sociedade e à Igreja com a sua obra preciosa, enriquecida pela sua sensibilidade e atenção com os mais pobres e mais necessitados. Obrigado.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Catequese de Bento XVI na proximidade do Natal

Queridos irmãos e irmãs!

Com esta última Audiência antes das Festividades Natalícias, aproximamo-nos, estremecidos e cheios de admiração, no "lugar" onde, para nós e para a nossa salvação, tudo começou, onde tudo encontrou um cumprimento, lá onde se encontraram e se cruzaram as expectativas do mundo e do coração humano com a presença de Deus. Podemos, já agora, antecipar a alegria por aquela pequena luz que se entreviu, que da gruta de Belém começa a irradiar sobre o mundo. No caminho do Advento, que a liturgia nos convidou a viver, fomos acompanhados para acolher com disponibilidade e reconhecimento o grande Acontecimento da vinda do Salvador e a contemplar, maravilhados, a sua entrada no mundo.

A alegre espera, característica dos dias que precedem o Santo Natal, é certamente a atitude fundamental do cristão que deseja viver frutuosamente o renovado encontro com Aquele que vem habitar em meio a nós: Cristo Jesus, o Filho de Deus feito homem. Re-encontremos essa disposição de coração, e a façamos nossa, naqueles que por primeiro acolheram a vinda do Messias: Zacarias e Isabel, os pastores, o povo simples e, especialmente, Maria e José, os quais, em primeira pessoa, experimentaram as adversidades, mas, sobretudo, a alegria pelo mistério deste nascimento. Todo o Antigo Testamento constitui uma única grande promessa, que devia se cumprir com a vinda de um salvador poderoso. Disso nos dá particular testemunho o livro do profeta Isaías, o qual nos fala do percurso da história e de toda a criação na direção de uma redenção destinada a dar novas energias e nova orientação a todo o mundo. Assim, ao lado da expectativa dos personagens das Sagradas Escrituras, encontra espaço e significado, através dos séculos, também a nossa expectativa, aquela que, neste dias, estamos experimentando e que nos mantém despertos ao longo de todo o caminho de nossa vida. Toda a existência humana, de fato, é animada por esse profundo sentimento, pelo desejo de que o que há de mais verdadeiro, de mais belo e maior que entrevimos e intuímos com a mente e o coração possa vir ao nosso encontro e, diante de nossos olhos, possa tornar-se concreto e nos levante.

"Eis que vem o Senhor onipotente: será chamado Emanuel, Deus conosco" (Antífona de entrada, Santa Missa de 21 de dezembro). Frequentemente, nestes dias, repetimos essas palavras. No tempo da liturgia, que reatualiza o Mistério, está às portas Aquele que vem para nos salvar do pecado e da morte, Aquele que, depois da desobediência de Adão e Eva, abraça-nos e abre para nós o acesso à vida verdadeira. Explica-o Santo Irineu, em seu tratado "Contra as heresias", quando afirma: "O Filho mesmo de Deus veio 'em uma carne similar àquela do pecado' (Rm 8,3) para condenar o pecado e, depois de tê-lo condenado, excluí-lo completamente do gênero humano. Chamou o homem à semelhança consigo mesmo, o fez imitador de Deus, colocou-o sobre a estrada indicada pelo Pai para que pudesse ver a Deus, e lhe deu como dom o próprio Pai" (III, 20, 2-3).

Aparecem-nos algumas ideias preferidas de Santo Irineu, como a de que Deus, com o Menino Jesus, chama-nos novamente à semelhança consigo mesmo. Vemos como é Deus. E, assim, recordamo-nos que nós devemos ser semelhantes a Deus. E devemos imitá-lo. Deus se doou, Deus se deu a nossas mãos. Devemos imitar Deus. E, finalmente, a ideia de que, assim, podemos ver Deus. Uma ideia central de Santo Irineu: o homem não vê Deus, não pode vê-lo e, assim, está nas trevas com relação à verdade, com relação a si mesmo. Mas o homem, que não pode ver Deus, pode ver Jesus. E, assim, vê Deus, assim começa a ver a verdade, assim começa a viver.
O Salvador, portanto, vem para reduzir à impotência a obra do mal e tudo aquilo que pode manter-nos distantes de Deus, para restituir-nos ao antigo esplendor e à primitiva paternidade. Com a sua vinda entre nós, Deus indica-nos e dá-nos também uma missão: exatamente aquela de ser semelhantes a Ele e de tender à verdadeira vida, de chegar à visão de Deus no rosto de Cristo. Ainda Santo Irineu afirma: "O Verbo de Deus colocou a sua morada entre os homens e se fez Filho do homem, para acostumar o homem a perceber Deus e para acostumar Deus a colocar sua morada no homem segundo a vontade do Pai. Por isso, Deus nos deu como 'sinal' da nossa salvação aquele que, nascido da Virgem, é o Emanuel" (ibidem). Também aqui há uma ideia central muito bela de Santo Irineu: devemos acostumar-nos a perceber Deus. Deus está normalmente distante da nossa vida, das nossas ideias, do nosso agir. Ele veio ser próximo a nós e devemos habituar-nos a estar com Deus. E, audaciosamente, Irineu ousa dizer que também Deus deve se habituar a estar conosco e em nós. E que Deus, talvez, deveria acompanhar-nos no natal, habituar-nos a Deus, como Deus se deve habituar a nós, à nossa pobreza e fragilidade. A vinda do Senhor, por isso, não pode ter outro propósito senão aquele de ensinar-nos a ver e amar os acontecimentos, o mundo e tudo aquilo que nos circunda, com os olhos próprios de Deus. O Verbo feito criança ajuda-nos a compreender o modo de agir de Deus, a fim de que sejamos capazes de deixar-nos sempre mais transformar pela sua bondade e pela sua infinita misericórdia.

Na noite do mundo, deixemo-nos ainda surpreender e iluminar por esse ato de Deus, que é totalmente inesperado: Deus se faz criança. Deixemo-nos surpreender, iluminar pela Estrela que inundou de alegria o universo. Jesus Menino, chegando a nós, não nos encontre despreparados, empenhados somente em tornar mais bela a realidade exterior. O cuidado que temos para tornar mais brilhantes as nossas estradas e as nossas casas incentive-nos ainda mais a predispor o nosso ânimo para encontrar Aquele que virá para visitar-nos, que é a verdadeira beleza e a verdadeira luz. Purifiquemos, portanto, a nossa consciência e a nossa vida daquilo que é contrário a essa vinda: pensamentos, palavras, atitudes e ações, dispondo-nos a realizar o bem e contribuir para realizar, neste nosso mundo, a paz e a justiça para todo o homem e a caminhar assim ao encontro do Senhor.

Símbolo característico do tempo natalício é o presépio. Também na Praça de São Pedro, segundo o costume, ele está quase pronto e idealmente se mostra à Roma e ao mundo todo, representando a beleza do Mistério do Deus que se fez homem e armou sua tenda em meio a nós (cf. Jo 1,14). O presépio é expressão da nossa expectativa, de que Deus se aproxima de nós, de que Jesus se aproxima de nós, mas é também expressão de dar graças Àquele que decidiu partilhar da nossa condição humana, na pobreza e na simplicidade. Alegro-me porque permanece viva e, também, se redescobre a tradição de preparar o presépio nos lares, nos lugares de trabalho, nos espaços de encontro. Esse genuíno testemunho de fé cristã possa oferecer também hoje, para todos os homens de boa vontade, um sugestivo ícone do amor infinito do Pai por nós todos. Os corações das crianças e dos adultos possam ainda surpreender-se frente a ele.

Queridos irmãos e irmãs, a Virgem Maria e São José ajudem-nos a viver o Mistério do natal com renovada gratidão ao Senhor. Em meio à atividade frenética dos nossos dias, esse tempo dê-nos um pouco de calma e de alegria e nos faça tocar com a mão a bondade do nosso Deus, que se faz Menino para nos salvar e dar nova coragem e nova luz ao nosso caminho. É esse o meu desejo para um santo e feliz Natal: dirijo-o com afeto a vós aqui presentes, aos vossos familiares, em particular aos doentes e aos sofredores, bem como às vossas comunidades e a quantos vos são queridos.

Por: Canção Nova

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Papa dedica catequese de hoje à Santa Verônica Juliani

De: Rádio Vaticano

Bento XVI contempla o presépio da Sala Paulo VI
Bento XVI acolheu na manhã de hoje, quarta-feira, dia da habitual Audiência Geral, vários fiéis e peregrinos na Sala Paulo VI, no Vaticano.


Em sua catequese, o Papa falou sobre Santa Verônica Juliani que nasceu em Mercatello, na Itália, em 26 de dezembro de 1660, caçula de sete irmãs. No batismo recebeu o nome de Úrsula. Três de suas irmãs abraçaram a vida religiosa no convento de Santa Clara em sua cidade natal.

Embora seu pai quisesse que Úrsula se casasse, ela desejou ardentemente desde criança pertencer totalmente a Jesus. Entrou muito jovem no mosteiro das Clarissas Capuchinhas de Castello, recebendo o nome de Verônica.

Não teve uma vida fácil, mas enfrentou todas as provações por amor a Jesus, com total confiança Nele, oferecendo tudo pela Igreja. "Desejava sofrer em união com Cristo pela conversão dos pecadores" - frisou Bento XVI.

Santa Verônica Juliani teve muitas visões e experiências místicas, escritas por ela em seu diário. Uma apoplexia (afecção cerebral) a levou a morte em 9 de julho de 1727. Foi beatificada pelo Papa Pio VII e canonizada por Gregório XVI, em 1839.

Bento XVI fez um resumo de sua catequese em português, saudou os fiéis lusófonos presentes na audiência e concedeu a todos a sua bênção apostólica.

Queridos irmãos e irmãs,


Completam-se nestes dias 350 anos do nascimento de Úrsula Juliani, que, aos 17, entrou no mosteiro das Clarissas Capuchinhas na «Città di Castello». Aqui ficará toda a vida, tomando o nome de Verónica, pelo qual é conhecida: Santa Verónica Juliani. A fonte principal para conhecermos a sua espiritualidade é o Diário: sente-se amada por Cristo, Esposo fiel e sincero, e quer corresponder com todo o amor de que é capaz uma criatura. Revela-se uma testemunha corajosa da beleza e da força do Amor divino, que a atrai, invade e abrasa. É o Amor crucificado que se imprimiu na sua carne – como na de São Francisco de Assis – com os estigmas de Jesus. As últimas palavras de Verónica podem considerar-se a síntese da sua apaixonada experiência mística: «Encontrei o Amor, o Amor deixou-Se contemplar!».


Amados peregrinos de língua portuguesa, a minha cordial saudação de boas-vindas para todos vós. Fortes na fé, possam os vossos corações estar sempre ao serviço dos irmãos por amor de Deus. Sobre vós e vossas famílias, invoco abundantes bênçãos do Céu, sendo a maior e o resumo de todas elas Jesus Cristo, Deus feito homem. A sua presença alegre a vossa vida, como sucedeu com a Virgem Mãe, que O concebeu por obra do Espírito Santo! Feliz Natal!
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