domingo, 20 de janeiro de 2013

O Concílio Vaticano II: 50 anos depois (IV)

4. Uma promessa cumprida
Qual é, então, o significado do concílio como conjunto dos documentos produzidos, Dei Verbum, Lumen Gentium, Gaudium et Spes, Nostra Aetate, etc.? Vamos deixá-los todos de lado e esperar tudo do Espírito? A resposta está contida na frase com que Agostinho resume a relação entre a lei e a graça: "A lei foi dada para buscarmos a graça, e a graça foi dada para observarmos a lei"[21]. O Espírito não dispensa o valor da letra, ou seja, os decretos, o Vaticano II. Ao contrário, é ele quem nos leva a estudá-los e a colocá-los em prática. E, de fato, fora do ambiente acadêmico, onde são objeto de discussão e de estudo, é nas realidades da Igreja mencionadas acima que eles são tidos de fato em maior consideração.

Eu mesmo experimentei isto. Eu me livrei de preconceitos contra judeus e protestantes, acumulados durante os anos de formação, não pela leitura da Nostra Aetate, mas por ter feito também, à minha humilde maneira e graças a alguns irmãos, a experiência do novo Pentecostes. Depois eu senti a necessidade de reler a Nostra Aetate, como reli ainda a Dei Verbum após o Espírito incutir em mim um novo amor pela palavra de Deus e pela evangelização. O movimento, entretanto, pode acontecer nas duas direções: alguns, para usar a linguagem de Agostinho, são incentivados a partir da letra para buscar o Espírito, e outros são movidos pelo Espírito a observar a letra.

O poeta Thomas S. Eliot compôs versos que podem nos iluminar quanto ao significado das celebrações do 50º aniversário do Concílio Vaticano II:

"Não devemos nos deter em nossa exploração,

E o fim do nosso explorar

Será chegar ao ponto donde partimos

E conhecer o lugar pela primeira vez" [22].

Depois de muitas explorações e controvérsias, somos levados de volta para o lugar onde começamos: no caso, o concílio. Mas todos os trabalhos em torno dele não foram em vão, porque, no sentido mais profundo, só agora somos capazes de "conhecer o lugar pela primeira vez", de avaliar o seu verdadeiro significado, desconhecido para os Padres do concílio.

Isso nos permite dizer que a árvore crescida do concílio é coerente com a semente da qual nasceu. De onde nasceu o evento do concílio Vaticano II? As palavras com que João XXIII descreve a emoção que acompanhou "o súbito florescimento em seu coração e em seus lábios da simples palavra concílio"[23] sugerem os sinais de uma inspiração profética. Ao encerrar a primeira sessão, ele falou do concílio como “um novo e desejado Pentecoste, que há de enriquecer a Igreja com abundância de energias espirituais”[24].

Depois de 50 anos, não podemos deixar de constatar o cumprimento da promessa feita por Deus à Igreja, pela boca de seu humilde servo, o beato João XXIII. Se nos parecer exagerado falar de um novo Pentecostes, diante de todos os problemas e conflitos que surgiram na Igreja depois e por causa do concílio, o que temos a fazer é reler os Atos dos Apóstolos e observar que os problemas e disputas já ocorreram após o primeiro Pentecostes. E não menos acalorados que os de hoje!

[Tradução Equipe ZENIT]

[1] Cf. Il Concilio Vaticano II. Recezione e attualità alla luce del Giubileo (O Concílio Vaticano II. Recepção e atualidade á luz do Jubileu), aos cuidados de R. Fisichella, Ed. San Paolo 2000.

[2] João XXIII, Discurso de abertura do Concílio, n. 6,5 (Os textos do Concílio são tirados da versão que se encontra no site oficial do Vaticano).

[3] Paolo VI, Enc. Ecclesiam suam, 52; cf. também Insegnamenti di Paolo VI, vol. IX (1971), p. 318.

[4] João Paolo II, Audiência Geral do 1 Agosto 1979.

[5] J.H. Newman, Lo sviluppo della dottrina cristiana, (O progresso da doutrina cristã), Bolonha, Il Mulino 1967, pp.46 s.

[6] Gregorio Magno, Commento a Giobbe (Comentário a Jó) XX,1 (CC 143 A, p. 1003).

[7] S. Ireneo, Contra as heresias III, 24,1.

[8] Ch. Péguy, Le Porche du mystère de la deuxième vertu, La Pléiade, Paris 1975, pp. 588 s. (trad. ital. di M. Cassola, Milano 1978, pp. 60-62).

Ces paroles prononcées vivantes dans le temps ».

[9] Tomas de Aquino, Summa theologiae, I-IIae, q. 106, a. 2.

[10] Ibid., q. 106, a. 1; cf já Agostinho, De Spiritu et littera, 21, 36.

[11] Joao Paulo II, Carta apostólica A Concilio Constantinopolitano I, 25 março 1981, in AAS 73 (1981) 515-527.

[12] I. Ker, Newman, the Councils, and Vatican II, in “Communio”. International Catholic Review, 2001, págs. 708-728.

[13] Newman, op. cit. p.46.

[14] Exemplo ainda mais claro aconteceu no concílio ecumênico de Éfeso, em 431, com a definição de Maria como Theotokos, Mãe de Deus. O concílio queria unicamente afirmar a unidade de pessoa de Cristo. No entanto, deu imenso impulso ao crescimento da devoção mariana e à construção das primeiras basílicas dedicadas a ela. A unidade de pessoa de Cristo foi definida depois, em outro contexto e com mais equilíbrio, no concílio de Calcedônia, em 451.

[15] Cf H.G. Gadamer, Wahrheit und Methode, Tübingen 1960.

[16] Novo millennio ineunte, 42.

[17] I. Ker, art. cit. p.727.

[18] João Paulo II, Novo millennio ineunte,46.

[19] Cf. discurso na vigília de Pentecostes em 2006.

[20] Card. L.-J. Suenens, Memories and Hopes, Dublin, Veritas 1992, pág. 267.

[21] Agostinho, De Spiritu et littera ,19,34.

[22] T.S. Eliot, Four Quartets V , The Complete Poems and Plays, Faber & Faber, Londres 1969, p.197.

[23] João XXIII, Discurso de abertura, Vaticano II, 11 de outubro de 1962, núm 3,1

[24] João XXIII, Discurso de encerramento do primeiro período do concílio, 8 de dezembro de 1962, núm. 3,6.

sábado, 19 de janeiro de 2013

O Concílio Vaticano II: 50 anos depois (III)

3. Onde buscar os frutos do Vaticano II
Aconteceu mesmo este suspirado “novo Pentecostes”? Um célebre estudioso de Newman, Ian Ker, ressaltou a contribuição que pode ser dada por ele não só para o entendimento do desenrolar-se do concílio, mas também para o entendimento do pós-concílio[12]. Depois da definição da infalibilidade papal no Vaticano I, em 1870, o cardeal Newman refletiu sobre os concílios em geral e sobre o sentido das suas definições. Sua conclusão: os concílios podem ter efeitos não pretendidos por quem participou deles. Os participantes podem enxergar muito mais, ou muito menos, do que os resultados que vão ser produzidos por essas decisões.

Desta forma, Newman aplicava às definições conciliares o princípio do desenvolvimento, que tinha proposto acerca da doutrina cristã em geral. Um dogma, como qualquer outra grande ideia, não pode ser entendido por completo antes de serem avaliadas as suas consequências e desenvolvimentos históricos; para usar a sua comparação, só depois que o rio parte do terreno acidentado em que nasceu e desce até encontrar o seu leito mais amplo e profundo[13]. Aconteceu assim com a definição da infalibilidade papal, que, no calor do momento, foi entendida por muitos como algo maior do que aquilo que a Igreja e o próprio papa quiseram apresentar. Ela não tornaria inútil qualquer futuro concílio ecumênico, como alguns temiam ou esperaram. E disto, o Vaticano II serve como confirmação[14].

Achamos uma singular confirmação no princípio hermenêutico de Gadamer sobre a "história dos efeitos" (Wirkungsgeschichte), segundo o qual, para se compreender um texto, deve-se levar em conta o conjunto de efeitos que ele produziu na história, inserindo-se nessa história e dialogando com ela[15]. Isto é o que acontece de forma exemplar na leitura espiritual das Escrituras. Ela não explica o texto apenas à luz das coisas que o precederam, como ocorre na leitura histórico-filológica ao pesquisar as fontes, mas também à luz do que se seguiu, explicando a profecia à luz do seu cumprimento em Cristo, e o Antigo Testamento à luz do Novo.

Tudo isso lança uma luz única sobre o período pós-conciliar. Aqui também as realizações reais se posicionam, talvez, de modo diferente do que considerávamos inicialmente. Nós olhávamos para a mudança nas estruturas e nas instituições, para uma distribuição diferente do poder, para a língua a ser usada na liturgia, e não percebíamos o quanto essas mudanças eram pequenas em comparação com o que o Espírito Santo estava fazendo. Nós achávamos que romperíamos os odres velhos com as nossas próprias mãos, quando Deus, na verdade, nos propunha o seu método de romper os odres velhos pondo neles vinho novo.

Quando perguntados se houve um novo Pentecostes, devemos responder sem hesitação: sim! Qual é o sinal mais convincente dele? A renovação da qualidade da vida cristã, em todo lugar em que esse Pentecostes foi acolhido. O fato doutrinariamente mais qualificativo do Vaticano II são os dois primeiros capítulos da Lumen gentium, que definem a Igreja como sacramento e como povo de Deus a caminho, sob a orientação do Espírito Santo, inspirada pelos seus carismas, sob a orientação da hierarquia. A Igreja, enfim, como mistério e instituição; como koinonia mais do que hierarquia. João Paulo II relançou esta visão fazendo da sua implementação a prioridade no começo no novo milênio[16].

Perguntamos: onde é que esta imagem de Igreja passa dos documentos para a vida? Onde é que ela ganha “carne e sangue”[17]? Onde é que a vida cristã é vivida de acordo com "a lei do Espírito", com alegria e convicção, por atração e não por obrigação? Onde é que a palavra de Deus é tida na mais alta honra, e manifestam-se os dons, e sente-se mais forte a ânsia da nova evangelização e da unidade dos cristãos?


Tratando-se de fatos interiores, do coração das pessoas, a resposta definitiva para estas questões somente Deus possui. Devemos repetir, sobre o novo Pentecostes, o que Jesus disse do reino de Deus: "Ninguém dirá ‘Ei-lo aqui’, ou ‘Lá está ele’. O reino de Deus está no meio de vós" (Lc 17, 21). Podemos, no entanto, captar os seus sinais, auxiliados pela sociologia religiosa que lida com essas coisas. A partir deste ponto de vista, a resposta para muitas daquelas perguntas é: nos movimentos eclesiais!

Há algo que devemos precisar. Dos movimentos eclesiais, se não na forma, certamente em substância, também fazem parte as paróquias, associações de fiéis e novas comunidades em que se vive a mesma koinonia e a mesma qualidade de vida cristã. Deste ponto de vista, movimentos e paróquias não devem ser vistos em contraposição ou em competição uns com os outros, mas unidos na realização, de um modo diferente, do mesmo modelo de vida cristã. Entre eles, há também algumas das comunidades ditas “de base”, aquelas em que o fator político não assumiu a precedência sobre o religioso.


Devemos insistir no correto nome: movimentos "eclesiais", não movimentos "leigos". A maioria deles é formada não por apenas uma, e sim por todas as partes da Igreja: leigos, é claro, mas também bispos, padres, freiras. Eles representam todos os carismas, o "povo de Deus" da Lumen Gentium. É apenas por razões práticas que o Conselho Pontifício para os Leigos se ocupa deles, dado que já existem as congregações para o clero e para os religiosos.

João Paulo II viu nesses movimentos e comunidades paroquiais "os sinais de uma nova primavera da Igreja"[18]. O mesmo foi manifestado, várias vezes, pelo papa Bento XVI [19]. Na homilia da missa crismal da quinta-feira santa de 2012, ele disse:

“Quem olha para a história do pós-concílio pode reconhecer a dinâmica da verdadeira renovação, que tantas vezes tomou formas inesperadas em movimentos cheios de vida e que torna quase tangíveis a inexaurível vivacidade da santa Igreja, a presença e a ação eficaz do Espírito Santo”.

Falando dos sinais de um novo Pentecostes, não podemos deixar de mencionar em particular, ainda que fosse apenas pela extensão do fenômeno, a Renovação Carismática, que, mesmo não sendo um movimento eclesial no sentido estrito e sociológico do termo (não tem um fundador, uma estrutura e uma espiritualidade própria), é, ainda assim, uma corrente de graça destinada a se dispersar na Igreja como uma descarga elétrica na massa.

Em 1973, quando um dos arquitetos do concílio Vaticano II, o cardeal Suenens, ouviu falar do fenômeno pela primeira vez, ele estava escrevendo o livro "O Espírito Santo, fonte da nossa esperança", e nos conta o seguinte em suas memórias:


"Eu parei de escrever o livro. Considerei uma questão de coerência básica prestar atenção ao Espírito Santo, que pode se manifestar de maneiras surpreendentes. Eu estava particularmente interessado no despertar dos carismas, uma vez que o concílio tinha impulsionado esse despertar".

E, depois de verificar em pessoa e viver de dentro aquela experiência, compartilhada por milhões de outras pessoas, ele também escreveu:

"Paulo e os Atos dos Apóstolos parecem de repente ganhar vida e se tornar parte do presente. O que era realmente verdadeiro no passado parece estar acontecendo de novo diante dos nossos olhos. É uma descoberta da verdadeira ação do Espírito Santo, sempre atuante, como Jesus prometeu. Ele mantém a sua palavra. É mais uma vez uma explosão do Espírito de Pentecostes, uma alegria que tinha se tornado desconhecida para a Igreja"[20].

Os movimentos eclesiais e as novas comunidades não esgotam todo o potencial e as expectativas de renovação do concílio, mas respondem à mais importante delas, pelo menos aos olhos de Deus. Eles não estão livres de fraquezas e desvios parciais, mas que outra grande novidade na história da Igreja não sofreu as falhas humanas? Não foi a mesma coisa quando, no século XIII, apareceram as ordens mendicantes? Foram os papas romanos, especialmente Inocêncio III, que reconheceram e acolheram aquela graça pela primeira vez, incentivando o resto do episcopado a fazer o mesmo.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O Concílio Vaticano II: 50 anos depois (II)

2. A letra mata, o Espírito vivifica
Com todo o respeito e admiração devidos à imensa e pioneira contribuição do Cardeal Newman, a distância de um século e meio do seu ensaio, e com o que o cristianismo viveu nesse meio tempo, não é possível, ainda, não relevar também uma lacuna no desenvolvimento do seu argumento: a quase total ausência do Espírito Santo. Na dinâmica do progresso da doutrina cristã, ele não tem em conta com suficiente clareza o papel de destaque que Jesus tinha reservado para o Paráclito ao revelar aos discípulos aquelas verdades que eles ainda não podiam “carregar o peso” e no conduzí-los “à toda a verdade” (Jo 16, 12-13).

De fato, o que é que permite resolver este paradoxo e falar de novidade na continuidade, de permanência na mudança, a não ser o Espírito Santo na Igreja? Santo Ireneu o tinha percebido perfeitamente quando afirma que a revelação é como um “depósito precioso contido num vaso de valor que, graças ao Espírito de Deus, rejuvenesce sempre e faz rejuvener também o vaso que a contém”[7]. O Espírito Santo não fala palavras novas, não cria novos sacramentos, novas intituições, mas renova e vivifica perenemente as palavras, os sacramentos e as instituições criadas por Jesus. Não faz coisas novas, mas faz novas todas as coisas!

A insuficiente atenção ao papel do Espírito Santo explica muitas das dificuldades surgidas na recepção do Concílio Vaticano II. A Tradição, em nome da qual alguns rejeitaram o Concílio, era uma Tradição onde o Espírito Santo não desempenhava nenhum papel. Era um conjunto de crenças e de práticas fixadas uma vez por todas, e não a onda da pregação apostólica que avança e se propaga nos séculos e, como toda onda, só pode ser percebida em movimento. Congelar a Tradição e fazê-la partir, ou terminar, a um certo ponto, significa fazer uma morta tradição e não como a define Ireneu uma “viva Tradição”. Charles Péguy expressa, como poeta, esta grande verdade teológica:

"Jesus não nos deu palavras mortas

Que devamos colocar em pequenas caixas (ou em grandes)

E que devemos conservar em óleo rançoso...

Como as múmias do Egito.

Jesus Cristo não nos deu enlatados de palavras para conservar.

Mas deu-nos palavras de vida para alimentar ...

Depende de nós, doentes e de carne,

Fazer viver e alimentar e manter vivas no tempo

Aquelas palavras pronunciadas vivas no tempo”[8]

Porém rapidamente é necessário dizer que também na frente de batalha do extremismo oposto as coisas não são diferentes. Aqui se falava voluntariamente do “espírito do Concílio”, mas não se tratava, infelizmente, do Espírito Santo. Por “espírito do Concílio entendia-se o de mais entusiasmo, de coragem inovadora, que não teria sido possível entrar nos textos do Concílio por causa das resistências de alguns e do necessário compromisso entre as partes.

Gostaria agora de ilustrar aquela que, para mim, parece ser a verdadeira chave de leitura pneumática do Concílio, ou seja, qual é o papel do Espírito Santo na atuação do Concílio. Retomando um pensamento ousado de Santo Agostinho sobre o jargão paulino da letra e o Espírito (2 Cor 3, 6), São Tomás de Aquino escreve:

"Por letra entende-se toda lei escrita que permanece fora do homem, também os preceitos morais contidos no Evangelho; pelo qual a letra do Evangelho mataria, se não se acrescentasse, dentro, a graça da fé que cura”.[9]

No mesmo contexto, o santo doutor afirma: "A nova lei é principalmente a mesma graça do Espírito Santo que é dada aos crentes”[10]. Os preceitos do Evangelho são também a nova lei, mas em um sentido material, quanto ao conteúdo; a graça do Espírito Santo é a nova lei em sentido formal, enquanto que dá a força de colocar em prática os mesmos preceitos evangélicos. É aquela que Paolo define “a lei do Espírito que dá a vida em Cristo Jesus” (Rm 8, 2).

Este é um princípio universal que se aplica a toda lei. Se até mesmo os preceitos evangélicos, sem a graça do Espírito Santo, seriam “letra que mata”, o que dizer dos preceitos da Igreja, e o que dizer, no nosso caso, dos decretos do Concílio Vaticano II? A "implementação", ou a atualização do Concílio não acontece portanto diretamente, não necessita procurá-la na aplicação literal e quase mecânica do Concílio, mas “no Espírito”, entendendo com isso o Espírito Santo e não um vago “espírito do concílio” aberto a todo subjetivismo. O Magistério papal foi o primeiro a reconhecer esta exigência. João Paulo II, em 1981, escrevia:

"Todo o trabalho de renovação da Igreja, que o Concílio Vaticano II providencialmente propôs e começou – renovação que deve ser ao mesmo tempo “atualização” (aggiornamento) e consolidação no que é eterno e constitutivo para a missão da Igreja – não pode realizar-se a não ser no Espírito Santo, ou seja com a ajuda da sua luz e do seu poder”[11].

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Concílio Vaticano II: 50 anos depois (I)

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 14 de dezembro de 2012 (ZENIT.org) - Publicamos a seguir a segunda pregação do Advento de 2012 feita pelo Pe. Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia, nesta manhã no Vaticano.
 
O Concílio Vaticano II: 50 anos depois.

Uma chave de leitura
1. O Concílio: a hermenêutica da ruptura e a da continuidade
Nesta meditação, gostaria de refletir sobre o segundo maior motivo de celebração deste ano: o 50º aniversário do começo do Concílio Vaticano II.

Nas últimas décadas aumentaram as tentativas de fazer uma avaliação dos resultados do Concílio Vaticano II[1]. Não é o caso agora de continuar nesta linha, e nem sequer o tempo disponível nos permitiria. Em paralelo com estas leituras analíticas, houve, desde o começo do Concílio, a tentativa de uma avaliação sintética, a busca, em outras palavras, de uma chave de leitura do evento conciliar. Gostaria de inserir-me neste esforço e tentar, até mesmo, uma leitura das diversas chaves de leitura.

Principalmente foram três as chaves de leitura: atualização (aggiornamento), ruptura, novidade na continuidade. Ao anunciar o Concílio ao mundo João XXIII usou repetidamente a palavra “aggiornamento” (atualização), que, graças a ele, entrou para o vocabulário universal. Em seu discurso de abertura do Concílio, deu uma primeira explicação do que ele quis dizer com esse termo:

"O 21º Concílio Ecumênico quer transmitir integralmente, não em partes, sem distorções, a doutrina católica [...]. Mas nós não devemos somente preservar este tesouro precioso, como se nos preocupássemos apenas da antiguidade, mas vigorosos, sem medo, devemos continuar no trabalho que a nossa época exige, seguindo o caminho que a Igreja percorreu por quase 20 séculos [... ]. É necessário que esta doutrina certa e imutável, à qual devemos dar uma adesão de fé, seja aprofundada e exposta como exigido pelos nossos tempos"[2].

Na medida em que os trabalhos e as sessões do Concílio progrediam surgiram duas linhas opostas dependendo, de acordo com as exigências expressadas pelo Papa, acentuava-se a primeira ou a segunda: ou seja, a continuidade com o passado ou a novidade com relação a ele. No meio desses últimos a palavra aggiornamento (atualização) acabou sendo trocada pela palavra ruptura. Mas com um espírito e com tentativas bem diferentes, de acordo com a própria orientação. Para a ala, assim chamada progressista, tratava-se de uma conquista a ser comemorada com entusiasmo; para o lado oposto, tratava-se de uma tragédia para toda a Igreja.

Entre essas duas frentes – que concordavam com a afirmação do fato, mas estavam opostos no juízo sobre ele – coloca-se a posição do Magistério papal que fala de “novidade na continuidade”. Paulo VI, na Ecclesiam suam retoma a palavra “aggiornamento” (atualização) de João XXIII e fala que queria tê-la presente como “endereço programático”[3]. No começo do seu pontificado João Paulo II confirmou o juízo do seu antecessor[4] e se expressou muitas vezes nessa mesma linha. Mas, foi principalmente o atual Sumo Pontífice Bento XVI que explicou o que o Magistério da Igreja entende por “novidade na continuidade”. Foi o que ele fez poucos meses depois da sua eleição, no conhecido discurso programático à Curia Romana do dia 22 de Dezembro de 2005. Escutemos algumas passagens:

“Surge a pergunta: por que a recepção do Concílio, em grandes partes da Igreja, até agora teve lugar de modo tão difícil? Pois bem, tudo depende da justa interpretação do Concílio ou como diríamos hoje da sua correcta hermenêutica, da justa chave de leitura e de aplicação. Os problemas da recepção derivaram do facto de que duas hermenêuticas contrárias se embateram e disputaram entre si. Uma causou confusão, a outra, silenciosamente mas de modo cada vez mais visível, produziu e produz frutos. Por um lado, existe uma interpretação que gostaria de definir "hermenêutica da descontinuidade e da ruptura"; não raro, ela pôde valer-se da simpatia dos mass media e também de uma parte da teologia moderna. [...] A hermenêutica da descontinuidade opõe-se à hermenêutica da reforma ".

O papa admite que uma certa descontinuidade e ruptura ocorreu, mas ela não abarca os princípios e as verdades fundamentais da fé cristã, mas algumas decisões históricas. Entre as quais se encontra a situação de conflito que se criou entre a Igreja e o mundo moderno, que culminou na condenação total da modernidade sob Pio IX, mas também situações mais recentes, como aquela criada pelos progressos da ciência, da nova relação entre as religiões com as implicações que isso tem para o problema da liberdade de consciência; e não por último, a tragédia do holocausto que exigia um repensamento de atitudes para com o povo judeu. Escreve:

“É claro que em todos estes setores, que no seu conjunto formam um único problema, podia emergir alguma forma de descontinuidade que, de certo modo, se tinha manifestado, de fato uma descontinuidade, na qual todavia, feitas as diversas distinções entre as situações históricas concretas e as suas exigências, resultava não abandonada a continuidade nos princípios fato que facilmente escapa a uma primeira percepção. É exactamente neste conjunto de continuidade e descontinuidade a diversos níveis que consiste a natureza da verdadeira reforma”.

Se do plano axiológico, ou seja dos princípios e dos valores, passamos ao plano cronológico, poderemos dizer que o Concílio representa uma ruptura e uma descontinuidade com relação ao passado próximo da Igreja e representa ao contrário uma continuidade com relação ao seu passado remoto. Em muitos pontos, sobretudo no ponto central que é a idéia da Igreja, o concílio quis fazer um retorno às origens, às fontes bíblicas e patrísticas da fé.

A leitura do Concílio assumida pelo Magistério, ou seja, a da novidade na continuidade, tinha tido um ilustre precursor no “Ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã” do cardeal Newman, definido muitas vezes, também por este, “o Pai ausente do Vaticano II”. Newman demonstra que, quando se trata de uma grande ideia filosófica ou uma crença religiosa, como é o cristianismo,

"não é possível julgar pelo seu começo qual seja a sua virtualidade e as metas às quais tende. [...]. De acordo com as novas relações que ela chega a ter, surgem perigos e esperanças e princípios antigos reaparecem sob nova forma. Ela muda junto com eles para ficar sempre idêntica a si mesma. Num mundo sobrenatural as coisas acontecem de forma diferente, mas aqui sobre a terra viver é transformar-se e a perfeição é o resultado de muitas transformações”[5].

São Gregório Magno antecipava, de certa forma, esta convicção quando afirmava que a Escritura “cum legentibus crescit”, cresce com aqueles que a lêem”[6]; ou seja, cresce a força de ser lida e vivida, na medida que surgem novas perguntas e novos desafios da história. Portanto, a doutrina da fé muda, mas para ficar fiel a si mesma; muda nas contingências históricas, para não mudar na substância, como dizia Bento XVI.

Um exemplo trivial, mas indicativo é aquele do idioma. Jesus falava a língua do seu tempo; não o hebraico que era a língua nobre e das Escrituras (o latim do tempo!), mas o aramaico falado pelo povo. A fidelidade a este dado inicial não podia consistir, e não consistiu, no continuar a falar em aramaico a todos os futuros ouvintes do evangelho, mas no falar grego ao Gregos, latim aos Latinos, armênio com os Armênios, copto com os cóptos, e assim até os dias de hoje. Como dizia Newman, é justamente mudando que muitas vezes se é fiel ao dado original.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O guardião da fé fala sobre “interpretações heréticas” do Concílio.

De acordo com o Arcebispo Gerhard Ludwig Müller, os tradicionalistas demonstram perda de ortodoxia quando apontam para o Concílio Vaticano II como o inverno da Igreja Católica.

Por Gianni Valente – Vatican Insider | Tradução: Fratres in Unum.com – Aqueles que consideram o Concílio Vaticano Segundo, ou Vaticano II, como uma ruptura da Tradição da Igreja, oferecem uma “interpretação herética” deste grande evento eclesiástico. E este erro doutrinal não é cometido somente por inovadores modernistas: ele é cometido por neo-tradicionalistas, que acreditam que o Vaticano II supostamente voltou suas costas para “Igreja tradicional”. A indicação de que a posição tradicionalista possa ter elementos “heréticos” foi feita ontem [28/11/2012] à noite pelo Arcebispo Gerhard Ludwig Müller, atual Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Suas observações vieram durante a apresentação do volume VII da edição alemã da “Opera Omnia” de Joseph Ratzinger, uma coleção sistemática de todas as obras que o teólogo que virou Papa dedicou ao Concílio e os documentos que surgiram dele. A apresentação ocorreu em um local muito evocativo: o Collegio Teutonico de Santa Maria dell’Anima, que foi a base logística do perito teólogo Joseph Ratzinger durante as sessões do Concílio.
 
Durante a sua apresentação, o chefe do dicastério doutrinal afirmou claramente que a única interpretação ortodoxa do Concílio Vaticano Segundo é aquela que o vê como uma ocasião de reforma e renovação, em continuidade com o único sujeito-Igreja, que o Senhor nos deu. Müller considera essa interpretação como a única hermenêutica que respeita “a unidade indissolúvel entre as Sagradas Escrituras, a Tradição completa e integral e o Magistério, que encontra a sua mais alta expressão no Concílio, presidido pelo Sucessor de Pedro, como chefe visível da Igreja.”
 
O Arcebispo Müller contrastou essa “interpretação singular e ortodoxa” com a interpretação “herética”, que ele identificou com “a hermenêutica da ruptura, tanto do lado progressista quanto do lado tradicionalista.” De acordo com Müller, o que ambos partilham em comum é a rejeição do Concílio: “os progressistas querem deixá-lo para trás, como se fosse apenas uma fase que deveria ser abandonada a fim de avançar em direção a uma Igreja diferente; os tradicionalistas não querem avançar em direção a tal Igreja, como se ela representasse o inverno da Catholica.”
 
Em seu discurso, o ex-bispo de Regensburgo descreveu a contribuição de Joseph Ratzinger, primeiro como teólogo durante as reuniões reais do Concílio (também como consultor teológico do Cardeal Joseph Frings) e depois durante a longa e turbulenta fase de recepção dos ensinamentos conciliares. “Foi um tempo de grande expectativa. Algo grande tinha que acontecer,” Bento XVI escreveu no prefácio do volume alemão apresentado por Müller.
 

sábado, 28 de janeiro de 2012

Splendore della Liturgia a Concesa











Solemnità della S. María Madre di Dio, Santa Messa Pontificale (novus Ordo e versus Deum) con Orchesta (Missa Sacra - op. 147 R. Schumann), celebrata da Mons. Antonio G. Filipazzi, Nunzio Apostolico in Indonesia e intronizzazione della immagine della Madonna di Fatima - Concesa, Santuario della Divina Maternità, 1 gennaio 2012.





Vigilia della Solennità della s. Maria Madre di Dio, Adorazione Eucaristica, Bendizione, Te Deum, Consacrazione del Genere Umano al S. Cuore e canto del Veni Creator - Concesa, Santuario della Divina Maternità.








Natale, Messa di mezzanotte, Novus ordo, Versus Deum, Concesa, Santuario de la Divina Maternità, 24 diciembre 2011.

Immagini delle celebrazioni di Natale al Convento dei PP Carmelitani scalzi di Concesa di Trezzo sull'Adda, Milano, Santuario della Divina Maternità.

I Carmelitani, esempio per l' Ordine e la Chiesa, celebrano la Liturgia Novus Ordo, ammirabilmente, seguendo l'ermeneutica della continuità, del Santo Padre. Si celebra la Forma Extraordinaria ogni settimana e in alcune occasioni Solenni.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Sobre a adesão ao Concílio Vaticano II

Sobre a adesão ao Concílio Vaticano II
no cinquentenário da sua convocação


O já próximo cinquentenário da convocação do Concílio Vaticano II (25-XII-1961) é motivo de celebração mas também de renovada reflexão sobre a recepção e aplicação dos documentos conciliares. Além dos aspectos mais directamente práticos desta recepção e aplicação, com as suas luzes e sombras, parece oportuno recordar também a natureza da adesão intelectual devida aos ensinamentos do Concílio. Mesmo tratando-se de doutrina muito conhecida e sobre a qual se dispõe de abundante bibliografia, não é supérfluo recordá-la nos seus aspectos essenciais, tendo em conta a persistência de perplexidades que se manifestaram, também na opinião pública, em relação à continuidade de alguns ensinamentos conciliares relativos aos precedentes ensinamentos do Magistério da Igreja.

Antes de tudo não parece ser inútil recordar que a intenção pastoral do Concílio não significa que ele não seja doutrinal. De facto, as perpectivas pastorais baseiam-se, e não poderia ser de outra forma, na doutrina. Mas é necessário, sobretudo, reafirmar que a doutrina se orienta para a salvação, o seu ensinamento é parte integrante da pastoral. Além disso, nos documentos conciliares é óbvio que há muitos ensinamentos de natureza puramente doutrinal: sobre a divina Revelação, sobre a Igreja, etc. Como escreveu o beato João Paulo II, «com a ajuda de Deus, os Padres conciliares puderam elaborar, em quatro anos de trabalho, um conjunto considerável de exposições doutrinais e de directrizes pastorais oferecidas a toda a Igreja» (Constituição Apostólica Fidei depositum,11-X-1992, introdução).

A adesão devida ao Magistério

O Concílio Vaticano II não definiu dogma algum, no sentido que não propôs mediante acto definitivo qualquer doutrina. Contudo o facto de que um acto do Magistério da Igreja não seja exercido mediante o carisma da infalibilidade não significa que ele poderá ser considerado «falível» no sentido que transmite uma «doutrina provisória» ou «opiniões influentes». Cada expressão de Magistério autêntico deve ser acolhida como é verdadeiramente: um ensinamento dado por Pastores que, na sucessão apostólica, falam com o «carisma da verdade» (Dei Verbum, n. 8), «revestidos da autoridade de Cristo» (Lumen gentium, n. 25), «à luz do Espírito Santo» (ibid.).

Este carisma, esta autoridade e esta luz certamente estiveram presentes no Concílio Vaticano II; negar isto a todo o episcopado cum Petro e sub Petro, reunido para ensinar à Igreja universal, seria negar algo da própria essência da Igreja (cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração Mysterium Ecclesiae, 24-VI-1973, nn. 2-5).

Naturalmente nem todas as afirmações contidas nos documentos conciliares têm o mesmo valor doutrinal e por conseguinte nem todas exigem o mesmo grau de adesão. Os diversos graus de adesão às doutrinas propostas pelo Magistério foram recordados pelo Vaticano II, no n. 25 da Constituição Lumen gentium, e depois sintetizados nos três parágrafos acrescentados ao Símbolo niceno-constantinopolitano na fórmula da Professio fidei, publicada em 1989 pela Congregação para a Doutrina da Fé com a aprovação de João Paulo II.

As afirmações do Concílio Vaticano II que recordam verdade de fé exigem obviamente a adesão de fé teologal, não porque tenham sido ensinadas por este Concílio, mas porque já tinham sido ensinadas infalivelmente como tais pela Igreja, de forma solene ou pelo Magistério ordinário e universal. Assim como exigem um pleno e definitivo assentimento as outras doutrinas recordadas pelo Vaticano II que já tinham sido propostas com acto definitivo por precedentes intervenções magisteriais.

Os outros ensinamentos doutrinais do Concílio exigem dos fiéis o grau de adesão denominado «obséquio religioso da vontade e do intelecto». Um assentimento «religioso», por conseguinte, não fundado em motivações meramente racionais. Esta adesão não se configura como um acto de fé, mas antes de obediência, não simplesmente disciplinar, mas radicada na confiança na assistência divina ao Magistério, e por isso «na lógica e sob o impulso da obediência da fé» (Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução Donum veritatis, 24-V-1990, n. 23). Esta obediência ao Magistério da Igreja não constitui um limite colocado à liberdade, mas ao contrário, é fonte de liberdade. As palavras de Cristo «quem vos ouve é a mim que ouve» (Lc 10, 16) são dirigidas também aos sucessores dos Apóstolos; e ouvir Cristo significa receber em si a verdade que liberta (cf. Jo 8, 32).

Nos documentos magisteriais podem haver – como de facto se encontram no Vaticano II – também elementos não propriamente doutrinais, de natureza mais ou menos circunstancial (descrições do estado das sociedades, sugestões, exortações, etc.). Tais elementos devem ser acolhidos com respeito e gratidão, mas não exigem uma adesão intelectual em sentido próprio (cf. Instrução Donum veritatis, n. 24-31).

A interpretação dos ensinamentos

A unidade da Igreja e a unidade na fé são inseparáveis, e isto inclui também a unidade do Magistério da Igreja em qualquer tempo enquanto intérprete autêntico da Revelação divina transmitida pela Sagrada Escritura e pela Tradição. Isto significa, entre outras coisas, que uma característica essencial do Magistério é a sua continuidade e homogeneidade no tempo. A continuidade não significa ausência de desenvolvimento; a Igreja ao longo dos séculos progride no conhecimento, no aprofundamento e no consequente ensinamento magisterial da fé e da moral católica.

Houve no concílio Vaticano II diversas novidades de tipo doutrinal: sobre a sacramentalidade do episcopado, sobre a colegialidade episcopal, sobre a liberdade religiosa, etc. Mesmo se diante das novidades em matérias relativas à fé ou à moral não propostas com acto definitivo seja devido o obséquio religioso da vontade e do intelecto, algumas delas foram e ainda são objecto de controvérsias acerca da sua continuidade com o Magistério precedente, ou seja, acerca da sua compatibilidade com a Tradição. Face às dificuldades que podem encontrar-se para compreender a continuidade de alguns ensinamentos conciliares com a Tradição, a atitude católica, tendo em consideração a unidade do Magistério, é procurar uma interpretação unitária, na qual os textos do Concílio Vaticano II e os documentos magisteriais precedentes se iluminem reciprocamente. Não só o Vaticano II deve ser interpretado à luz de precedentes documentos magisteriais, mas também alguns deles são melhor compreendidos à luz do Vaticano II. Isto não é uma novidade na história da Igreja. Deve ser recordado, por exemplo, que noções importantes na formulação da fé trinitária e cristológica (Hypóstasis, ousía) usadas no Concílio I de Niceia foram muito esclarecidas no seu significado pelos Concílios posteriores.

Portanto, a interpretação das novidades ensinadas pelo Vaticano II deve rejeitar, como disse Bento XVI, a hermenêutica da descontinuidade em relação à Tradição, e deve afirmar a hermenêutica da reforma, da renovação na continuidade (Discurso, 22-XII-2005). Trata-se de novidades no sentido que explicitam aspectos novos, até àquele momento ainda não formulados pelo Magistério, mas que não contradizem a nível doutrinal os documentos magisteriais precedentes, mesmo se nalguns casos – por exemplo, sobre a liberdade religiosa – contenham também consequências muito diversas a nível das decisões históricas sobre as aplicações jurídico-políticas, considerando as novas condições históricas e sociais. Uma interpretação autêntica dos textos conciliares pode ser feita apenas pelo próprio Magistério da Igreja. Por isso, no trabalho teológico de interpretação dos trechos que nos textos conciliares suscitem dúvidas ou pareçam apresentar dificuldades, é antes de tudo necessário ter em consideração o sentido no qual as sucessivas intervenções magisteriais entenderam esses trechos. Contudo, permanecem legítimos espaços de liberdade teológica para explicar de uma forma ou de outra a não contradição com a Tradição de algumas formulações presentes nos textos conciliares e, por isso, para explicar o próprio significado de algumas expressões contidas naqueles trechos.

Por fim, a este propósito, não parece supérfluo ter presente que transcorreu quase meio século depois da conclusão do Concílio Vaticano II, e que nestes decénios se sucederam quatro Romanos Pontífices na cátedra de Pedro. Examinando o Magistério destes Papas e a correspondente adesão a ele por parte do Episcopado, uma eventual situação de dificuldade deveria transformar-se em serena e jubilosa adesão ao Magistério, intérprete autêntico da doutrina da fé. Isto deveria ser possível e desejável mesmo se permanecessem aspectos racionalmente não compreendidos de modo total, deixando contudo abertos os espaços legítimos de liberdade teológica para um trabalho sempre oportuno de aprofundamento. Como escreveu recentemente Bento XVI, «os conteúdos essenciais que há séculos constituem o património de todos os crentes precisam ser confirmados, compreendidos e aprofundados de maneira sempre nova a fim de dar testemunho coerente em condições históricas diversas do passado» (Bento XVI, Motu proprio Porta fidei, n. 4).

Fernando Ocáriz

sábado, 14 de maio de 2011

Cardeal Koch fala sobre Reforma Litúrgica, Reforma da Reforma, Novo Movimento Litúrgico e Ecumenismo


{...}A existência de uma continuidade de fundo entre a liturgia antiga e a reforma litúrgica iniciadas pelo Concílio Vaticano II, evidenciado da visão ampla e aprofundada da Constituição Litúrgica, segundo a qual o culto público integral é exercido"pelo Corpo Místico de Jesus Cristo, isto é pela Cabeça e os seus membros "e toda a celebração litúrgica deve ser portanto considerada como" obra de Cristo sacerdote e do seu Corpo que é a Igreja. "O Catecismo acrescenta: "alguns fiéis são ordenados mediante o sacramento da Ordem para representar Cristo como Cabeça do Corpo".{...}

Surge assim a real importância ecumência do motu proprio Summorum Pontificum. Desde que Bento XVI não simplesmente aplicou a hermenêutica da reforma no campo da liturgia, mas solicitou esta hermenêutica em primeiro lugar por causa da Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia.

{...}A partir daqui também refletiu sobre o senso mais profundo da reforma da reforma iniciada por Bento XVI com o motu proprio: assim como o Concílio Vaticano II foi precedido de um movimento litúrgico, cujos frutos maduros foram trazidos no interno da Constituição sobre a Sagrada Liturgia, também hoje precisamos de um novo movimento litúrgico, que visa como objetivo aquele de fazer frutificar o verdadeiro patrimônio do Concílio Vaticano II nesta hodierna situação da Igreja.

Deste novo movimento litúrgico o motu proprio constitui somente o início. Bento XVI bem sabe que, a longo prazo, não podemos firmar a uma coexistência entre a forma Ordinária e a forma Extraordinária do Rito Romano, mas que a Igreja terá novamente no futuro um rito comum. Todavia, como uma nova reforma litúrgica não pode ser decisiva por arbitragem, pois precisa de um processo de crescimento e purificação, o Papa pelo momento salienta sobretudo que as duas formas do uso do Rito Romano podem e devem ser enriquecer-se mutuamente.{...}

terça-feira, 5 de abril de 2011

A secularização litúrgica como negação do culto

Retirado: Sancta Missa Portugal 

Sicuramente la genesi di gran parte del crollo della Liturgia, a cui da decenni stiamo assistendo nella Chiesa, è da rintracciarsi in ciò che Sua Eminenza il Cardinal Raymond Leo Burke ha acutamente evidenziato all’inizio della sua Lectio magistralis: “…un’esasperata attenzione rivolta all’aspetto umano della liturgia…” ovvero la sua secolarizzazione.


Essa si dettaglia in tutti quegli infiniti e variegati tentativi di “adeguamento” tra la fede e il suo linguaggio da una parte e il mondo dall’altra, tra liturgia e mondo. Un mondo, però, che viene sempre più concepito etsi Deus non daretur. E proprio Benedetto XVI ha affermato che “la crisi ecclesiale in cui oggi ci troviamo dipende in gran parte dal culto della liturgia che talvolta viene addirittura concepita etsi Deus non daretur”.

Negli ultimi anni la secolarizzazione è stata analizzata, descritta e definita in molti modi, ma, per quanto ne sappia, nessuna di queste descrizioni ha sottolineato un punto che ritengo sia essenziale e che rivela in effetti meglio di ogni altra cosa la vera natura della secolarizzazione. La secolarizzazione, a mio avviso, è innanzitutto una negazione del culto. Sottolineo: non una negazione dell’esistenza di Dio, o di un qualche tipo di trascendenza e quindi di ogni sorta di religione. Se il secolarismo in termini teologici è un’eresia, si tratta innanzitutto di un’eresia sull’uomo. È la negazione dell’uomo in quanto essere che adora, in quanto homo adorans: colui per il quale l’adorazione è l’atto fondamentale, che allo stesso tempo “colloca” la sua umanità e la compie. È il rifiuto “decisivo” ontologicamente ed epistemologicamente, delle parole, che “sempre, dovunque e per tutti” sono state la vera “epifania” del rapporto dell’uomo con Dio, con il mondo e con sé stesso.

Questa definizione di secolarizzazione ha certamente bisogno di una precisazione. E ovviamente non può essere accettata da coloro che, assai numerosi, oggi, consapevolmente o inconsapevolmente, riducono il cristianesimo in categorie intellettuali (“credenza futura”) o in categorie etico-sociologiche (“servizio cristiano al mondo”), e che quindi pensano debba essere possibile trovare non solo un qualche tipo di adeguamento, ma anche un’armonia profonda tra la nostra “età secolare”, da un lato e il culto, dall’altro. Se i fautori di ciò che fondamentalmente non è altro che l’accettazione cristiana della secolarizzazione sono nel giusto, allora naturalmente tutto il nostro problema è solo quello di trovare o inventare un culto più accettabile, più “rilevante” per la moderna visione del mondo dell’uomo secolarizzato. E tale è, infatti, la direzione presa oggi dalla stragrande maggioranza dei riformatori liturgici.Quello che cercano è un culto le cui forme e contenuti “riflettano” i bisogni e le aspirazioni dell’uomo secolarizzato, o ancor meglio della secolarizzazione stessa. Un aspetto che ha la sua ricaduta in un vasto raggio dalla ritualità, all’arte e alla architettura sacra.

Basti pensare che la “stessa incapacità dell’uomo di oggi di rapportarsi con il mistero” diventa un criterio per realizzare nuovi spazi liturgici (vedi Chiesa di Piano s. Giovanni Rotondo); o si traduce nel tentativo di entrare in dialogo con una certa cultura definita oggi proteiforme: “…l’architettura contemporanea è fluida, cangiante, proteiforme; così come un liquido si adatta al suo contenitore, essa si conforma alla sensibilità dell’artefice. Tutte le modalità di espressione artistica sono strettamente connesse alla soggettività…”- in questi termini si esprime D. Bagliani, docente al politecnico di Torino (opinione riportata in un articolo “Nuove Chiese, progetti da premio” di L. Servadio, in merito ai tre progetti pilota di nuove chiese vincenti alla quinta edizione del concorso Cei, 2009).

Un edificio può mettere in evidenza il silenzio, un altro un certo connubio fra natura e architettura (bioarchitettura), un altro un certo collegamento tra passato e futuro; oppure può adottare semplicemente forme stravaganti: una gemma di roccia poggiata al suolo, con un ingresso che invita ad un senso di protezione, simbologie ricercate e analogie, ecc.

Allo stesso modo questa “incapacità di rapportarsi col mistero” può tradursi nell’adozione nell’ambito dell’arte sacra di un astrattismo proprio dell’arte contemporanea: l’arte nella sua astrattezza e fluidità tenderebbe pertanto ad esprimere “l’inesprimibilità” del sacro e del mistero: “…anche le parole più astratte del Signore quale, via verità e vita, potrebbero essere rivestite di forma e colore…” (vedi T. Verdon in un suo articolo comparso sull’Osservatore Romano del 12 gennaio 2008).

Sono solo alcuni esempi che ci rivelano un assoggettamento della liturgia, e quindi della stessa arte sacra e religiosa in genere, alla capacità di comprensione attuale. Il risultato è un vago spiritualismo, un simbolismo figurativo confuso e astratto, una liturgia intellettualizzata. A chiunque abbia avuto, sia pure una sola volta, la vera esperienza del culto, tutto questo si rivela subito come un semplice surrogato. Egli sa che il culto secolarista è semplicemente incompatibile con il vero culto. Ed è qui, in questo miserabile fallimento liturgico, i cui risultati terribili stiamo solo cominciando a vedere, che il secolarismo rivela il suo ultimo vuoto religioso e, non esiterò a dirlo, la sua essenza del tutto anti-cristiana.

La società è ormai pervasa da questa mentalità secolarizzata che sembra non risparmiare nemmeno la Chiesa, aggredendo particolarmente l’integrità della Liturgia. Quelli che dovrebbero essere chiaramente definiti e condannati come abusi liturgici diventano sempre più la norma. Si celebra in ogni luogo, in ogni modo, e in ogni forma. É difficile ormai trovare una celebrazione “cattolica”, nel vero senso della parola, “unica e universale”. Non entriamo poi in merito degli edifici e degli spazi liturgici, dove convivono tranquillamente, banalità sciatteria e bruttezza. É difficile definirli “casa” ancor meno “casa di Dio”. Luoghi che consacrati per il culto a Dio possono tranquillamente essere usati per qualsiasi “celebrazione”, o spettacolo, o teatro, o conferenza col risultato di far perdere definitivamente la loro identità di luogo sacro.

Ma non vorrei scadere nella mera polemica fine a se stessa!

Per cui, ripetiamo ancora una volta, la secolarizzazione non è affatto identica all’ateismo, e per quanto paradossale possa sembrare, può essere dimostrato che essa ha sempre avuto un desiderio particolare per l’espressione “liturgica”. Se, tuttavia, la mia definizione è corretta, allora tutta questa ricerca di “adeguamento” perviene ad uno scopo irrimediabilmente morto, se non addirittura senza senso. Quindi la formulazione stessa del nostro tema – “liturgie secolarizzate” – vuol mettere in evidenza, a mio avviso, innanzitutto una contraddizione interna, in termini; una contraddizione che esprime l’impossibilità stessa di una “liturgia secolarizzata”.

Rendere culto è, per definizione una azione, una realtà di dimensione cosmica, storica ed escatologica; è espressione, in tal modo, non solo di “pietà”, ma di una totalizzante “visione del mondo”. E quei pochi che si sono presi la pena di studiare il culto in generale e il culto cristiano, in particolare, (J. Ries, M. Eliade, per citare solo i più rappresentativi, che furono fra i primi nell’immediato post concilio a suonare il campanello d’allarme di una pericolosa ideologia di desacralizzazione all’interno della Chiesa stessa, e non vennero ascoltati) sarebbero certamente d’accordo che su un livello storico e fenomenologico questa nozione di culto è oggettivamente verificabile.

Il secolarismo, ho detto, è soprattutto una negazione del culto. E, in effetti, se quello che abbiamo detto circa il culto è vero, non è altrettanto vero che il secolarismo consiste nel rifiuto, esplicito o implicito, precisamente di quella concezione dell’uomo e del mondo che proprio il culto ha lo scopo di esprimere e comunicare?

Di don Matteo De Meo

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Ad Orientem [II]


II . O CONCÍLIO VATICANO II E A ORIENTAÇÃO LITÚRGICA


O Concílio Vaticano II não se pronunciou formalmente sobre a orientação da oração litúrgica na Igreja, portanto, qualquer debate sobre o assunto foi levado mais tarde nos tempos da reforma litúrgica em si. A teologia litúrgica e sacramental na Eucaristia tende a ter uma mudança radical durante este tempo.

O Concílio debateu a necessidade de "levar os fiéis até o altar." Essa frase envolve dois aspectos: O primeiro é encontrar formas em que os fiéis possam participar mais ativamente da Missa, trazendo suas almas para o Santo Sacrifício do Altar, tudo através de uma adequada formação litúrgica. O segundo aspecto é evitar longas distâncias entre o altar e os fiéis (como acontece, por exemplo, as igrejas, com coro, como Notre Dame de Paris, onde a distância entre os fiéis e o altar é muito grande), de modo que os fiéis se sintam participantes da Missa, e olhem com mais detalhes o que acontece no Altar.

Portanto, a necessidade de que foi instruída nas novas igrejas, o altar foi construído próximo aos fiéis. Da mesma forma, foram instruídos a construir longe da parede, para que pudesse ser cercada por lisa (presumivelmente, a questões relacionadas com o incenso.)

No entanto, o Concílio não decidiu sobre uma mudança para a celebração dos Santos Mistérios de forma  ad orientem ou versus populum.

No entanto, a instrução "Inter Oecumenici" 1964, preparado pelo Consilium (entidade responsável pela execução das reformas propostas pelo CVII), deu uma interpretação sobre este assunto, que foi claramente uma tentativa "admissível" uma prática já difundida em alguns países desde o início do Movimento Litúrgico, em particular, em relação à Guardini. A citação é:

"É aceitável construír o altar separado da parede para facilitar o regresso e pode ser realizada de frente ao  povo, e colocada no edifício sagrado para que ele seja verdadeiramente o centro para o qual torna-se espontaneamente a atenção da assembléia dos fiéis. "

No entanto, esta declaração tem dois tons a considerar: Primeiro, note que é apenas uma recomendação para a construção nova e, por outro, é apenas uma recomendação, por si só e, portanto, não são considerados prescrição normativa. Portanto, é um segundo argumento de importância salientar que a posição "ad orientem"  é como conciliar e correta celebração litúrgica da Santa Missa (mesmo que se aceite a celebração versus populum).

Não obstante o acima exposto, em consonância com a interpretação dada por J. A. Jungmann (liturgista) sobre a dispensa da celebração "versus populum" era evidente nos anos seguintes uma instituição de fato de tal orientação (o que é atribuível a uma interpretação de ruptura), o que levou à destruição e mutilação de muitos altares, com um valor cultural, patrimônio litúrgico.

III . O MISSAL ROMANO
O Missal Romano, em sua primeira edição de 1970, fornece outras informações relevantes para a orientação da Liturgia durante a Missa.

Um exemplo é a seguinte frase, tirada da Instrução Geral do Missal Romano, na segunda edição de 1975, o que é equivalente ao correspondente à primeira edição (1970):

. "107 Voltando ao centro do altar voltado para o povo, e estendeu as mãos e convida o povo a orar, dizendo: Orai, irmãos, irmãs [...]"..

Você pode ver com clareza absoluta, se referiu ao "ad orientem", conforme as regras da missa (como o sacerdote deve pronunciar o "Orate Fratres" voltado para o povo, como na forma extraordinária.)

Esta frase de Instrução Geral da terceira edição do Missal Romano de 2000, prevê:

. "146 Então, voltou ao centro do altar, o sacerdote, de pé, voltado para o povo, estendendo e juntando as mãos, convida o povo a orar, dizendo: Orai, irmãos, irmãs .[...]".

Então, mais uma vez, você pode verificar como o "ad orientem" é referido como normativa dentro da missa. No entanto, esta terceira edição inclui uma declaração da Instrução de 1964, dizendo que a celebração versus populum "é altamente desejável, sempre que possível."

Portanto, você pode verificar a grande mudança litúrgica, entre 1975 e 2000, e tornou-se uma "recomendação" em uma "obrigação" que, em nossos tempos, parece ser um dia, se não mais correta, já que rompe com tradição da Igreja, já desde o começo, como se pode atestar a Louis Bouyer, que é citado pelo cardeal Ratzinger em seu famoso livro "O Espírito da Liturgia" e do livro "Gone to the Lord" Monsenhor Klaus Gamber, ou "Voltando-se para o Senhor" Uwe Michael Lang.

Retirado de: Sacram Liturgiam 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

As orações apologéticas na Missa


Um silêncio que contempla e adora


A Sagrada Liturgia, que o Concílio Vaticano II qualifica como a ação sacerdotal de Cristo e, portanto, fonte e cume da vida eclesial, não pode ser reduzida jamais a uma mera realidade estética, nem pode ser considerada como um instrumento com fins meramente pedagógicos ou ecumênicos. A celebração dos santos mistérios é, sobretudo, ação de louvor à soberana majestade de Deus, Uno e Trino, e expressão querida pelo próprio Deus. Com ela, o homem, pessoal e comunitariamente, apresenta-se diante d’Ele para agradecer, consciente de que seu próprio ser não pode alcançar sua plenitude sem louvá-lo e cumprir sua vontade, na constante busca do Reino que já está presente, mas que virá definitivamente no dia da parusia do Senhor Jesus [1].

A partir desta perspectiva, está claro que a direção de toda ação litúrgica – que é a mesma tanto para o sacerdote como para os fiéis – se dirige ao Senhor: ao Pai, através de Cristo, no Espírito Santo. Por isso, “sacerdote e povo certamente não rezam um ao outro, mas ao único Senhor” [2]. Trata-se de viver constantemente conversi ad Dominum, orientados ao Senhor, que implica na conversio, isto é, dirigir nossa alma a Jesus Cristo e, dessa forma, ao Deus vivente, à luz verdadeira [3].

Desse modo, a celebração litúrgica é um ato da virtude da religião que, coerentemente com sua natureza, deve se caracterizar por um profundo senso do sagrado. Nela, o homem e a comunidade devem ser conscientes de que vivem um encontro, em particular, diante d’Aquele que é três vezes Santo e Transcendente. Daí que “um sinal convincente da eficácia que a catequese eucarística tem nos fiéis seja sem dúvida o crescimento neles do senso do mistério de Deus presente entre nós” [4].

A atitude apropriada na celebração litúrgica não pode ser outra a não ser uma atitude impregnada de reverência e senso de estupor, que brota do saber-se na presença da majestade de Deus. Não era isso, por acaso, o que Deus queria expressar quando ordenou a Moisés que tirasse as sandálias diante da sarça ardente? Não nascia desta consciência, por acaso, a atitude de Moisés e de Elias, que não ousaram olhar para Deus face a face? [5]

Neste contexto, entendem-se melhor as palavras do Cânon II da Santa Missa, que definem perfeitamente a essência do ministério sacerdotal: astare coram te et tibi ministrare. Assim, pois, são duas as tarefas que definem a essência do ministério sacerdotal: “estar na presença do Senhor” e “servir em tua presença”. O Santo Padre Bento XVI, comentando esta segunda tarefa, apontava que o termo “serviço” é adotado fundamentalmente para referir-se ao serviço litúrgico. Este implica em muitas dimensões e, entre outras, indicava a proximidade, a familiaridade. Concretamente, comentava: “Ninguém está tão perto do seu senhor como o servidor que tem acesso à dimensão mais privada da sua vida. Neste sentido, ‘servir’ significa proximidade, requer familiaridade. Esta familiaridade compreende também um perigo: o de que o sagrado com que temos contato contínuo se converta para nós em costume. Assim se apaga o temor reverencial. Condicionados por todos os costumes, já não percebemos a grande, nova e surpreendente realidade: Ele mesmo está presente, fala-nos e se entrega a nós. Contra esse acostumar-se à realidade extraordinária, contra a indiferença do coração devemos lutar sem tréguas, reconhecendo sempre nossa insuficiência e a graça que envolve o fato de que Ele se entrega assim em nossas mãos” [6].

Frente a toda celebração litúrgica, mas de forma especial na Eucaristia – memorial da morte e ressurreição do seu Senhor, pelo qual se faz realmente presente este acontecimento central de salvação e se realiza a obra da nossa redenção – temos de colocar-nos em adoração diante deste mistério: mistério grande, mistério de misericórdia. O que mais Jesus poderia fazer por nós? Verdadeiramente, na Eucaristia Ele nos mostra um amor que chega “até o extremo” (Jo 13, 1), um amor que não conhece medida [7]. Diante desta realidade extraordinária, permanecemos atônitos e aturdidos: com quanta condescendência humilde Deus quis se unir ao homem! Se dentro de poucas semanas nos comoveremos diante do presépio, contemplando a encarnação do Verbo, o que podemos sentir diante do altar, onde Cristo faz presente no tempo seu sacrifício mediante as pobres mãos do sacerdote? Cabe somente ajoelhar-se e adorar em silêncio este grande mistério de fé [8].

Consequência lógica do que foi dito é que o Povo de Deus precisa ver, nos sacerdotes e nos diáconos, um comportamento repleto de reverência e de dignidade, que seja capaz de ajudá-lo a aprofundar nas coisas invisíveis, inclusive sem muitas palavras e explicações. No Missal Romano, denominado de São Pio V, assim como em diversas liturgias orientais, encontram-se orações belíssimas, com as quais o sacerdote expressa o mais profundo sentimento de humildade e de reverência diante dos santos mistérios: revelam a própria substância de qualquer liturgia [9]. Estas orações presentes no Missal Romano, que em sua edição de 1962 é o missal próprio da forma extraordinária, foram recolhidas em parte no Missal Romano promulgado depois do Concílio Vaticano II e se denominam tradicionalmente “apologias”.

A estas orações se refere a Institutio Generalis Missalis Romani (Instituição Geral do Missal Romano) em seu número 33. Depois de referir-se às orações que o sacerdote, como celebrante, pronuncia em nome da Igreja, afirma que outras vezes, quando reza, “o faz somente em seu nome,para poder cumprir seu ministério com maior atenção e piedade. Assim, as orações propostas antes da leitura do Evangelho, na preparação dos dons, assim como antes e depois da Comunhão, são ditas em segredo”.

Dessa maneira, estas breves fórmulas rezadas em silêncio convidam o sacerdote a personalizarinterioriza e se compreende a estrutura litúrgica e as palavras da liturgia, é possível entrar em consonância interior com ela. Quando isso acontece, o sacerdote celebrante já não somente fala com Deus como uma pessoa individual, mas entra no “nós” da Igreja que ora.

Se a celebração é oração e colóquio com Deus, de Deus conosco e nosso com Deus, transforma-se o próprio “eu” do celebrante, que entra no “nós” da Igreja. Enriquece-se e se amplia o “eu”, orando com a Igreja, com suas palavras, e se estabelece realmente um colóquio com Deus. Assim, celebrar é realmente celebrar “com” a Igreja: o coração se engrandece e está “com” a Igreja em colóquio com Deus. Neste processo, as orações apologéticas e o silêncio contemplativo e adorante que produzem são um elemento essencial; por isso, fazem parte da estrutura da Celebração Eucarística há mais de mil anos.

Em segundo lugar, no caminho rumo ao Senhor, percebemos a nossa própria indignidade. Torna-se necessário pedir ao longo da celebração que o próprio Deus nos transforme e aceite que participemos desta ação de Deus que configura a liturgia. De fato, o espírito de conversão contínua é uma das condições pessoais que torna possível a actuosa participatio dos fiéis e do próprio sacerdote celebrante. “Não se pode esperar uma participação ativa na liturgia eucarística quando se assiste a ela superficialmente, sem antes examinar a própria vida” [10].

O recolhimento e o silêncio antes e durante a celebração se situam neste contexto e facilitam que seja realidade a premissa “um coração reconciliado com Deus permite a verdadeira participação” [11]. Daí que seja claro que as orações apologéticas desempenham um papel importante na celebração.

Por exemplo, as orações apologéticas Munda cor meum, recitada antes da proclamação do Evangelho, ou In spiritu humilitatis, prévia ao lavabo depois da apresentação das oferendas, permitem ao sacerdote que as reza tomar consciência da realidade da sua indignidade e, ao mesmo tempo, da grandeza da sua missão. “O sacerdote é servidor e tem de esforçar-se continuamente por se sinal que, como dócil instrumento em suas mãos, refere-se a Cristo” [12]. O silêncio e os gestos de piedade e recolhimento do celebrante também movem os fiéis que participam da celebração a perceberem a necessidade de preparar-se, de converter-se, dada a importância do momento em que se encontram na celebração: antes da leitura do Evangelho, no início iminente da oração Eucarística.

Por outro lado, as apologias Per huius aquae et vini durante o Ofertório ou Quod ore sumpsimus Domine durante a purificação dos vasos sagrados, enquadram-se perfeitamente neste desejo de ser introduzidos e transformados em e pela ação divina. Uma e outra vez, temos de trazer à nossa mente e coração que a liturgia eucarística é ação de Deus que nos une a Jesus através do seu Espírito [13]. Estas duas apologias, às quais nos referimos, encaminham nossa existência rumo à Encarnação e à Ressurreição. E, na verdade, constituem um elemento que favorece a realização desse desejo da Igreja: que os fiéis não fiquem assistindo ao mistério de fé como estranhos e mudos expectadores, mas que agradeçam a Deus e aprendam a oferecer-se a Cristo [14].

Não nos parece atrevido afirmar que as apologias também desempenham um papel de primeira linha na hora de “recordar” o ministro ordenado que ele “desempenha o papel do próprio Sacerdote, Cristo Jesus. Se é assimilado ao Sumo Sacerdote, pela consagração sacerdotal recebida, então goza da faculdade de agir pelo poder do próprio Cristo, a quem representa (virtute ac persona ipsius Christi)” [15].

Ao mesmo tempo, estas orações recordam ao sacerdote que, por ser ministro ordenado, é “o vínculo sacramental que une a ação litúrgica ao que disseram e realizaram os apóstolos e, por eles, o que disse e realizou Cristo, fonte e fundamento dos sacramentos” [16]. As orações ditas pelo celebrante em segredo constituem, por isso, um meio extraordinário para unir uns aos outros, formar uma comunidade que é “liturga” e que participa inteira orientada a Deus por Jesus Cristo.

Uma das apologias, conservada no atual Ordo Missae, plasma perfeitamente o que estamos dizendo: Domine Iesu Christe Fili Dei vivi qui ex voluntate Patris cooperante Spiritu Sancto per mortem tuam mundum vivificasti (“Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, que, por vontade do Pai, cooperando com o Espírito Santo, com a vossa morte destes a vida ao mundo”). De fato, as orações que o sacerdote reza em segredo – e esta concretamente – podem ajudar de modo eficaz – a sacerdotes e fiéis – a alcançar a clara consciência de que a liturgia é obra da Santíssima Trindade. “A oração e a oferenda da Igreja são inseparáveis da oração e da oferenda de Cristo, sua Cabeça. Trata-se sempre do culto de Cristo em e pela sua Igreja” [17].

Assim, pois, as apologias, há mais de mil anos, configuram-se como simples fórmulas acrisoladas pela história, repletas de conteúdo teológico, que permitem ao sacerdote quando as reza, e ao povo fiel que participa vivendo o silêncio, perceber o mistério de fé do qual participam e assim unir-se a Cristo e reconhecê-lo como Deus, irmão e amigo.

Por estes motivos, temos de alegrar-nos pelo fato de que, apesar da reforma litúrgica pós-conciliar ter reduzido drasticamente seu número e retocado notavelmente o texto destas orações, elas continuam estando presentes também no Ordinário da Missa mais recente. É um convite aos sacerdotes a não descuidarem destas orações durante a celebração, assim como a não transformá-las de orações do sacerdote a orações de toda a assembleia, lendo-as em voz alta como as demais orações. As orações apologéticas se baseiam e expressam uma teologia diferente e complementar à que constitui o pano de fundo das demais orações. Esta teologia se manifesta na maneira silenciosa e reverente com que são rezadas pelo sacerdote e acompanhadas pelos demais fiéis.
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Notas

[1] João Paulo II, Mensagem à Assembleia Plenária da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos (21.IX.2001)

[2] J. Ratzinger, Prefácio ao primeiro volume dos meus escritos.

[3] Cf. Bento XVI, Homilia na Vigília Pascal, 22.III.2008.

[4] Bento XVI, Ex. apost. post.Sacramentum caritatis, n. 65.

[5] Cf. João Paulo II, Mensagem à Assembleia Plenária da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos (21.IX.2001)

[6] Bento XVI, Homilia Missa Crismal, 20.III.2008.

[7] João Paulo II, .Carta enc.Ecclesia de Eucharistia, 11.

[8] João Paulo II,Carta aos sacerdotes na Quinta-Feira Santa 2004.

[9] Cf. João Paulo II, Mensagem à Assembleia Plenária da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos (21.IX.2001)

[10] Bento XVI, Ex. apost. post.Sacramentum caritatis, n. 55.

[11] Idem.

[12] Bento XVI, Ex. apost. post.Sacramentum caritatis, n 23.

[13] Cf. Bento XVI, Ex. apost. post.Sacramentum caritatis, n. 37.

[14] Cf. Const.Sacrosanctum Concilium, 48.

[15] Pio XII, Carta encíclica Mediator Dei cit. no Catecismo da Igreja Católica, 1548.

[16] Catecismo da Igreja Católica, 1120.

[17] Catecismo da Igreja Católica, 1553.

Retirado de: Sancta Missa Portugal
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