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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Carta do Prelado

Caríssimos: que Jesus guarde as minhas filhas e os meus filhos!

Ao mencionarmos o mês de agosto, vem-nos espontaneamente à cabeça o tesouro da nossa Mãe, porque Ela é o tipo da Igreja. Recorramos a Nossa Senhora, muito particularmente nestas semanas, para que Ela nos obtenha da Trindade uma vida limpa, que facilite a nossa relação com a Verdade em tudo e para tudo, que nos torne mulheres e homens de alma – insisto – limpa, mais leais a Deus; e assim seremos mais Igreja, mais Opus Dei.

Escrevo-vos da terra brasileira, já terminada a Jornada Mundial da Juventude. Foram dias de grande intensidade espiritual, em que estivemos muito próximos do Santo Padre e na companhia dos Bispos, sacerdotes e dos milhões de fiéis que foram ao Rio de Janeiro. Acheguei-me ao Senhor com a vossa oração e com o vosso trabalho para que os frutos espirituais e também os humanos estejam presentes abundantemente em nós e nas pessoas com quem nos relacionamos: oxalá a semente de Deus, que o Espírito Santo espalhou em tantos corações, amadureça para o bem da Igreja e do mundo inteiro.

O mês passado foi pródigo em dons divinos. Começou com a apresentação da encíclica Lumen fidei, com a qual o Papa Francisco completou a trilogia sobre as virtudes teologais iniciada por Bento XVI. Convido-vos a meditá-la pausadamente, para que a nossa inteligência se encha de luzes e a nossa vontade de moções, a fim de que nos comprometamos com mais ardor com a nova evangelização.

No dia 5, data em que a encíclica foi publicada, também se deu a conhecer a aprovação pontifícia do milagre atribuído à intercessão de D. Álvaro, que abre as portas para a sua beatificação, e também do milagre que permitirá a canonização de João Paulo II. Encheu-me de alegria a singular coincidência destes dois atos pontifícios na mesma data, que vejo como manifestação da sintonia espiritual que existiu entre aquele grande Pontífice e o meu queridíssimo predecessor à frente da Obra.

Na encíclica, o Papa recorda que a fé em Jesus Cristo e em tudo aquilo que Ele nos revelou permanece intacta desde os tempos apostólicos. Como isto é possível? Como podemos estar seguros de que chegaremos ao “verdadeiro Jesus” através dos séculos? [1]. A resposta a esta pergunta, formulada por muitos dos nossos contemporâneos, reduz-se, com total fundamento, a uma só: por meio da Igreja. A Igreja, como toda a família, transmite aos seus filhos o conteúdo da sua memória. Como fazê-lo de maneira que nada se perca e, pelo contrário, tudo se aprofunde cada vez mais no patrimônio da fé? Mediante a tradição apostólica, conservada na Igreja com a assistência do Espírito Santo [2].

Essa transmissão da Igreja, sempre atual, está contida principalmente nos Símbolos e também em outros documentos do Magistério que expõem a doutrina da fé; por isso, ao longo destes meses, estamos esforçando-nos por aprofundar no Credo, ajudados pelo Catecismo da Igreja Católica e pelo seu Compêndio, felizes de que a nossa fé também brilhe na vida dos santos ao longo do ano litúrgico. O milagre atribuído à intercessão do queridíssimo D. Álvaro oferece-nos outro acicate para pormos em prática o espírito do Opus Dei, velho como o Evangelho, e como o Evangelho, novo [3]: a busca da santificação na vida corrente, mensagem que Deus confiou a São Josemaria para que o plasmasse na sua alma e na de muitas outras pessoas. Assim que a notícia se tornou pública, sugeri-vos que nos adentrássemos mais na resposta santa de D. Álvaro: na sua fidelidade a Deus, à Igreja e ao Romano Pontífice, na sua plena identificação com o espírito da Obra recebido de São Josemaria, que ele continuou a transmitir-nos em toda a sua integridade.

E agora detenho-me em outra das notas características da Igreja: a santidade. Para ajudar-nos a regozijar-nos com esta realidade, Bento XVI assinalava que ao longo deste ano «será decisivo voltarmos a percorrer a história da nossa fé, que contempla o mistério insondável do entrelaçamento da santidade com o pecado» [4]. A reflexão sobre a santidade da Igreja – manifestada na sua doutrina, nas suas instituições, em tantos filhos e filhas seus ao longo da história – mover-nos-á a uma profunda ação de graças ao Deus três vezes Santo, fonte de toda a santidade, a saber que estamos inseridos na manifestação de amor da Trindade por nós. Como recorremos a cada Pessoa divina? Sentimos a necessidade de amá-las diferenciando-as?

Ao expor a natureza da Igreja, o Concílio Vaticano II destacou três aspectos nos quais o seu mistério se exprime com maior propriedade: o Povo de Deus, o Corpo místico de Cristo, o Templo do Espírito Santo; e o Catecismo da Igreja Católica desenvolve-os amplamente [5]. Em um deles reverbera a nota da santidade, que, como as outras notas, distingue a Igreja de qualquer agrupamento humano.

A denominação Povo de Deus remete ao Antigo Testamento. Javé escolheu Israel como o seu povo peculiar, como anúncio e antecipação do Povo de Deus definitivo que Jesus Cristo ia estabelecer por meio do sacrifício da Cruz. Vós sois uma raça escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa, um povo adquirido para Deus, a fim de que publiqueis as virtudes daquele que das trevas vos chamou à sua luz maravilhosa [6]. Gens Sancta, povo santo, composto por criaturas com misérias. Esta aparente contradição marca um aspecto do mistério da Igreja. A Igreja, que é divina, é também humana, porque está formada por homens e nós, os homens, temos defeitos: omnes homines terra et cinis (Ecclo 17, 31),todos somos pó e cinza [7].

Esta realidade tem de mover-nos à contrição, à dor de amor, à reparação, mas nunca ao desalento ou ao pessimismo. Não esqueçamos que o próprio Jesus comparou a Igreja a um campo em que crescem juntos o trigo e o joio; a uma rede de arrasto que apanha peixes bons e peixes maus e que, os quais, só no final dos tempos serão separados definitivamente uns dos outros [8]. Ao mesmo tempo, consideremos que já agora, na terra, o bem é maior que o mal, a graça é mais forte que o pecado, embora às vezes a sua ação seja menos visível. Mas acontece que a santidade pessoal de tantos fiéis – dantes e de agora – não é uma coisa aparatosa. É frequente que não a descubramos nas pessoas normais, correntes e santas, que trabalham e convivem no meio de nós. Para um olhar terreno, o pecado e as faltas de fidelidade ressaltam mais; chamam mais a atenção [9]. O Senhor quer que nós, suas filhas e seus filhos no Opus Dei, e muitos outros cristãos, recordemos a todos os homens e mulheres que receberam essa vocação para a santidade e hão de esforçar-se por corresponder à graça e ser pessoalmente santos [10].

A Igreja é o Corpo místico de Cristo. «Durante o decurso dos tempos, o Senhor Jesus forma a sua Igreja por meio dos sacramentos, que emanam da sua plenitude. Através destes meios, a Igreja faz os seus membros participarem do mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo pela graça do Espírito Santo, que a vivifica e a move» [11].

A Igreja «é, assim, santa, embora abarque no seu seio pecadores, porque não goza de mais vida que a da graça; certamente, os seus membros alimentam-se desta vida, santificam-se; se se afastam, contraem pecados e manchas da alma que impedem que a santidade da Igreja se difunda radiante […]. A Igreja aflige-se e faz penitência por aqueles pecados, e tem o poder de livrar deles por meio do sangue de Cristo e do dom do Espírito Santo» [12].

Antes de mais nada, o corpo remete-nos a uma realidade viva. A Igreja não é uma associação assistencial, cultural ou política, mas é um corpo vivente, que caminha e age na história. E este corpo tem uma cabeça, Jesus, que o guia, o nutre e o sustenta […]. Da mesma forma que num corpo é importante que circule a linfa vital para que viva, assim devemos permitir que Jesus aja em nós, que a sua Palavra nos guie, que a sua presença eucarística nos nutra, nos anime; que o seu amor dê força ao nosso amor ao próximo. E isto sempre! Sempre, sempre! Caros irmãos e irmãs – insistia o Santo Padre –, permaneçamos unidos a Jesus, fixemo-nos nEle, orientemos a nossa vida de acordo com o seu Evangelho, alimentemo-nos com a oração diária, com a escuta da Palavra de Deus, com a participação nos sacramentos [13].

É evidente que o corpo humano se compõe de uma diversidade de órgãos e de membros, cada um com a sua função própria sob o governo da cabeça, para o bem de todo o organismo. Por isso, na Igreja, por vontade de Deus, existe uma variedade, uma diversidade de tarefas e de funções; não existe a uniformidade plana, mas a riqueza dos dons que o Espírito Santo distribui. Mas existe a comunhão e a unidade: todos estão em relação uns com os outros e todos concorrem para formar um único corpo vital, profundamente unido a Cristo [14]. Esta união com Cristo, Cabeça invisível da Igreja, tem de manifestar-se necessariamente na forte união com a Cabeça visível, o Romano Pontífice, e com os Bispos em comunhão com a Sé Apostólica. Como fez São Josemaria, rezemos todos os dias pela unidade de todos na Igreja santa.

Desde há muito tempo, se diz que, no seio do Corpo místico de Cristo, o Paráclito cumpre a função da alma no corpo humano: dá-lhe vida, conserva-o na unidade, torna possível o seu desenvolvimento até alcançar a perfeição que Deus Pai lhe atribuiu. A Igreja não é um entrançado de coisas e de interesses, mas é o Templo do Espírito Santo, o Templo em que Deus age, o Templo em que cada um de nós, com o dom do Batismo, é pedra viva. Isto diz-nos que ninguém é inútil na Igreja […]. Ninguém é secundário [15].

Como membros do mesmo Corpo místico, nós, cristãos, podemos e devemos ajudar-nos uns aos outros a atingir a santidade, por meio da Comunhão dos santos, que confessamos no Símbolo apostólico. Além de exprimir a que todos os fiéis participam das magnalia Dei, das riquezas de Deus (a fé, os sacramentos, os diversos dons espirituais), «a expressão “Comunhão dos santos” também designa a comunhão entre as pessoas santas (sancti), isto é, entre aqueles que, pela graça, estão unidos a Cristo morto e ressuscitado» [16]: os santos do Paraíso, as almas que se purificam no Purgatório, aqueles que, ainda na terra, travam as batalhas da luta interior. Formamos uma só família, a família dos filhos de Deus, para louvor da Santíssima Trindade: com que inteireza cuidamos dela?

São Josemaria cumulava-se de consolo ao meditar esta verdade de fé, que faz com que nenhum batizado possa sentir-se só: nem na sua luta espiritual, nem nas suas dificuldades materiais. Vemos esta segurança em Caminho: Comunhão dos Santos. – Como dizer-te? – Sabes o que são as transfusões de sangue para o corpo? Pois assim vem a ser a Comunhão dos Santos para a alma [17]. Pouco depois, acrescentou: Terás mais facilidade em cumprir o teu dever, se pensares na ajuda que te prestam os teus irmãos e na que deixas de prestar-lhes se não és fiel [18].

Filhas e filhos meus, enchamo-nos sempre de muito ânimo. Ainda que possamos sofrer um tropeço, ainda que por vezes nos sintamos fracos e sem forças na luta espiritual, sempre é possível, com a graça de Deus, retomarmos o caminho rumo à santidade. Estamos rodeados de uma multidão de santos, de pessoas fiéis ao Senhor que começam e recomeçam constantemente na sua vida interior.

Por outro lado, basta-nos erguer os olhos para o Céu. E a esta certeza também nos convida a grande solenidade que celebraremos no dia 15: a Assunção da Santíssima Virgem. Firmados na intercessão de Jesus Cristo, que roga a Deus Pai constantemente por todos nós [19], como é grande o consolo, como é pleno o amparo que a contemplação da nossa Mãe nos traz, sempre empenhada na salvação dos cristãos e de todos os homens! Na Santíssima Virgem, a Igreja já chegou à perfeição, em virtude da qual não tem mancha nem ruga [20]. Nós, todos os fiéis, ainda nos esforçamos por vencer nesta nobre tarefa da santidade, afastando-nos inteiramente do pecado; e por isso levantamos os olhos para Maria, que resplandece como modelo de virtudes para toda a comunidade dos eleitos [21]. Assim, recorramos a Ela em todas as vicissitudes da Igreja e nas pessoais de cada um de nós. Mãe! – Chama-a bem alto, bem alto. – Ela, tua Mãe Santa Maria, te escuta, te vê em perigo talvez, e te oferece, com a graça de seu Filho, o consolo de seu regaço, a ternura de suas carícias. E te encontrarás reconfortado para a nova luta [22].

Que este clamor de oração suba ao Céu com muita força, a partir da terra inteira, ao renovarmos a consagração do Opus Dei ao Coração dulcíssimo e imaculado de Maria no próximo dia 15. Unidos fortemente na oração, peçamos à bondade divina todas as graças de que o mundo, a Igreja e cada um de nós necessitamos.

Com todo o afeto, abençoa-vos

o vosso Padre

+ Javier

Sítio da Aroeira, 1º de agosto de 2013.

sábado, 21 de maio de 2011

O Brasil se prepara à Beatificação do Anjo Bom da Bahia

No próximo domingo, 5º da Páscoa, a Igreja no Brasil terá a grande alegria de ver subir às honras dos altares, como Beata ou Bem-Aventurada, aquela que já em vida foi cognominada o “anjo bom da Bahia” – a Irmã Dulce –, amiga e companheira dos pobres e desvalidos. Seu itinerário de santidade, no qual a Igreja reconhece as suas virtudes heróicas, é um caminho marcado humana e naturalmente por incompreensões de tantos, mas que, sobrenaturalmente, foi capaz de tocar os corações endurecidos, para que na meiguice de quem pedia não se deixasse faltar o essencial aos mais pobres, ensinando a todos a partilhar, mesmo o pouco que tinham.A data coincide com a Memória de Santa Rita que, como cai no domingo, neste ano não é celebrada, mas nos mostra também outra mulher forte que em outra época e situação viveu a fé e é sinal até hoje da providência de Deus em sua vida.


Em nossa mudança cultural, a mídia utilizou o termo “beata” de uma maneira imprópria e, em nosso linguajar comum, acabamos acolhendo esse tipo de interpretação que, inclusive, está em nossos dicionários. Cabe a nós restaurarmos o verdadeiro uso da palavra e valorizá-la. Muitos vocábulos importantes já foram deturpados em nossa língua. Que a Beata Irmã Dulce interceda por nós para que consigamos anunciar o Evangelho e levar as pessoas a fazer da nossa cultura uma cultura de valores humanos e cristãos que ajudem a transformar esta situação de violência, corrupção, medo, destruição e divisão que ora ocorre.

A constituição pastoral Lumen gentium do Concílio Ecumênico Vaticano II recorda, em seu quinto capítulo, a vocação universal à santidade, ou seja, ser santo é o caminho que todo aquele que renasce pela água do batismo deve percorrer. O Beato João Paulo II, quando em sua visita ao Brasil, disse que o Brasil precisava de Santos. Eles existem, não é a Igreja que os “fabrica”, mas apenas constata com um processo minucioso a vida e as virtudes daqueles e daquelas que o povo já tem em conta de “santos”. E vai muito mais além, para a beatificação e canonização supõe também um milagre por intercessão e da invocação do nome de quem pedimos a Deus. Milagre esse comprovado por médicos e cientistas, demonstrando que não tem outra explicação que não seja uma intervenção especial. Quando professamos a nossa fé, pronunciamos que acreditamos na Igreja Santa, ou seja, a santidade é uma nota teológica na Igreja, mesmo sabendo que, embora santa, ela possui em seu seio membros pecadores que são continuamente chamados à conversão.

Temos uma beata muito perto de nós, uma brasileira como nós, que escolhendo radicalmente a Cristo, percebeu, no quotidiano de sua missão, a singular presença que Ele manifestava naqueles que não tinham nome, nem muitas vezes propriamente um rosto para a sociedade. Acredito que em nossas comunidades existam muitas outras pessoas, homens e mulheres, jovens e adultos, crianças e idosos, leigos e consagrados, que viveram uma vida heróica e poderiam ser colocados como exemplos de vida para todos nós.

O Beato João Paulo II nos recordou que “santo é aquele que faz de modo extraordinário, as coisas ordinárias”; nesse contexto, sem dúvida, pode ser inserida a vida daquela que dentro em breve, por sua santidade, não será simplesmente o anjo bom da Bahia, mas o anjo bom do Brasil.

Ir. Dulce fez, de modo extraordinário, aquilo que cada cristão deve fazer ordinariamente, ou seja, no cotidiano, no dia a dia: exercer a caridade, fazer-se oferta pelo outro, ver no outro a presença do Cristo Ressuscitado, sobretudo daqueles que mais sofrem e que estão à margem, dando-lhes a certeza de que possuem sua dignidade e que Deus lhes manifestará com predileção o seu amor, pois vem em socorro dos que são pobres e oprimidos.

Tirar o pobre da sua mais profunda miséria dos bens materiais, daquele mais básico, da fome, foi aquilo que fez o “anjo bom do Brasil”, sem que tivesse, entretanto, bens matérias, nunca deixou de acreditar na Providência Divina, que jamais lhe faltou, pois nela confiava, e quando a ela rogava tudo lhe chegava, mesmo o pouco, pois mesmo isso, diante de Deus é muito, nunca acumulando, mas partilhando e fazendo multiplicar para salvar a fome de tantos.

A razão principal de sua ação foi justamente o seu encontro com Jesus, o Cristo Senhor Ressuscitado, que deu sentido a toda a sua vida e trabalho. O segredo de uma vida doada aos irmãos tem sempre como centro o Cristo. Aberta à ação do Espírito Santo, a nossa querida Ir. Dulce deixou-se conduzir pelos caminhos da fraternidade e, mesmo em dificuldades econômicas extremas, demonstrou a providência de Deus atuando e agindo. Neste tempo de tantos questionamentos sobre os valores cristãos, a sua vida é uma demonstração daquilo que um cristão, com a graça de Deus, consegue amenizar da pobreza e da dor humana. A Igreja, através de seus santos e santos, dá uma resposta ao mundo de como a vida de santidade e a busca de Deus, seguindo a Cristo e vivendo a Sua Palavra, não só transforma os corações, mas faz da pessoa um sinal de paz e de vida para os seus irmãos e irmãs. E tudo isso é dom, é graça do Senhor.

Preocupar-se com os que estão à margem e comprometer-se com a necessidade de mudança, em um país como o nosso, com tantas dádivas de Deus, não poderíamos ter pessoas que passam fome se houvesse uma justiça mais distributiva, que nasce da capacidade de por em comum os bens que a todos pertencem. Se uma pobre como a Irmã Dulce pôde fazer tantas coisas para tantos, como não poderia ser diferente o nosso país se todos tivessem a mesma disponibilidade de pensar no seu irmão com responsabilidade, e assim multiplicar os dons que Deus nos concede.

Cuidar do pobre e do faminto, como fazia a Irmã Dulce, não é um convivente para que nesse estado de miséria esses se mantenham, é conduzi-los à sua dignidade de Filhos de Deus, dando-lhes a certeza de que os bens desse mundo são transitórios, efêmeros, e que não é da vontade Dele que homens e mulheres morram de fome, não tenham onde morar.

Sabemos que a ação social para as pessoas necessitadas precisa resolver com urgência a fome, e por isso parece como se fosse apenas assistencialista, mas sabemos que esse primeiro passo leva à formação e questiona a transformação social, econômica e política. A consciência dos cristãos leva-os a se comprometerem com o “mundo novo”, onde reine a presença de Deus que conduz à paz e à vida em plenitude. Os que questionam a assistência aos pobres também não aceitam quando reclamamos das injustiças e da necessária mudança social. Os Santos e Santas fazem tudo isso com uma vida de simplicidade e virtudes, sendo sinal de contradição para o seu tempo.

A Igreja do Rio de Janeiro se une à Igreja Mãe de São Salvador da Bahia na ação de graças pela beatificação da mulher que cuidou dos mais pobres. Cumprimento Excelentíssimo Senhor Arcebispo, Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, SCJ, e o Legado Pontifício, Sua Eminência Geraldo Majela, Cardeal da Santa Igreja Romana, Agnelo, pela alegria eclesial que proporcionam ao povo da Bahia e do Brasil pela santidade da fidelidade e do serviço da religiosa elevada às glórias dos altares.

Que interceda por nós o “anjo bom do Brasil”, a bem-aventurada Irmã Dulce, para que todos, desde os mais simples até os mais importantes, que em verdade deveriam estar à testa para servir, sejam capazes de aprender a partilhar, a fazer de modo extraordinário, o ordinário de repartir o pão com os necessitados.

Beata Irmã Dulce, interceda por nós!

† Orani João Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

Fonte: RV

sábado, 30 de abril de 2011

Hino ao Beato João Paulo II


Abri as portas a Cristo, não tenhais medo, escancarai vosso coração ao Amor de Deus


1. Testemunha da Esperança
para quem espera a salvação
Peregrino por amor
sobre as estradas do mundo.

2. Verdadeiro Pai para os jovens
Que enviaste pelo mundo,
sentinelas da manhã,
sinal vivo de esperança.

3. Testemunhas da Fé
que anunciastes com a vida,
firme e forte na prova
confirmou os teus irmãos.

4. Ensinaste para cada homem
a beleza da vida
indicando a família
como um sinal de amor. 

5. Portador da Paz
e arauto da justiça,
feitas entre as pessoas
núncio da misericórdia.

6. Na dor revelou
o poder da Cruz.
Dirija sempre os seus irmãos
pelas estradas do amor. 

7. Na Mãe do Senhor
indicaste-nos uma guia,
na sua intercessão
o poder da graça. 

8. Pai de misericórdia,
Filho, nosso Redentor,
Santo Espírito de Amor
a ti, Trindade, seja a glória. Amen.

Fonte: Livreto da Beatificação de João Paulo II

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

João Paulo II será beatificado em 1º de maio


O Papa João Paulo II será beatificado em 1º de maio de 2011. A data foi oficializada na manhã desta sexta-feira, 14, com a assinatura do decreto de beatificação pelo Papa Bento XVI, que recebeu em audiência o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal Angelo Amato.

A cura da religiosa francesa Marie Simon-Pierre Normand do Mal de Parkinson foi o milagre reconhecido para a Beatificação.

O Rito de Beatificação será presidido pelo próprio Santo Padre, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, no II Domingo da Páscoa - conhecido como da Divina Misericórdia, Festa litúrgica instituída pelo próprio João Paulo II.

"A sua vida e o seu Pontificado foram percorridos pelo desejo de dar a conhecer ao mundo todo [...] a consoladora e entusiasmante grandeza da misericórdia de Deus", afirma o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, padre Federico Lombardi.

De acordo com padre Lombardi, a urna com os restos mortais do Papa polonês será transferida das Grutas Vaticanas para o altar da Capela de São Sebastião, na Basílica de São Pedro. No translado, ela não será aberta - logo, não será uma exumação.

Ainda não foi decidida a data em que será celebrada a memória litúrgica do Beato João Paulo II. Esse dia será estabelecido pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos após a Beatificação.

Karol Wojtyla - nome de batismo de João Paulo II - foi o 264º Pontífice da Igreja Católica, o primeiro de origem eslava. Ele faleceu em 2 de abril de 2005, após mais de 25 anos como Sucessor de São Pedro.

De acordo com o Cardeal Angelo Amato, a Causa de João Paulo II teve dois aspectos facilitadores.

"O primeiro diz respeito à dispensa pontifícia da espera de cinco anos para o seu início. Já a segunda foi a passagem para um tribunal especial, que não a colocou em lista de espera. No entanto, no que diz respeito ao rigor e zelo processual, não foram dados privilégios. A Causa foi tratada como as outras, seguindo todos os passos previstos pela legislação da Congregação", disse.

Na lista, figuram também os nomes de outros candidatos à honra dos altares através do próximo passo, que é o reconhecimento de mais um milagre para a canonização.

Processo de beatificação



- 28/04/2005 - Bento XVI concedeu dispensa do tempo de cinco anos de espera para o início da Causa de Beatificação e Canonização de João Paulo II. A causa foi aberta oficialmente em 28 de junho pelo vigário-geral para a Diocese de Roma, Cardeal Camillo Ruini.

O Vaticano explica que a dispensa pontifícia dos cinco anos de espera entre a morte do candidato a santo e o início da Causa aconteceu devido à "imponente fama de santidade de que gozava João Paulo II em vida, na morte e depois da morte";

- 2/04/2007 - dois anos após a morte, na Basílica de São João de latrão, em Roma, o Cardeal Camillo Ruini declarou concluída a primeira fase diocesana do processo de beatificação de João Paulo II, confiando os resultados à Congregação para as Causas dos Santos. Isso acontece através de uma cerimônia jurídico-processual durante a qual são lidas, em latim, as palavras para a passagem dos documentos, compostos por 130 testemunhos a favor e contra a beatificação, além da conclusão de teólogos e historiadores a respeito;

- 1º/04/2009 - os relatos de possíveis milagres pela intercessão do Papa polonês sob avaliação da Congregação para as Causas dos Santos somam mais de 250;

- 19/12/2009 - com um decreto assinado pelo Papa Bento XVI, são reconhecidas as virtudes heroicas e Wojtyla é proclamado venerável;

- 21/10/2010 - uma Comissão Médica da Congregação para as Causas dos Santos recebe os Atos da Investigação Canônica, bem como os detalhes das perícias médico-legais, para exame científico. Os peritos, após estudar com o habitual cuidado os testemunhos processuais e toda a documentação, expressam-se favoravelmente quanto à inexplicabilidade científica da cura;

- 14/12/2010 - os Consultores teólogos, após terem acesso às conclusões médicas, procedem à avaliação teológica do caso e, unanimemente, reconhecem a unicidade, antecedência e caráter coral da invocação destinada ao Servo de Deus João Paulo II, cuja intercessão foi eficaz para a cura prodigiosa;

- 11/01/2011 - a Sessão Ordinária dos Cardeais e dos Bispos da Congregação para as Causas dos Santos emite unanimemente uma sentença afirmativa sobre a cura milagrosa da Irmã Marie Simon Pierre, como realizada por Deus de modo cientificamente inexplicável, após intercessão do Sumo Pontífice João Paulo II, confiadamente invocado tanto pela curada quanto por muitos outros fiéis.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

"Santo Subito". João Paulo II será beatificado.


Por: Andrea Tornieli, em Il Giornale


 João Paulo II será beatificado em 2011, talvez antes mesmo do verão. Nas últimas semanas, a consulta médica da Congregação para as Causas dos Santos se diz favorável sobre o milagre atribuído à intercessão do Papa Wojtyla - a cura de uma freira francesa do mal de Parkinson - e da documentação nos últimos dias, passou também a discussão dos teólogos. Antes de chegar à mesa de Bento XVI, agora só precisava de uma mão livre no Cardeais e Bispos membros da Congregação, que recebeu o dossiê sobre o milagre. Colegiadamente os mesmos se reunirão para analisar e expressar o seu voto, em meados de janeiro.

Como você pode recordar, o decreto sobre as virtudes heróicas de Karol Wojtyla, que marca o fim do processo, foi promulgado pelo Papa Ratzinger, em 19 de dezembro de 2009, depois de votar por unanimidade a favor dos cardeais e bispos. O defensor da causa de beatificação, monsenhor Slawomir Oder, tinha apresentado um suposto milagre à congregação, um dos muitos relatórios recebidos através da intercessão de João Paulo II, compilado após a sua morte.

É, como todos sabem, a cura da irmã Marie Simon-Pierre, freira francesa de 44 anos, afetada por uma forma agressiva da doença de Parkinson. A doença que a obrigou a deixar o seu serviço na maternidade de um hospital em Arles, desapareceu instantaneamente e inexplicável após as outras freiras, em junho de 2005 com a morte Wojtyla recentemente, pedindo um milagre de cura. Durante meses, no entanto, a consulta médica, presidida pelo Professor Patrizio Poliscar, médico pessoal do Papa Bento XVI - chamada para discutir o caso e se pronunciar sobre a cura eficaz é impossível explicar a partir do ponto de vista científico. Um dos especialistas envolvidos manifestou perplexidade com o diagnóstico inicial dos colegas franceses e quis verificar se a religiosa realmente havia se curado, tiendo sido afetada pela doença. Caso contrário, ele teria tido em consideração outros alegados milagres. Agora, após as investigações tomaram todo o tempo, o parecer da consulta médica tenha sido favorável.

Alguns tinham lido o atraso dos últimos meses como um "político" para retardar o processo de beatificação, obviamente, isso não era verdade. Em qualquer caso, nem nunca disse que, nas discussões e votações que acompanharam o processo, perguntas sobre a santidade pessoal de João Paulo II.

A reunião de médicos e de teólogos que deu rédea solta ocorreu antes do final de 2010, com a maior confidencialidade. Após a votação sobre as virtudes heróicas de Wojtyla foi-lhe atribuído o título de "venerável", e agora a consulta médica sobre o milagre (Positio super olhar), prevê-se que também à última reunião de cardeais e bispos aprovará a decisão nos próximos dias. Se isso acontecer, significa que o Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal Angelo Amato, dirija-se ao Papa, para aprovação, e apresentar-lhe-á o milagre.

Desde então, a beatificação de João Paulo II será apenas uma questão de tempo. Teoricamente, ainda é possível o sexto aniversário da morte de 02 de abril de 2011, ou uma data em maio. Ou, em outubro, o aniversário da eleição para o papado. A cerimônia de beatificação de Wojtyla será um problema significativo organizacional, dado o número de pessoas que poderiam ir naquele dia a Roma. E, portanto, também isso será tido em conta quando se escolhe-lo.

Durante o funeral do papa polonês, realizado pelo então cardeal Joseph Ratzinger, tinha sido implantado em bandeiras Praça São Pedro com as palavras "Santo Subito". Um pedido de abertura do processo foi assinado pelos cardeais no conclave do período, e que era também a hipótese de se proceder imediatamente com a canonização, proclamando realmente Wojtyla "Santo Subito "em vez de abençoado. Bento XVI, após avaliação de cada proposta, decidiu em junho de 2005 iniciar o processo de imediato - sem esperar os cinco anos, desde que deve transcorrer desde a morte do candidato para o altar - mas sem atalhos.

Fonte: La Buhardilla de Jerónimo

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Papa aprova uma canonização e quinze beatificações

Bento XVI aprovou hoje os decretos de reconhecimento dos milagres, martírio e virtudes heroicas de um beato e 15 servos de Deus, após uma audiência concedida ao prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, cardeal Angelo Amato.


Entre eles, estão a portuguesa Maria Clara do Menino Jesus (1843-1899) e a brasileira Irmã Dulce (1914-1992). Também foi aprovado o martírio de um sacerdote alemão que morreu em Dachau, assim como as virtudes heroicas de um religioso melquita libanês.

Milagres:

- Beato Guido Maria Conforti, italiano, nascido em Ravadese (1865) e falecido em Parma (1931), arcebispo de Parma e fundador da Pia Sociedade de São Francisco Xavier para as Missões Estrangeiras.

- Servo de Deus Francesco Paleari, italiano, nascido em Pogliano Milanese (1863) e falecido em Turim (1939), sacerdote do Instituto Cottolengo.

- Serva de Deus Ana María Janer Anglarill, espanhola, nascida em Cervera (1800) e falecida em Talarn (1885), fundadora do Instituto das Irmãs da Sagrada Família de Urgell.

- Serva de Deus Maria Clara do Menino Jesus (Libânia do Carmo Galvão Meixa De Moura Telles e Albuquerque), portuguesa, nascida em Amadora (1843) e falecida em Lisboa (1899), fundadora da Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição.

- Serva de Deus Dulce (Maria Rita Lopes Pontes), brasileira, nascida e falecida em São Salvador da Bahia (1914-1992), irmã professa da Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus.

Martírio:

- Servo de Deus Alois Andritzki, alemão, nascido em Radibor (1914) e falecido no campo de concentração de Dachau (1943), sacerdote diocesano.

- Servos de Deus José Nadal y Guiu, espanhol, nascido em Bell-lloc (1911), e José Jordão y Blecua, espanhol, nascido em Azlor (1906), falecidos em Monzon, durante a perseguição religiosa (1936), sacerdotes diocesanos.

- Servo de Deus Antonio (Miguel Faúndez López), espanhol, nascido em La Hiniesta (1907), e Buenaventura (Baltasar Mariano Martínez Muñoz), espanhol, nascido em Santa Cruz (1912), sacerdote e clérigo, respectivamente, da Ordem dos Frades Menores, além de Pedro Sanchez Barba, espanhol, nascido em Llano de Brujas (1895) e Fulgencio Martínez García, espanhol, nascido em Ribera de Molina (1911), ambos párocos, sacerdotes da Ordem Terceira Secular de São Francisco de Assis, falecidos todos em Múrcia durante a perseguição religiosa de 1936;

Virtudes heroicas:

- Servo de Deus Antonio Palladino, italiano, nascido e falecido em Cerignola (1881-1926), sacerdote diocesano e fundador da Congregação das Irmãs Dominicanas do Santíssimo Sacramento.

- Servo de Deus Béchara ( Selim Abou-Mourad), libanês, nascido em Zahlé (1853) e falecido em Saïda (1930), sacerdote da Ordem Basiliana do Santíssimo Salvador dos Melquitas.

- Serva de Deus Maria Elisa Andreoli, italiana, nascida em Agugliaro (1861) e falecida em Rovigo (1935), fundadora da Congregação das Servas de Maria Reparadoras.

- Serva de Deus María Pilar del Sagrado Corazón (María Pilar Solsona Lambán), espanhola, nascida em Zaragoza (1881) e falecida em Logroño (1966), religiosa professa do Instituto das Filhas de Maria Religiosas das Escolas Pias.

sábado, 25 de setembro de 2010

Jovem falecida em 1990 será beatificada neste sábado

Num dia em que jogava tênis, quando tinha 17 anos, Chiara Badano (1971-1990) começou a sentir dores muito fortes. Era o início da doença que meses depois a levaria à morte. “Por ti, Jesus, se o queres, eu também quero!”, eram as palavras que repetia durante sua morte.


Chiara pertencia ao Movimento dos Focolares, fundado na Itália por Chiara Lubich, em 1943. Será beatificada neste sábado às 16h, no santuário do Divino Amor, em Roma, em uma cerimônia presidida por Dom Angelo Amato, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, em representação do Papa Bento XVI.

No mesmo dia, às 20h30, milhares de membros dos Focolares se reunirão na Sala Paulo VI, no Vaticano, para festejar a chegada aos altares da primeira de seus membros. No domingo, às 10h30, o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado vaticano, presidirá a uma missa em ação de graças na Basílica de São Paulo Fora dos Muros.

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domingo, 19 de setembro de 2010

Newman, filho de Maria


Intervenção do Papa ao rezar o Ângelus


Apresentamos, a seguir, as palavras que Bento XVI dirigiu neste domingo, antes de rezar a oração mariana do Ângelus, ao concluir a Celebração Eucarística de beatificação do cardeal John Henry Newman (1801-1890), em Birmingham.

* * *

Irmãos e irmãs em Jesus Cristo:

Desejo enviar minha saudação ao povo de Sevilha, onde ontem foi beatificada a Madre Maria da Puríssima da Cruz. Que a beata Maria inspire os jovens a seguir seu exemplo de amor incondicional a Deus e ao próximo.

Quando o beato John Henry Newman veio morar em Birmingham, deu o nome de "Maryvale" à sua primeira casa neste lugar. O Oratório que ele fundou está dedicado à Imaculada Conceição da Santíssima Virgem. E ele também confiou a Maria, Sedes Sapientiae, a Universidade Católica da Irlanda. De muitas maneiras, viveu seu ministério sacerdotal com um espírito de devoção filial à Mãe de Deus.

Meditando sobre seu papel no desenvolvimento do plano de Deus para a nossa salvação, chegou a exclamar: "Quem pode valorizar a santidade e a perfeição d'Aquela que foi escolhida para ser a Mãe de Cristo? Que dons deve ter tido Aquela que foi escolhida para ser o único familiar mais próximo na terra do Filho de Deus, a única a quem Ele estava obrigado por natureza a venerar e admirar, a escolhida para guiá-lo e educá-lo, para instruí-lo cada dia, à medida que crescia em sabedoria e idade?" (Parochial and Plain Sermons, II, 131-2).

Porque foi agraciada copiosamente, nós a veneramos; e, pela intimidade com seu Filho divino, buscamos logicamente sua intercessão em nossas próprias necessidades e nas do mundo inteiro. Agora, nós nos dirigimos à nossa Mãe Santíssima com as palavras do Anjo e lhe confiamos as intenções que temos em nosso coração.

[Tradução: Aline Banchieri.
© Copyright 2010 - Libreria Editrice Vaticana]

Fonte: Zenit

Missa de Beatificação do Cardeal Newman

A Igreja ganha um novo Beato!

Homilia na beatificação de John Henry Newman

“O coração fala ao coração”


Apresentamos, a seguir, a homilia que Bento XVI pronunciou hoje, ao presidir, no Wimblendon Park de Birmingham, a Celebração Eucarística de beatificação de John Henry Newman (1801-1890), cardeal e fundador dos oratórios de São Felipe Néri, na Inglaterra.

* * *
Queridos irmãos e irmãs em Cristo:

Estamos aqui em Birmingham em um dia realmente feliz. Em primeiro lugar, porque é o dia do Senhor, o domingo, dia em que o Senhor Jesus Cristo ressuscitou dos mortos e transformou para sempre o curso da história humana, oferecendo vida e esperança a todos os que vivem na escuridão e nas sombras da morte. É a razão pela qual os cristãos do mundo inteiro se reúnem neste dia para louvar e dar graças a Deus pelas maravilhas que Ele fez por nós. Este domingo, em particular, representa também um momento significativo na vida da nação britânica, ao ser o dia escolhido para comemorar o 70º aniversário da Batalha da Inglaterra. Para mim, que estive entre os que viveram e sofreram os escuros dias do regime nazista na Alemanha, é profundamente comovente estar conosco nesta ocasião e poder recordar a tantos concidadãos vossos que sacrificaram suas vidas, resistindo com garra às forças desta ideologia demoníaca. Penso em particular na vizinha Coventry, que sofreu duríssimos bombardeios, com numerosas vítimas, em novembro de 1940. Setenta anos depois, recordamos com vergonha e horror o espantoso preço da morte e destruição que a guerra traz consigo; e renovamos nossa determinação de trabalhar pela paz e pela reconciliação, onde quer que ameace um conflito. Mas existe outra razão, mais alegre, pela qual este dia é especial para a Grã-Bretanha, para o centro da Inglaterra, para Birmingham. Este é o dia em que formalmente o cardeal John Henry Newman foi elevado aos altares e declarado beato.

Agradeço ao arcebispo Bernard Longley por seu cordial acolhimento ao começar a Missa nesta manhã. Agradeço a todos os que trabalharam tão duramente durante tantos anos na promoção da causa do cardeal Newman, incluindo os padres do Oratório de Birmingham e os membros da Família Espiritual Das Werk. E saúdo todos vós, que viestes de diferentes lugares da Grã-Bretanha, Irlanda e outros pontos mais distantes; obrigado pela vossa presença nesta celebração, na qual louvamos e damos glória a Deus pelas virtudes heroicas deste santo inglês.

A Inglaterra tem uma longa tradição de santos mártires, cujo valente testemunho sustentou e inspirou a comunidade católica local durante séculos. É justo e conveniente reconhecer hoje a santidade de um confessor, um filho desta nação que, ainda que não tenha sido chamado a derramar o sangue pelo Senhor, jamais se cansou de dar um testemunho eloquente d'Ele ao longo de uma vida entregue ao ministério sacerdotal, especialmente a pregar, lecionar e escrever. É digno de fazer parte da longa fila de santos e eruditos destas ilhas: São Beda, Santa Hilda, São Aelred, o beato Duns Scot, por nomear apenas alguns. No beato John Newman, esta tradição de delicada erudição, profunda sabedoria humana e amor intenso pelo Senhor deu grandes frutos, como sinal da presença constante do Espírito Santo no coração do povo de Deus, suscitando copiosos dons de santidade.

O lema do cardeal Newman, cor ad cor loquitur, "o coração fala ao coração", oferece-nos a perspectiva da sua compreensão da vida cristã como um chamado à santidade, experimentada como o desejo profundo do coração humano de entrar em comunhão íntima com o coração de Deus. Recorda-nos que a fidelidade à oração vai nos transformando gradualmente em semelhança de Deus. Como escreveu em um dos seus muitos e belos sermões, "o hábito da oração, a prática de buscar Deus e o mundo invisível em cada momento, em cada lugar, em cada emergência... digo-vos que a oração tem o que se pode chamar de efeito natural na alma, espiritualizando-a e elevando-a. Um homem já não é o que era antes; gradualmente (...) se vê imbuído de uma série de ideias novas e se vê impregnado de princípios diferentes" (Sermões Paroquiais e Comuns, IV, 230-231). O Evangelho de hoje afirma que ninguém pode servir a dois senhores (cf. Lc 16, 13), e o Beato John Henry, em seus ensinamentos sobre a oração, esclarece como o fiel cristão toma partido por servir seu único e verdadeiro Mestre, que pede só para si nossa devoção incondicional (cf. Mt 23, 10). Newman nos ajuda a entender em que consiste isso para a nossa vida cotidiana: ele nos diz que nosso divino Mestre confiou uma tarefa específica a cada um de nós, um "serviço concreto", confiado de maneira única a cada pessoa concreta: "Tenho minha missão - escreve -, sou um elo na corrente, um vínculo de união entre pessoas. Ele não me criou para o nada. Farei o bem, farei seu trabalho; serei um anjo de paz, um pregador da verdade no lugar que me é próprio. (...) Se o fizer, eu me manterei em seus mandamentos e O servirei nas minhas tarefas" (Meditação e Devoção, 301-2).

O serviço concreto ao qual o beato John Henry foi chamado incluía a aplicação entusiasta da sua inteligência e sua prolífica caneta a muitas das mais urgentes "questões do dia". Suas intuições sobre a relação entre fé e razão, sobre o lugar vital da religião revelada na sociedade civilizada e sobre a necessidade de uma educação esmerada e ampla foram de grande importância, não somente para a Inglaterra vitoriana. Hoje também continuam inspirando e iluminando muitos no mundo inteiro. Eu gostaria de prestar uma homenagem especial à sua visão da educação, que fez tanto por formar o ethos, que é a força motriz das escolas e faculdades católicas atuais. Firmemente contrário a qualquer enfoque reducionista ou utilitarista, buscou condições educativas nas quais pudesse se unificar o esforço intelectual, a disciplina moral e o compromisso religioso. O projeto de fundar uma universidade católica na Irlanda lhe ofereceu a oportunidade de desenvolver suas ideias a respeito disso; e a coleção de discursos que publicou, com o título "A ideia de uma universidade" sustenta um ideal mediante o qual todos os que estão envolvidos na formação acadêmica podem continuar aprendendo. Mais ainda, que melhor meta podem ter os professores de religião que o famoso convite do beato John Henry sobre leigos inteligentes e bem formados? "Quero um laicado que não seja arrogante nem imprudente na hora de falar, nem alvorotado, mas homens que conheçam bem sua religião, que aprofundem nela, que saibam bem onde estão, que saibam o que têm e o que não têm; que conheçam seu credo a tal ponto, que possam prestar contas dele; que conheçam tão bem a história, que possam defendê-la" (A Posição Atual dos Católicos na Inglaterra, IX, 390). Hoje, quando o autor destas palavras foi elevado aos altares, peço que, por meio da sua intercessão e exemplo, todos os que trabalham no campo da educação e da catequese se inspirem com maior ardor na visão tão clara que ele nos deixou.

Ainda que a extensa produção literária sobre sua vida e obras prestou compreensivelmente maior atenção ao legado intelectual de John Henry Newman, nesta ocasião prefiro concluir com uma breve reflexão sobre sua vida sacerdotal, como pastor de almas. Sua visão do ministério pastoral sob o prisma do afeto e da humanidade está expresso de maneira maravilhosa em outro dos seus famosos sermões: "Se vossos sacerdotes fossem anjos, meus irmãos, eles não poderiam compartilhar convosco a dor, sintonizar convosco, não poderiam ter compaixão de vós, sentir ternura por vós e ser indulgentes convosco, como nós podemos; eles não poderiam ser nem modelos nem guias, e não teriam te levado do teu homem velho à vida nova, como eles, que vêm do nosso meio" (Homens, não anjos: os sacerdotes do Evangelho: discursos às congregações mistas, 3). Ele viveu profundamente esta visão tão humana do ministério sacerdotal, em seus desvelos pastorais pelo povo de Birmingham, durante os anos dedicados ao Oratório que ele mesmo fundou, visitando os doentes e os pobres, consolando os tristes ou atendendo os presos. Não é de surpreender que, ao morrer, milhares de pessoas se aglomeravam nas ruas enquanto seu corpo era transladado ao lugar da sua sepultura, a não mais que meia milha daqui; 120 anos depois, uma grande multidão se reuniu novamente para celebrar o reconhecimento eclesial solene da excepcional santidade deste pai de almas tão amado. Que melhor maneira de expressar nossa alegria deste momento que dirigindo-nos ao nosso Pai do céu com gratidão sincera, rezando com as mesmas palavras que o beato John Henry Newman colocou nos lábios do coro celestial dos anjos?

Praise to the Holiest in the height
And in the depth be praise;
In all his words most wonderful,
Most sure in all his ways!

("Seja louvado o Santíssimo no céu,
seja louvado no abismo;
em todas as suas palavras, o mais maravilhoso,
o mais seguro em todos os seus caminhos")

("O sonho de Gerontius")
[Tradução: Aline Banchieri.
© Libreria Editrice Vaticana]

Fonte: Zenit

sábado, 18 de setembro de 2010

A cura de um juiz permitirá beatificação do Cardeal Newman

Um dos quatro diáconos que participarão da Missa de beatificação do Cardeal John Henry Newman em Birmingham, evento central da visita do Papa Bento XVI a Reino Unido, é John Sullivan, um juiz americano de 71 anos de idade que inexplicavelmente superou uma grave doença de coluna por intercessão do futuro beato.


Andrea Ambrosi, postulador da causa de canonização do Cardeal Newman, relatou o milagre no L’Osservatore Romano notando que o fato ocorreu "não na Europa, onde Newman era mais conhecido, mas ser nos Estados Unidos onde está a maior quantidade de seus devotos. O segundo motivo de interesse está em que o protagonista é um juiz, um magistrado do tribunal distrital de Plymouth, uma pessoa habituada a verificar as verificações".

O terceiro motivo, assinala Ambrosi, "consiste no fato de que um dos mais convencidos do milagre foi o mesmo cirurgião" que atendeu Sullivan, "Robert Banco, chefe do departamento de coluna vertebral do New England Baptist hospital de Boston, um dos mais prestigiosos médicos de cirurgia ortopédica nos Estados Unidos".

A história do milagre

Em junho do ano 2000, John Sullivan começou a sofrer dores nas pernas que não o permitiam caminhar. O médico explicou a ele, com uma radiografia na mão, que algumas vértebras lombares estavam aprofundadas e bloqueavam uma área crítica do canal espinhal tocando a medula e os nervos femorais. Esta condição crônica o impedia de caminhar e ele sugeriu consultar um neurologista.

Essa mesma noite, relata Ambrosi, Sullivan viu um programa na televisão sobre a vida e obra do Cardeal Newman, que era até esse momento desconhecido. "Foi tocado por aquela extraordinária figura e começou a rezar a ele com ardor, confiando-lhe seus sofrimentos. A manhã seguinte se sentiu melhor, para voltar a caminhar".

Depois de consultar a dois neurologistas que confirmaram a doença, este diácono chegou até o doutor Robert Banco, considerado o melhor cirurgião de Boston. Em maio de 2001 a dor era insuportável e caminhava muito mal. Este médico lhe disse que era momento de operá-lo pelo qual Sullivan intensificou suas orações ao Cardeal Newman.

Depois de apenas seis dias de uma complicada operação, Sullivan foi capaz de caminhar ajudado de um fortificação. Sullivan tinha implorado ao Newman: "por favor cardeal me ajude a caminhar, me ajude a seguir meu caminho".

Evidentemente, prossegue Ambrosi, esta fervorosa oração encontrou no Cardeal uma resposta imediata. "Sullivan se levantou, começou a caminhar, não teve mais dores e não teve necessidade de submeter-se a terapia alguma. Em setembro retomou sua vida normal, dedicando-se ao ensino.

No dia 2 de outubro fez uma visita de controle. O doutor Banco se surpreendeu ao encontrá-lo perfeitamente curado logo depois de uma operação deste tipo, e ao vê-lo novamente e 100 por cento curado em fevereiro de 2002, quando afirmou "jamais ter visto uma cura tão veloz nem completa, inexplicável desde o ponto de vista científico".

Fonte: Aci digital

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Por que Bento XVI presidirá à beatificação de Newman?

Fonte: Zenit

Pela primeira vez, Bento XVI presidirá a uma cerimônia de beatificação. Será no dia 19 de setembro, com a chegada aos altares do cardeal John Henry Newman, no Hyde Park, em Londres.

A última vez que um papa presidiu a uma cerimônia deste tipo foi a 3 de outubro de 2004, quando João Paulo II beatificou na praça de São Pedro Pierre Vigne, Joseph-Marie Cassant, Anna Katharina Emmerick, Maria Ludovica de Angelis e Carlos de Áustria.

Desde o começo de seu pontificado, Bento XVI estabeleceu que as cerimônias deste tipo deveriam se fazer nas dioceses de origem de cada beato. O Papa ordenou que fossem presididas pelo prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, em sua representação.

O padre Federico Lombardi SJ, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, em um encontro com os jornalistas na sexta-feira, explicou que a beatificação do cardeal Newman se trata de uma excepção. “Esta cerimônia está muito unida à viagem do Papa ao Reino Unido”, disse.


Bento XVI sente um apreço especial pela figura do cardeal Newman. Em 1990, escreveu o prólogo do livro Apologia pro vita sua, uma autobiografia do futuro beato. O então cardeal Ratzinger confessava no texto a importância do pensamento de Newman durante seus estudos de filosofia no seminário de Freising.

“Nossa imagem do ser humano, assim como nossa imagem da Igreja, ficava penetrada por este ponto de partida”, disse o hoje Papa Bento XVI.


"De Newman aprendemos a compreender o primado do Papa", assegurou. “Liberdade de consciência”, nos dizia Newman, não equivale a ter direito “a prescindir da consciência, a ignorar o legislador e juiz, a ser independente de obrigações invisíveis”.

Por isso, esta beatificação é “um sinal particular de apreço, de interesse e importância que o Papa atribui a esta figura”, disse padre Lombardi.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O cardeal Newman e a busca da verdade


Fonte: Zenit

Entrevista a Cristina Siccardi, biógrafa do futuro beato


Depois de viajar cinco horas debaixo de chuva, a 8 de outubro de 1845, o sacerdote passionista Domenico Barberi encontrou-se com o então pastor anglicano John Henry Newman (Londres, 1801- Birmingham, 1890), que lhe pediu que o acolhesse nos braços da Igreja católica, depois de décadas de busca na teologia e filosofia.


O cardeal Ratzinger, em 1990, escreveu, a propósito do centenário da morte de Newman: “foi sua consciência que o conduziu dos antigos laços e das antigas certezas para o difícil e estranho mundo do catolicismo”.

E será agora o Papa Bento XVI que o beatificará em Coventry, centro da Grã-Bretanha, no dia 19 de setembro, durante sua viagem à Inglaterra.

Sobre a vida e inquietações de Newman, em que sempre estiveram entrelaçadas fé e razão, ZENIT entrevistou a escritora italiana Cristina Siccardi, autora do livro Nello specchio del cardinale Newman (No espelho do Cardeal Newman, 2010, editora Fede e cultura), cuja publicação na Itália será nos próximos dias. Cristina escreve para vários meios de comunicação católicos da Itália.

É autora, entre outros livros, de La ‘bambina’ di padre Pio (Rita Montella, 2003), Santa Rita da Cascia e il suo tempo, 2004; Paolo VI. Il papa della luce, 2008.

ZENIT: Como foi a infância de Newman?

Cristina Siccardi: John Henry Newman era o primogênito dos seis filhos do casal John Newman e Jemina Fourdrinier. Nasceu em Londres e foi batizado na Igreja anglicana de Saint Bennet Fink.

Seu pai, um homem empreendedor, foi subindo de posição social até se converter em banqueiro. Mas depois de vários anos de êxito, veio a derrocada. Foi o próprio John Henry que teve de manter toda a sua família quando frequentou a Universidade de Oxford.

“Fui educado durante minha infância para ter o grande prazer de ler a Bíblia, mas não tive sólidas convicções religiosas até os 15 anos”. Assim Newman abriu o segundo parágrafo da obra-prima intitulada Apologia pro vita. História de suas convicções religiosas, que escreveu em 1864 para combater quem, à raiz de sua conversão, havia-o atacado ferozmente.

Um dia, na ermida de Littlemore, onde se converteu, encontrou e folheou um velho caderno seu de escola. Na primeira página encontrou maravilhado um emblema que lhe cortou a respiração: tinha desenhado a figura de uma cruz robusta e, atrás, uma figura que representava um rosário com uma pequena cruz unida a este. Naquele momento tinha só dez anos. Estas imagens não teriam por que terem sido desenhadas a lápis por Newman, devido à aversão que os protestantes têm às imagens sagradas.

ZENIT: Por que chamavam tanto a atenção dele os Padres da Igreja?

Cristina Siccardi: Quando ainda era anglicano, em 1826, Newman decidiu estudar com um método sistemático os Padres da Igreja, e nasceu assim um grande amor por eles. Em primeiro lugar, examinou-os com a ótica protestante, mas depois, em 1835 e 1839, retomou o estudo com uma ótica mais parecida com a do catolicismo.

Em uma carta a seu amigo Pusey, disse: “Não me envergonho de basear-me nos Padres, e não penso em de forma alguma me afastar deles. A história de seus tempos não é para mim um almanaque velho. Os Padres me fizeram católico e eu não pretendo me afastar da escada pela qual subi para entrar na Igreja”.

Os Padres foram para Newman seu grande amor, neles encontrou a resposta às persistentes perguntas religiosas e de fé que o torturaram durante 44 anos, até que, a 9 de outubro de 1945, foi acolhido na Igreja católica pelo padre Domenico Barberi, passionista italiano que foi beatificado por Paulo VI em 1963.

ZENIT: Conte-nos mais sobre a conversão dele para o catolicismo...

Cristina Siccardi: Esta chegou através de um cansativo percurso intelectual e espiritual. Sua biografia identifica-se com a elaboração do pensamento e com o empenho da alma. John Henry Newman está situado entre os grandes pensadores, filósofos e teólogos da história da humanidade. Sua bibliografia, que se têm edificado no mundo no transcurso dos 120 anos desde sua morte, é enorme.
Com espírito de explorador, atento e escrupuloso pesquisou o interminável nó de caminhos que é o protestantismo. Primeiro como calvinista e depois como anglicano, para depois chegar com alegria à Igreja de Pedro, como pôde experimentar também outro convertido excepcional: Santo Agostinho. Newman comportou-se como o capitão que governa seu navio de guerra com destreza e competência e, sem trégua alguma, alcançou com grande humildade, e sobretudo com zelo, a meta desejada.

ZENIT: Que seus amigos disseram quando ele deu este passo?

Cristina Siccardi: Newman, apesar de dar uma especial importância ao valor da amizade e aos laços profissionais, quando viu e compreendeu a verdade e onde estava, não se preocupou com mais nada nem ninguém e abandonou tudo e todos, assim como fizeram os apóstolos. Seus amigos anglicanos compreenderam que tinham perdido um grande homem: alguns lamentaram, outros o julgaram ferozmente, outros, em contrapartida, o apoiaram.

O elogio mais belo, a nosso parecer, que lhe deram em vida, foi a carta que Edward Pusey enviou a um amigo: “Deus está ainda conosco e nos permitirá seguir adiante, apesar desta grande perda. Não devemos esconder sua importância, porque foi a maior perda que tivemos. Quem o conheceu sabe bem dos seus méritos. Nossa igreja não soube se beneficiar. Era como se uma espada afiada dormisse em sua bainha porque ninguém sabia empunhá-la. Era um homem predestinado a ser um grande instrumento divino, capaz de realizar um amplo projeto que restabelecesse a Igreja. Foi-se – como todos os grandes instrumentos de Deus – inconsciente de sua própria grandeza. Foi-se para cumprir um simples ato de dever, sem pensar em si mesmo, abandonando-se completamente nas mãos do Altíssimo. Assim são os homens em quem Deus confia. Poder-se-ia dizer que se transferiu para outra área da vinha, onde pode utilizar todas as energias de sua poderosa mente”.

ZENIT: Ele recebeu muitos ataques da parte da Igreja anglicana e dos intelectuais da época?

Cecila Siccardi: Certamente da Igreja anglicana, dos intelectuais protestantes e também da própria Igreja católica. Os primeiros o consideravam um traidor, os segundos, alguém de quem se deve desconfiar. Também alguns católicos na Irlanda estiveram contra: ele foi removido do cargo de reitor da Universidade de Dublin. John Henry Newman escreveu a Apologia pro vita justamente para se defender dos ataques dos intelectuais. Este livro engendrou muitas conversões. Recordemos que o Papa Leão XIII afastou muitos rumores maliciosos, quando concedeu a Newman o barrete cardinalício.

ZENIT: Em uma sociedade onde reina o relativismo moral e intelectual, que nos diz a beatificação de Newman?

Cristina Siccardi: O cardeal Newman combateu sincera e lealmente o liberalismo, trazendo, com seu método sistemático e analítico, um dos perfis mais reais daquela Europa em fase de corrupção, de abandono da civilização cristã e de agonizante apostasia. Conseguiu identificar as conotações de secularização e relativismo de nossos dias, fruto da presunção que já os gregos pagãos, depositários de verdadeiras sementes do Verbo, definiam ύβρις (übris = a arrogância de quem não se submete aos deuses), ou o que é o mesmo, a ideia de antepor os lugares comuns supostamente racionais da própria época à razoabilidade e racionalidade da Tradição.

Newman, quem, como disse o cardeal Ratzinger em 1990, “pertence aos grandes doutores da Igreja”, esse grande cavalheiro do século XIX inglês, alcançou a Verdade quando tinha 44 anos, depois de décadas de estudo e aprofundamento. Com valentia, forçou sua própria mente para entender, indagar, sondar os meandros da história, da filosofia, teologia e descobrir finalmente a pedra preciosa. Foi assim que “vi meu rosto naquele espelho: era o rosto de um monofisista, o rosto de um herege anglicano e o descobri quase com terror”.

O epitáfio na tumba do futuro beato Newman, cuja vida é a prova mais evidente e concreta de que a razão pode se unir à fé para trazer à terra a Igreja de Jesus Cristo, a única verdade que leva à salvação eterna. Crer na verdade e ser livre: “Se permanecerdes em minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos tornará livres” (Jo 8, 31-32). John Henry Newman é o modelo que a Igreja, sob o pontificado de Bento XVI, propõe aos cristãos e aos católicos para seguir: é a resposta claríssima do Papa ao mundo relativista.
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