quinta-feira, 17 de março de 2011

Quanto Jesus deseja unir-se conosco na santa Comunhão


Desiderio desideravi hoc Pascha manducare vobiscum, antequam patiar ― «Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes que padeça» (Luc 22, 15).

Sumário. Nenhuma abelha esvoaça com tanta avidez sobre as flores para lhes sorverem o mel, como Jesus vai morar nas almas que o desejam. Eis porque no Evangelho nos convida tantas vezes a que nos aproximemos dele na santa Comunhão. Faz tantas promessas e tantas ameaças, para manifestar o grande desejo que tem de unir-se conosco. Que ingratidão, pois, se não correspondemos a tão grande amor!

I. Jesus Cristo chama hora sua a noite em que devia começar a sua paixão. Mas como é que pode chamar uma hora tão funesta a sua hora? É porque foi a hora por ele almejada em toda a sua vida, visto que havia determinado que naquela noite havia de nos deixar a santa Comunhão, destinada a consumar a sua união com as almas diletas, pelas quais devia em breve dar o sangue e a vida. Eis aqui o que naquela noite Jesus disse a seus discípulos: Desiderio desideravi hoc pascha manducare vobiscum ― «Tenho desejado ansiosamente comer esta Páscoa convosco». Palavra pela qual o Redentor nos quis dar a entender o desejo ansioso que tinha de unir-se conosco neste santíssimo Sacramento de amor: desiderio desideravi ― «desejei ansiosamente»; estas palavras, diz São Lourenço Justiniani, saíram do Coração de Jesus abrasado em imenso amor.

Ora, a mesma chama que então ardia no Coração de Jesus, ainda está ardendo ali até ao presente; e a todos nós renova o convite feito então aos apóstolos de o receberem: Accipite et comedite, hoc est corpus meum (Mt 26, 26) ― «Tomai e comei: isto é o meu corpo». Além disso, para atrair-nos a recebê-lo com amor, promete o paraíso: Qui manducat meam carnem, habet vitam aeternam (Jo 6, 55) ― «Quem como a minha carne, tem a vida eterna». No caso contrário ameaça-nos com a morte eterna: Nisi manducaveritis carnem Filii hominis, non habebitis vitam in vobis (Jo 6, 54) ― «Se não comerdes a carne do Filho do homem, não tereis a vida em vós».

Estes convites, estas promessas, estas ameaças nasceram todas do desejo que tem Jesus Cristo de se unir conosco na santa comunhão, e este desejo nasce do amor que nos tem. «Não há abelha», disse um dia o Senhor a Santa Matilde, «que com tanta avidez esvoace sobre as flores para lhes sorver o mel, como eu anseio entrar nas almas que me desejam». Porque Jesus nos ama, quer ser amado de nós, e porque nos deseja seus, quer ser desejado, como diz São Gregório: Sitit sitiri Deus. Bem-aventurada a alma que se aproxima da mesa da comunhão com grande desejo de se unir a Jesus Cristo!

II. Adorável Jesus meu, não podeis dar-nos maiores provas de amor par anos fazer compreender quanto nos amais. Destes vossa vida por nós; ficastes no Santíssimo Sacramento, para que venhamos aí alimentar-nos de vossa carne, e quão grande desejo tendes que Vos recebamos! Como podemos ser sabedores de tantas finezas de vosso amor, sem ficarmos abrasados no vosso amor? Longe de mim, afetos terrenos, saí de meu coração; vós é que me impedis de arder por Jesus como ele arde por mim. Ó meu Redentor, que outros testemunhos de afeto posso eu ainda esperar, depois dos que me tendes dado? Por meu amor sacrificastes a vossa vida inteira; por meu amor abraçastes uma morte tão amarga e ignominiosa; por meu amor chegastes, por assim dizer, a aniquilar-Vos, reduzindo-Vos na Eucaristia a estado de alimento, para Vos dardes todo a mim. Ah, Senhor! não permitais que eu seja ingrato a tão grande bondade.

Graças vos dou pelo tempo que me concedeis para chorar minhas ingratidões e Vos amar. Arrependo-me, ó soberano Bem, de ter tantas vezes desprezado o vosso amor. Amo-Vos, ó Bondade infinita; amo-Vos, ó Tesouro infinito; amo-Vos, ó Amor infinito, digno de infinito amor. + Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas. Por piedade, ajudai-me, ó meu Jesus, a banir do meu coração todos os afetos que não são para Vós, para que daqui por diante não deseje, não busque e não ame senão a Vós. Meu amado Redentor, fazei com que eu Vos ache sempre e sempre Vos ame. Apoderai-Vos de toda a minha vontade, para que queira somente o vosso beneplácito. Meu Deus, meu Deus, a quem então amarei, se não amo a Vós em quem se encontram todos os bens? Só a Vós quero, e nada mais. ― Ó Maria, minha Mãe, tomai meu coração e enchei-o de perfeito amor a Jesus. (II 406.)

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Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Primeiro: Desde o primeiro Domingo do Advento até Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 308-311.
 
De: São Pio V

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Cardeal Ranjith: Comunhão deve ser recebida de joelhos e na boca

O Cardeal Arcebispo Malcolm Ranjith prefaciou este livro, que a NLM sente-se feliz em apresentar uma tradução não oficial que aqui se segue. (nossos sinceros agradecimentos a um amigo do NLM por ter-nos disponibilizado o link para este prefácio que originalmente foi divulgado pela Associazione Luci sull'Est)

Sem maiores delongas, passemos ao prefácio do Msgr. Ranjith, Secretário Emérito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos:

No Livro do Apocalipse, São João relata como viu e ouviu o que foi a ele revelado e prostrou-se em adoração aos pés do anjo de Deus (cf. Apoc 22, 8). Prostrar-se, ou abaixar-se sobre os próprios joelhos ante a majestade da presença de Deus em humilde adoração, era um hábito de reverência que Israel apresentava constantemente perante o Senhor. É dito no primeiro livro dos Reis, “Quando Salomão acabou de fazer ao Senhor esta prece e esta súplica, levantou-se de diante do altar do Senhor, onde estava ajoelhado com as mãos levantadas para o céu. De pé, abençoou toda a assembléia de Israel” (1 Reis 8, 54-55). A posição de súplica do Rei é clara: Ele estava de joelhos diante do altar.

A mesma tradição é também visível no Novo Testamento onde vemos Pedro cair de joelhos ante a Jesus (cf. Lc 5, 8); quando Jairo pediu a Ele que curasse sua filha (Lc 8, 41), quando o Samaritano retornou para agradecer a Jesus e quando Maria, a irmã de Lázaro, pediu-Lhe pela vida de seu irmão (Jo 11,32). A mesma atitude de prostração diante da revelação da divina presença é amplamente conhecida no Livro do Apocalipse (Apoc. 5, 8, 14 e 19, 4).

Intimamente relacionada a esta tradição era a convicção de que o Templo Sagrado de Jerusalém era o lugar da morada de Deus e, portanto, no templo era necessária a preparação da própria disposição por meio de expressão corporal; um profundo sentido de humildade e reverência na presença do Senhor.

[Continue lendo]

Mesmo na Igreja, a profunda convicção de que nas espécies Eucarísticas o Senhor está verdadeiramente e realmente presente, juntamente com a crescente prática de preservar o Santíssimo Sacramento em tabernáculos, contribuiu para a prática de ajoelhar-se numa atitude de humilde adoração do Senhor na Eucaristia.

[...]

.. fé na Presença Real de Cristo nas espécies Eucarísticas já pertencia a essência da fé da Igreja Católica e era uma parte intrínseca do Catolicismo. Estava claro que não podíamos edificar a Igreja se esta fé fosse minimamente afetada.

Portanto, a Eucaristia, pão transubstanciado em Corpo de Cristo e o vinho em Sangue de Cristo, Deus entre nós, é para ser acolhido com deslumbramento, reverência e uma imensa atitude de humilde adoração. O Papa Bento XVI ... esclarece que “receber a Eucaristia significa colocar-se em atitude de adoração d'Aquele que comungamos. ... somente na adoração pode maturar um acolhimento profundo e verdadeiro."(Sacramentum Caritatis 66).

Seguindo essa tradição, fica claro que se tornou coerente e indispensável tomar ações e atitudes de corpo e espírito que facilitem [entrar em] o silêncio, o recolhimento e a aceitação humilde de nossa miséria face à grandeza e a santidade infinitas Daquele que vem ao nosso encontro sob as espécies Eucarísticas. A melhor forma de expressar nosso senso de reverência para com o Senhor na Missa é seguir o exemplo de Pedro, quem, como nos diz o Evangelho, atirou-se de joelhos ante o Senhor e disse, ”Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador.” (Lc 5, 8)

Atualmente podemos observar que em algumas igrejas essa prática está decrescendo e aqueles responsáveis além de exigirem que os fiéis devam receber a Santíssima Eucaristia de pé, ainda eliminam todos os genuflexórios, forçando os fiéis a se sentarem ou permanecerem de pé, mesmo durante a elevação e adoração das [Sagradas] Espécies. É irônico que tais medidas tenham sido tomadas em [algumas] dioceses por aqueles que são os responsáveis pela liturgia, ou em igrejas, por pastores, sem sequer fazerem uma mínima consulta aos fiéis, a despeito de hoje em dia, muito mais do que antes, haver um ambiente desejoso de democracia na Igreja.

Ao mesmo tempo, acerca da comunhão nas mãos, deve-se reconhecer que a prática foi impropriamente e rapidamente introduzida em algumas dioceses da Igreja logo após o Concílio, mudando aquela antiqüíssima prática, tornando-a uma prática regular em toda a Igreja. Algumas dioceses justificaram a mudança dizendo que ela melhor reflete o Evangelho ou a antiga prática da Igreja... Outras, para justificar essa prática, referem-se às palavras de Jesus: “Tomai e comei.” (Mc 14, 22; Mt 26, 26).

Quaisquer que sejam as razões para esta prática, não podemos ignorar o que está acontecendo no mundo inteiro onde a mesma tem sido implantada. Esse gesto tem contribuído para um gradual enfraquecimento da atitude de reverência para com a sagradas espécies Eucarísticas, enquanto que na prática anterior salvaguardava-se melhor o sentido de reverência. Naquela, ao invés, surgiu uma alarmente ausência de recolhimento e um espírito geral de descaso. Presenciamos pessoas que comungam e com freqüência retornam para os seus assentos como se nada de extraordinário tivesse acontecido... Em muitos casos, não se pode discernir aquele sentido de seriedade e de silêncio interior que deve ser o sinal da presença de Cristo na alma.

Há ainda aqueles que levam as sagradas espécies para tê-las como souvenires, aqueles que vendem, ou ainda pior, que as levam para dessacralizá-las em rituais satânicos. Mesmo em grandes concelebrações, também em Roma, várias vezes as espécies sagradas foram encontradas jogadas no chão.

Essa situação nos leva a refletir não apenas sobre uma séria perda da fé, mas também sobre as ofensas ultrajantes...

O Papa nos fala da necessidade em compreender não apenas o profundo e verdadeiro significado da Eucaristia, mas também em celebrá-la com dignidade e reverência. Ele nos diz que temos que estar conscientes dos “dos gestos e posições, como, por exemplo, ajoelhar-se durante os momentos salientes da Oração Eucarística.” (Sacramentum Caritatis, 65). Falando ainda sobre a recepção da Sagrada Comunhão ele pede a todos para “que façam o possível para que o gesto, na sua simplicidade, corresponda ao seu valor de encontro pessoal com o Senhor Jesus no sacramento.”(Sacramentum Caritatis, 50).

Neste sentido, o livro escrito pelo Bispo Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar de Karaganda no Cazaquistão, intitulado Dominus Est, é significativo e estimado. Ele vem trazer uma contribuição ao debate corrente sobre a presença real e substancial de Cristo na espécies consagradas do pão e do vinho... a partir de sua experiência, que lhe provocou uma profunda fé, deslumbramento e devoção para com o Senhor presente na Eucaristia, ele nos apresenta uma esclarecedora consideração histórico-teológica de como a prática de receber a Sagrada Comunhão na língua e de joelhos foi aceita e praticada na Igreja por um longo período de tempo.

Agora eu penso que é o momento ideal para se rever e reavaliar tão boas práticas e, se necessário, abandonar a prática corrente que não foi exigida nem pela Sacrosanctum Concilium nem pelos Padres da Igreja, mas foi apenas aceita depois de sua introdução ilegítima em algum países. Agora, mais do que nunca, nós temos a obrigação de ajudar os fiéis em desenvolver novamente uma fé profunda na Presença Real de Cristo nas espécies Eucarísticas a fim de que se fortaleça a vida da Igreja e a defenda em meio as perigosas distorções da fé que esta situação continua causando.

As razões para esta mudança não devem ser tão acadêmicas, mas pastoral-espirituais assim como litúrgicas - em resumo, o que melhor edifica a fé. Neste sentido Mons. Schneider apresenta uma coragem louvável por ter sido capaz de apreender o verdadeiro significado das palavras de São Paulo: “que isto se faça de modo a edificar.” (1 Cor 14, 26).

Cardeal MALCOLM RANJITH
Secretário Emérito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos

Fonte: http://cristoreinosso.blogspot.com/

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A Santa Missa Salva Almas


A Santa Missa é o sacrifício de expiação por excelência. É a renovação do Calvário, que salvou o gênero humano. Na Missa colocou a Igreja a memória dos mortos, e isso no momento mais solene, em que a divina Vítima está presente sobre o altar. É a melhor, a mais eficaz, a mais rápida maneira de aliviar e libertar as almas dos nossos queridos mortos.


Certa feita, celebrando a Missa em uma igreja de Roma, São Bernardo caiu em êxtase e viu uma escada que ia da terra ao céu, pela qual os anjos conduziam as almas libertadas do purgatório em virtude do santo sacrifício. Nessa Igreja - Santa Maria Escada do Céu - há um quadro que representa essa visão.

Não há maior socorro às almas, diz Guerranger, que a Santa Missa: A Missa é a esperança e a riqueza das almas.

Podemos duvidar do valor de nossas orações; mas da eficácia do Santo Sacrifício, no qual se oferece o Sangue de Jesus pelas almas, que dúvida podemos ter?

Ao Beato João D'Avila, nos últimos instantes de vida, Perguntaram o que mais desejaria depois da morte. Missas! Missas!

Ao Beato Henrique Suzo apareceu depois da morte um amigo íntimo gemendo de dor e a se queixar: "Ai, já te esqueceste de mim".

- Não, meu amigo, responde Henrique, não cesso de rezar pela tua alma, desde que morreste.

- Ó, mas isto não me basta, não basta! Falta-me para apagar as chamas que me abrasam o Sangue de Jesus Cristo.

Henrique mandou celebrar inúmeras Missas pelo amigo. Este lhe apareceu então já glorificado e lhe diz: "Meu querido amigo, mil vezes agradecido. Graças ao Sangue de Jesus Cristo Salvador, estou livre das chamas expiadoras. Subo ao céu e lá nunca te esquecerei”.

A cada missa, diz São Jerônimo, saem muitas almas do purgatório. E não sofrem tormento algum durante a Missa que lhes é aplicadas.

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São Vicente Ferrer tinha uma irmã frívola e vaidosa. Vindo a falecer, apareceu-Ihe em meio de chamas e sofrendo penas horríveis. "Ai de mim, meu irmão, fui condenada a estes suplícios até o dia do JuIzo. Mas tu poderás ajudar-me. É de grande valia a virtude do santo sacrifício. Oferece por mim trinta missas".

Mais que depressa, pôs-se o santo a celebrá-las. No 30° dia, apareceu-Ihe a irmã cercada de anjos a caminho do céu.

"Graças à valia da Santa Missa ficou reduzida a 30 dias uma expiação que deveria durar séculos".

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Certo homem de negócios juntava a todos os meses o montante de suas despesas a soma necessária para mandar celebrar, todos os dias; missas pelas almas. Eis como dizia ele: - Fui recompensado: Desde que coloquei em minha casa um cofre destinado a estas esmolas, essas almas trabalham por mim.

Depois da Missa... A Comunhão

Não há sufrágio mais poderoso, depois da Santa Missa, para socorrer as almas, que a santa comunhão, diz São Boaventura.

A Eucaristia é um sacramento de descanso e paz para os defuntos, diz Santo Ambrósio. Eco mesmo afirmam S. Cirilo e S. João Crisóstomo. Procuremos fazer boas comunhões lembrando-nos que quanto melhor as fizermos tanto mais aliviaremos os mortos.

E célebre a sentença do Papa Alexandre VI: "Todo que reza, e muito mais ainda quem comunga pelas almas, com o desejo de ajudá-Ias, as obriga a gratidão e remuneração”.

O Papa Paulo V estimulou a prática das comunhões pelas almas padecentes.

O Venerável Luiz Blois tendo feito uma comunhão muito fervorosa por um amigo que sofria no purgatório, recebeu a sua visita, com estas palavras: "Graças, mil graças, meu amigo. Vou contemplar a face de meu Deus para sempre”.

DE: http://www.almasdopurgatorio.com.br/

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Sobre o modo de receber a Sagrada Comunhão

Acabo de ler no Rorate Caeli a carta do reitor da Catedral de Phoenix, Arizona, sobre o modo de receber a Sagrada Comunhão. A intenção do sacerdote é promover, entre seus paroquianos, o modo tradicional de receber a comunhão na boca.



A atual legislação canônica permite que a comunhão seja dada sobre as mãos dos fiéis, observados certos cuidados e afastados os perigos de irreverência ou sacrilégio. Tal permissão não significa que esta forma, que vigorou nos tempos primitivos, seja a mais adequada aos dias atuais. Não por acaso, foi proibida durante séculos, na medida em que surgiram heresias que solapavam a fé, a piedade e a reverência.

Minha geração aprendeu nos seminários que o modo antiquado se tornara moderno e que expressaria mais adequadamente a emergência de uma fé "adulta". Comungar de pé e nas mãos tornou-se sinônimo de "tomada de consciência" e "engajamento"; enquanto a forma tradicional, de joelhos e na boca, passou a ser tolerada para as velhinhas que se aproximam meio sem saber bem o que fazem. Nalguns lugares, a recepção de joelhos foi sendo dificultada, noutros proibida (sic!).

Nós, padres da minha geração, aprendemos e ensinamos durante anos que a forma antiquada devia ser promovida, até que o Papa Bento XVI, com seu magistério do exemplo, levou-nos a questionar velhos e novos "dogmas". Em suas missas, distribui exclusivamente a Sagrada Comunhão na boca aos fiéis ajoelhados; os demais ministros distribuem-na exclusivamente na boca aos fiéis de pé.

Há razões teológicas e pastorais para agir assim. Encíclicas sobre a Santíssima Eucaristia não são suficientes para promover a fé e a piedade. Quantos de nossos fiéis as leem? Homilias, palestras, estudos, todos falam aos ouvidos - e é verdade que a "fé vem pelo ouvido" - mas não somos somente ouvido. A moderna psicologia não despreza nossa capacidade de apreensão e expressão através dos demais sentidos, como parece fazer nossa moderna pastoral.

Santo Agostinho ensina que "Nemo autem illam carnem manducat, nisi prius adoraverit" ou, em linguagem vulgar, que ninguém coma desta carne sem antes adorá-la. Qual das formas expressa, do ponto de vista litúrgico, mais adequadamente a adoração devida à carne do Senhor? Somente uma mente muito afetada pela ideologia poderia negar que a posição de joelhos e a comunhão recebida na boca seja a resposta justa.

Conhecemos bem os argumentos contrários. Vão das razões de higiene ao clássico axioma: o importante é o coração. Pois bem, então que acabemos com todos os signos litúrgicos e nos tornemos de vez protestantes, reduzindo o culto a palavrório e musiquinhas sentimentaloides. Aliás, bem anti-higiênica a lama que Nosso Senhor fez com saliva para ungir os olhos do cego de nascença, mandando-o em seguida lavar-se na piscina de Siloé (Jo 9,6-7), e quão desnecessária para Aquele que conhece o íntimo dos corações, não é mesmo?

Há quem cite, sem conhecer seu profundo significado, as palavras de Nosso Senhor sobre os "verdadeiros adoradores". Aqui não cabe uma exegese sobre as palavras em questão, nem sou eu o mais indicado para fazê-la. A Santa Igreja, intérprete autêntica das Escrituras, nunca entendeu tais palavras como desprezo, censura ou proibição dos sinais litúrgicos. Pelo contrário, a Encarnação do Verbo, suas palavras e atitudes e a dimensão sacramental da fé cristã são a prova mais eloquente da "corporeidade" de nosso culto espiritual.

Na minha nova paróquia, como nas anteriores, pouquíssimas pessoas recebem a Sagrada Comunhão nas mãos. Faz algum tempo, introduzi também um genuflexório na fila em que distribuo a Sagrada Comunhão, deixando os fiéis à vontade para se ajoelharem. Qual a minha surpresa com o grande número dos fiéis que optaram por receber assim o Corpo do Senhor! Sobretudo entre os jovens, a prática parece conquistar sempre mais adeptos. Preservei, evidentemente, os direitos daqueles poucos que preferem a comunhão nas mãos, salvaguardados os princípios dogmáticos e afastado o perigo de profanação.

Estranhamente os mesmos que defendem os "sagrados" direitos dos leigos parecem se opor a que se lhes dê esta opção. Na verdade, se é direito deles receber a comunhão de joelhos, não fornecer os meios, dificultar ou impedir a prática são um abuso de poder por parte dos sacerdotes. Nunca antes se viu tanto clericalismo nas fileiras sacerdotais, e qualquer fiel "adulto", "consciente" e "engajado" que não costuma se resignar às arbitrariedades de seus pastores sabe como ele se manifesta disfarçadamente, sob a capa do pastoralismo.

Sei que minha prática pastoral desagrada a "gregos e baianos". Uns consideram um retrocesso a comunhão de joelhos, outros um abuso a comunhão nas mãos. Faço o que faz, manda ou permite a Santa Igreja. Mudarei o que ela mudar, quando ela mudar. Aos incomodados, meus votos de boa viagem!

Obs.: A Comissão "Ecclesia Dei", em resposta a um consulente de Munique, esclareceu que "(...) a celebração da Santa Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano prevê a recepção da Comunhão de joelhos, na qual a Sagrada Hóstia é colocada diretamente sobre a língua do fiel comungante". O indulto, portanto, não se estende à Missa Tradicional.

Por: Rorate Caeli
Via: OBLATVS
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